Operação Overlord (Overlord, 2018) – Crítica
Operação Overlord

Ao reassistir ao trailer de Operação Overlord, novo filme produzido por J.J.Abrams, antes de escrever esta crítica, reforcei a impressão de que ele revela demais da história. Portanto, se você ainda não sabe sobre o que se trata o filme, recomendo que você vá assisti-lo assim. Nesta crítica, não darei spoilers sobre o que os personagens encontram, sobre a resolução de cenas ou do filme como um todo, mas será inevitável comentar um pouco sobre o roteiro – nada que estrague demais a experiência, mas estejam avisados.

Operação Overlord foi o codinome utilizado pelas forças aliadas na 2ª Guerra Mundial para se referir à invasão da Normandia, no que ficou conhecido como o “Dia D”, 6 de junho de 1944. No filme, acompanhamos a missão paralela de um grupo de paraquedistas que, na noite anterior à mais significativa vitória dos Aliados, tem a missão de destruir um radar instalado no alto da torre de uma igreja, em uma pequena vila da França ocupada. Acontece que existem mais elementos nessa cidade do que podem antecipar nossos protagonistas.

O personagem principal é o soldado Boyce (Jovan Adepo, que segura bem o papel), inexperiente na guerra e cheio de virtudes morais). Sua postura entra em atrito com a do Cabo Ford (Wyatt Russell), homem desumanizado pela guerra, impiedoso e focado exclusivamente na missão. No grupo temos ainda Tibbet (John Magaro), Chase (Iain De Caestecker), Dawson (Jacob Anderson) e Rosenfeld (Dominic Applewhite). Ao chegar à vila francesa onde se localiza o radar que deve ser destruído, eles acabam conhecendo Chloe (Mathilde Ollivier), que cuida de sua tia e de seu irmão mais novo, Paul (Gianny Taufer, que mecererá comentários especiais mais à frente), enquanto sofre com a presença e o assédio dos soldados nazistas, chefiados por Wafner (Pilou Asbæk, o Euron Greyjoy de Game of Thrones). 

Operação Overlord é dirigido por Julius Avery, australiano que tinha experiência na função em apenas um longa-metragem anteriormente (Sangue Jovem, de 2014). Como diretor de curtas, entretanto, ele já é reconhecido, tendo, inclusive, ganho a Palma de Ouro de Cannes e o Festival de Berlim por Jerrycan (2008). Sob a produção de J.J. Abrams, ele mostra uma segurança impressionante na condução do filme, e vale à pena prestar atenção em seu próximo trabalho, uma nova adaptação de Flash Gordon, ainda sem previsão de estreia.

O roteiro, assinado por Billy Ray (de Capitão Phillips e Jogos Vorazes) e Mark L. Smith (de O Regresso) consegue misturar com competência elementos de filmes de guerra, suspense, horror e ação. Mesmo se utilizando de alguns clichês, o resultado final tem muito mais acertos do que erros. Por exemplo: a explicação da situação da guerra e dos que os personagens têm de fazer não é dada por um letreiro inicial ou por diálogos ultraexpositivos. Em duas linhas o sargento da equipe consegue resumir a importância da missão para o contexto geral de ataque, e o discurso motivacional antes do salto de paraquedas inclui informações de forma orgânica, sem parecer que o diálogo está ali só para informar a audiência do cinema.

O mesmo acontece com os personagens. Ainda que eles sejam praticamente unifacetados (o soldado de bom coração, o falastrão, o durão, etc), em cinco minutos o filme já consegue fazer com que nos importemos com eles. Dessa forma, quando eles correm risco, se machucam ou morrem (dã, tem morte em filme de guerra, jura?), o público realmente sente as perdas. E uma surpresa muito bem-vinda é a utilização da criança no filme: ela não é prodígio, não resolve as coisas sozinha, não está doente, nem é… infantilizada. É apenas uma criança sendo criança no meio da guerra: ao mesmo tempo se fascina e teme os soldados, imita os adultos, entra em pânico frente ao perigo e estabelece um vínculo honesto com os personagens com quem interage. Algo raro no cinema, digno de menção especial. Ah sim… acreditem, ela causa até jump scares divertidos!

Um dos grandes méritos do filme é seu ritmo: não há momentos arrastados durante suas quase 1h50 de duração. São três atos relativamente bem definidos, sendo o segundo o mais instigante. Mesmo nos momentos em que o filme se torna menos acelerado, as situações são preocupantes ou incômodas. Toda vez que o roteiro dá a impressão que vai esticar alguma cena mais lenta, acontece algo que faz a audiência retomar o interesse pela história.

Assim como o bom Corra! (2017), Operação Overlord transita entre diferentes gêneros (pode discutir gênero aqui, produção?): ao filme de guerra inicial vão-se inserindo elementos de estranhamento, até que temos um segundo ato que fará fãs de H.P.Lovecraft delirarem (não o Lovecraft de Cthulhu e dos elder ones, mas aquele de Herbest West). A combinação de nazistas com horror vai agradar também aos fãs de Hellboy. Surpreendentemente, o filme não economiza em cenas visualmente incômodas à medida que Boyce entende mais sobre o que se passa à sua volta, e não poupa a violência – inclusive com cenas bastante gore – em sua segunda metade.

Em termos técnicos, o filme também não decepciona: tanto os efeitos de computação quanto os efeitos práticos são competentes, a maquiagem impressiona e a trilha sonora (de Jed Kurzel) ajuda a compor o clima de suspense que se mantém ao longo do filme – embora seja algo indicativa demais em alguns momentos e não seja a mais original do mundo, mas funciona. Os cenários também funcionam, e o contraste entre o lar de Chloe e a base nazista é perfeito para inserir o espectador na mesma tensão crescente de Boyle. Destaque para a mixagem de som, que pode atrair atenção da Academia para uma indicação ao Oscar.

Aliás, este é um traço que pode se aplicar a todo o filme: a originalidade menos nos elementos apresentados do que em sua combinação. Há vários sustos com preparações e desfechos que você provavelmente já viu em outros filmes. Ainda assim, por serem bem feitos, não parecem muito forçados (com uma ou duas exceções desnecessárias, como, por exemplo, a de um vulto passando rapidamente pela tela enquanto o protagonista olha para outro lado). Próximo ao final há um plano sequência, concentrado em Boyle, que é funcional e orgânico, ainda que, também aqui, não pareça apenas uma exibição de tecnicismo vazio.

Claro que há alguns deslizes, como a desnecessária retomada da menção ao objetivo da missão, feita por duas ou três vezes ao longo da história. O lado de alívio cômico funciona quase sempre, mas às vezes fica um pouquinho exagerado no soldado tagarela Tibbet. E, embora o roteiro possa surpreender, muitas das resoluções das cenas, em especial no terço final do filme, tem um alto grau de previsibilidade. Ainda assim, o filme não imbeciliza a audiência, o que é excelente. Alguns diálogos e posturas na utilização das armas – além da presença de soldados brancos e negros no mesmo pelotão são anacrônicos, mas nada que incomode o espectador médio ou prejudique o entretenimento.

Algo bastante gostoso é que fica um gostinho de “quero-mais” ao final do filme. Audiência e protagonistas entram em contato com algo que parece ser só uma ramificação de algo que tem potencial a ser bem mais explorado em prequels, continuações e/ou spin offs. Sem que o filme deixe cavada uma continuação óbvia (e não, não há cenas pós-créditos), os desdobramentos possíveis do que é descoberto neste filme podem render bastante (em termos de histórias e de dinheiro pro senhor Abrams!).

Longe de ser o midas perfeito (temos aí O Paradoxo Cloverfield que não me deixa mentir), que muita gente imagina, J.J.Abrams acertou mais uma vez em Operação Overlord. Sem precisar recorrer a um elenco estelar ou a um diretor incensado, Operação Overlord vai divertir, incomodar e assustar, em boas doses. Além do quê, é bastante oportuno um filme que mostre que, sem sombra de dúvida, os nazistas são os monstros da história.

por D.G. Ducci

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Veja também o vídeo no qual Aniello Greco, D.G.Ducci e Lucas Albuquerque mostram suas primeiras impressões sobre Operação Overlord, logo na saída do cinema !

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Overlord

20181 h 50 min
Overview

Uma tropa de paraquedistas americanos é lançada atrás das linhas inimigas para uma missão crucial. Mas, quando se aproximam do alvo, percebem que não é só uma simples operação militar e tem mais coisas acontecendo no lugar, que está ocupado por nazistas.

Metadata
Director Julius Avery
Writer
Author
Runtime 1 h 50 min
Release Date 10 outubro 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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