O rei do show (The greatest showman, 2017) – Crítica

Alçado ao estrelado pela sua interpretação de Wolverine, o ator australiano Hugh Jackman não poderia ser, na vida pessoal, mais diferente do mutante que interpretou em nove filmes. Longe da personalidade angustiada e violenta, Jackman é sorridente e versátil, e, em vez das batalhas, prefere os palcos dos musicais, tendo emprestado seu talento, longe das telonas, a The Boy From Oz, Oklahoma e A Bela e a Fera (e à cerimônia do Oscar em 2009…):

No cinema, foi uma das forças motrizes por trás de Os miseráveis (2012), filme pelo qual foi, com justiça, indicado ao Oscar de Melhor Ator. Agora em 2017, Jackman faz parceria com Michael Gracey, diretor estreante, para estrelar O rei do show, musical que, conta-se, era um desejo de Jackman desde 2009, e que conta parte da história de P.T.Barnum, personagem histórico que fundou nos anos 1870 o Circo Barnum & Bailey, que levava o epíteto “O maior espetáculo da Terra”.

Roteirizado por Bill Condon e Jenny Bicks, com base em história de Jenny Bicks, O rei do show é uma grande homenagem aos primórdios do show business. Foi indicado a três Globos de Ouro (Melhor Filme de Musical ou Comédia; Melhor Ator para Hugh Jackman e Melhor Canção para “This is me”) e tem indicações para o Oscar cogitada em várias categorias. Condon escreveu o roteiro de Chicago (2002) e dirigiu Dreamgirls: em busca de um sonho (2006), já tendo boa experiência com musicais.

Na trama, após perder o emprego burocrático em que trabalhava, Barnum, de origem humilde, esforça-se para realizar o sonho de oferecer uma vida melhor para sua esposa Charity (Michelle Williams), amor desde a infância, e para suas filhas. Para isso, tem a ideia de juntar pessoas diferentes, como um anão (Sam Humphrey), uma mulher barbada (Keala Settle), gêmeos siameses ou um homem de altura gigantesca. Com talento para vender seu show de excentricidades, Barnum consegue alcançar o sucesso de público. Mas dinheiro não basta para Barnum. Ansioso pela aceitação da alta sociedade, ele se associa a Phillip Carlyle (Zac Efron, de volta aos musicais), filho de uma família rica, que não demora a se apaixonar por Anne Wheeler (Zendaya), trapezista negra do Circo.  O elenco conta ainda com Rebecca Ferguson no papel de Jenny Lind, famosa cantora europeia.

Especialista em efeitos visuais, Gracey concentra atenção no visual do filme, que, em momentos, busca remeter ao passado e aos filmes antigos – desde o logotipo e a fanfarra da Fox em versão clássica, passando pelos créditos apresentados como nos filmes mudos, até o visual propositalmente artificial da cidade. A fotografia de Seamus McGarvey colabora na composição. Por outro lado, o filme tem uma explosão de cores nos figurinos circenses criados por Ellen Mirojnick (que também trabalhou este ano em Logan Lucky: roubo em família).

A trama é simples e aposta na ingenuidade e nos sonhos, o que pode soar um pouco sentimental demais para as audiências contemporâneas. Barnum é um homem que ama sua família e seus erros e acertos têm a ver com isso. O arco de (não) aceitação dos excêntricos pela sociedade (que tem ecos do Monstros de Tod Browning) ou os desafios do casal Phillip-Anne são resolvidos com uma ou duas canções. Mas isso não é necessariamente um demérito, já que a linguagem dos musicais permite esse tipo de solução.

Jackman é a alma do filme, mas todo o elenco de apoio é carismático. Williams traz um ar maternal e amoroso, e transita com muito mais dignidade em papéis que poderiam se tornar apenas sem sal (alguém falou de Carey Mulligan?). Aliás, como cantores e dançarinos, ela e Jackman deixam Emma Stone e Rian Gosling envergonhados… Outra atriz que vai cimentando sua carreira com carisma é Zendaya, que já havia sido coadjuvante de destaque em Homem Aranha: de volta ao lar (crítica do Razão aqui). Quem destoa um pouco é Rebecca Ferguson, que apresenta alguns maneirismos artificiais em suas cenas no palco.

Junto com a turma de editores (com destaque para Tom Cross, ganhador do Oscar de Edição , pelo excelente Whiplash, de 2014), Gracey consegue estabelecer movimentos interessantes de câmera – esses sim, bem distantes dos musicais clássicos. São tomadas de câmera diferentes, que hora se estabilizam para mostrar a coreografia dos atores, hora dançam junto com a música – notem como a letra, a coreografia e a câmera se combinam no dueto de amor que se passa no picadeiro do circo. Além disso, com tomadas pequenas e simples durante as cenas, como o close em uma cadeira vazia ou mãos que se aproximam e se afastam, os realizadores conseguem sintetizar sentimentos complexos de forma instantânea.

A música

 Um musical depende, é claro, das canções que servirão de alicerce para evolução de sua trama. Em O rei do show, não existe muito do “jeito Broadway” de compor para musicais, nem o flerte jazzístico da trilha de La La Land (2016, crítica do Razão aqui). Neste quesito, o filme afasta-se da homenagem ao antigo e mergulha com força no século XXI. Benj Pasek e Justin Paul, letristas no filme de 2016, aqui entregam uma trilha recheada de influências do pop norte-americano contemporâneo. São canções que facilmente poderia entrar no repertório de Pink, Justin Timberlake, Beyonce ou Christina Aguillera. Algumas coreografias relembram Rihanna, não Bob Fosse. Só faltou (olha que se procurar direito…) alguém cantando com vocoder.

Essa escolha de estilo musical tem paralelo com o arco do protagonista:  Barnum tem o desejo de ver sua arte reconhecida pela crítica e pela alta sociedade, o pop também luta contra o estigma de arte menor, de música de qualidade duvidosa.

Entre as músicas de destaque, “The Greatest Show”, peça que abre o filme, começa com um coro destinado a virar vinheta de programas de TV e segue para a apresentação feita por Jackman. Bom cantor, ele peca um pouco nos graves com poucos harmônicos, mas acha sua melhor voz nas notas mais agudas. “This is me”, interpretada pela excelente Keala Settle, que além de se encaixar bem na trama, tem todo jeito – corrijam-me se eu estiver doido – de tema de Jogos Olímpicos. Desconfio que ouvirei o “ôôô” da música em contextos diferentes do filme. “Rewrite the stars”, tema romântico traz Zendaya e Zac Efron em uma das melhores cenas do filme que fará os apaixonados se arrepiarem. Os fãs de Rebecca Ferguson não devem se entusiasmar muito, pois atriz foi dublada por Loren Allred na balada “Never enough”.

A simplicidade do roteiro e o sentimentalismo passam um bocadinho do ponto. Além disso, o filme não funciona de fato como biografia de P.T.Barnum, uma vez que aborda as polêmicas que povoaram sua vida de forma bastante leve e deixa de fora todo um lado da vida do protagonista (seu envolvimento com a política). Por fim, há um ou outro efeito digital perto da conclusão do filme que são bem constrangedores. Mesmo assim,  O rei do show é um bom filme, com personagens carismáticos, uma direção surpreendentemente boa para um estreante, e com uma trilha coerente com o que se propõe a ser, ainda que possa soar estranha para ouvidos acostumados com musicais tradicionais.

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The Greatest Showman

Overview

Inspirado na vida de P.T. Barnum, um dos pioneiros do circo, "O rei do show" é um musical que conta a história de um homem visionário que saiui do nada para criar um espetáculo que se tornou grande sucesso de público".

Metadata
Director Michael Gracey
Writer
Author
Runtime
Release Date 20 dezembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 24    Média: 4.1/5]
  • Maurício Costa

    Não vejo pq Emma Stone e Ryan Gosslin deveriam se envergonhar. Não são atores de musicais, es não era pra ser. Se Chazelle quisesse protafgonistas calibrados em musicais, ele os teria escolhida. É exatamente o toque de simplicidade de ordinariedade que á o tom de la la land (enquanto todo o elenco de apoio é de dançarinos e atores talhados para musicais). Quanto a este filme, achei realmente mediano. O roteiro é uma bagunça, soa mais como uma peça teatral filmada. W sim, tem algumas canções e sequências lindas, além da sutil, mas marcante homenagem a Thriller no primeiro número do circo.

    • Lucas Albuquerque

      Socorro, concordei mais com o maurício do que com o ducci…

      • Maurício Costa

        Acontece nas melhores famílias.

  • Alci Eugenia

    Eu amei o filme, envolvente, empolgante e muito sóbrio.