Pela Janela (2018) – Primeiro Grande Filme Brasileiro do Ano – Crítica
Pela Janela Magali Biff

Pela Janela é daquelas obras que estreiam nas primeiras semanas do ano, mas que sabemos que vai resistir ao longo da temporada. Há força aqui em diversas frentes. Em um primeiro olhar é fácil elogiar o trabalho da ótima Magali Biff (Deserto) e o elogio tem que ser de fato feito, já que a atriz domina o filme. Contudo, diversos outro méritos merecem ser ressaltados na incrível direção de estreia da Caroline Leone.

Caroline domina uma arte muito difícil: a da sutileza. Ela consegue extrair humanidade e delicadeza de cada plano, cada corte e, claro, dos atores – além de Magali, Cacá Amaral também presta um belo serviço aqui. A diretora sabe contar a história usando dois elementos instigadores: a calma e a não exposição.

Acompanhamos a rotina de Rosália. Após décadas trabalhando em uma empresa é demitida. Sem norte, a nossa protagonista é acolhida pelo irmão José. Ele estava de viagem para a Argentina e carrega a irmã em uma bela jornada. Pela Janela, portanto, é um roadmovie, onde o clichê de valorizar o trajeto é bem válido.

Pela Janela

A direção opta por planos longos. Vemos a rotina seja no trabalho, em casa e nos demais ambientes, sem pressa. Isso permite que o público seja íntimo de Rosália. Rapidamente entendemos que ela é dedicada, organizada e sentimos todo o peso daqueles anos vividos. Repare em como a personagem arruma os lençóis ou nas vezes lavando roupas. A câmera na mão, seguindo Rosália, também é funcional nesse sentido.

Curiosa a opção que em cenas capitais o filme cortam antes da ação se concretizar. Não raro entendemos o que aconteceu apenas nas cenas seguintes. Isso reforça o drama (como na cena da demissão) e até o humor (não vou estragar em qual momento). Já vale adiantar que o corte final é daqueles precisos, que você acaba o filme em um misto de emoção e vontade de aplaudir.

Pela Janela

Outro ponto destacável é o desenho de som. No começo vemos uma intencional sujeira sonora urbana. Não tarda para constantemente percebemos pequenos sons que em outros filmes poderiam passar batidos: o crepitar do fogo, a mensagem no celular e os sons das águas. Muito vívidos, todos eles realçam a nossa percepção do mundo de Rosália.

Por falar em Rosália, vamos falar de Magali Biff. Peço licença ao Cacá Amaral que tem uma atuação generosa e que faz a colega ter o devido destaque. Mas o filme é dela. Toda forma, fica o registro que os momentos com ele são pra lá de dignos.

Depois da participação no ótimo Deserto, agora Magali tem daqueles trabalhos que toda grande atriz deseja. Perseguida por uma câmera que sabe buscá-la, Biff explora cada nuance da personagem. O choro com lágrimas vem na hora certa, o choro sem lágrimas (o em forma de cicatriz) também. A fala tranquila e o olhar lembram um verso de Fernando Pessoa: “sinto-me nascido a cada momento / para a eterna novidade do mundo”.  A cena final é de uma potência rara. A atuação dela parece fácil, mas só é fácil, pois Magali assim o faz.

Pela Janela

Pela Janela não tem este título por acaso, a metáfora de expandir o olhar para para novos conhecimentos, novos mundos, é visível. Em diversas cenas vemos esse abrir de Janela, literal ou não. Uma das marcas é o belíssimo momento nas cataratas. A lavagem, quase um rito de passagem, é tocante e muito bem filmada (já falei que estou espantado, como é o primeiro trabalho da diretora?).

No fim entendemos que sim Rosália tinha muito a descobrir, que o aprendizado é constante, mas principalmente vemos como ela ainda tem a ensinar. Azar do ex-empregador dela. Sorte a nossa. Os diversos prêmios que Pela Janela tem angariado mundo a fora são plenamente entendíveis. Guardando algumas proporções, lembra Lucky, filme do ano passado e que foi o último trabalho de Harry Dean Stanton

Confira o nosso Top 10 Melhores filmes nacionais de 2017. Não é difícil palpitar que Pela Janela estará na lista de 2018. Se tivermos 10 filmes nacionais melhores, será um ano espetacular para o nosso cinema.

 

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Pela janela

Overview

Rosália (Magali Biff) é uma dedicada operária de 65 anos que dedicou a vida ao trabalho em um fábrica de reatores da periferia de São Paulo. Certo dia acaba demitida e é consolada pelo irmão José (Cacá Amaral), com quem vive. Ele resolve levá-la em uma viagem de carro até Buenos Aires com o objetivo de distraí-la e no país vizinho Rosália vê pela primeira vez um mundo desconhecido e distante de sua vida cotidiana.

Metadata
Director Caroline Leone
Writer
Author
Runtime
Country  Argentina Brazil
Release Date 13 agosto 2017
Actors
Starring: Magali Biff, Cacá Amaral

Nota do Razão de Aspecto

 

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