O que te faz mais forte – Nem todo filme que emociona funciona
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O que te faz mais forte é uma experiência intensa. Muitos vão se emocionar e talvez chorar. Outros irão se irritar e se entendiar. E não é difícil entender por que. Faz parte da proposta, do modelo do filme. O que te faz mais forte conta a história real de Jeff Bauman, um americano que perdeu as pernas no atentato terrorista da Maratona de Boston de 2013, e se tornou um símbolo de superação da tragédia.

O longa de David Gordon Green se propõe ser um retrato íntimo, ultrarrealista, do sofrimento e superação de Bauman e sua família. E atinge plenamente o objetivo. Não há nada no filme que aborde outro tema.  Cada take, cada diálogo, cada segundo de filme está ali para retratar o sofrimento extremo e a dura luta destes personagens reais. E por isto mesmo O que te faz mais forte é péssimo cinema.

Sim, isto parece estranho. Mas entenda que o apego conceitual a um único conceito é uma faca de dois gumes. Pode gerar uma poderosa narrativa ou uma experiência enfadonha e repetitiva. É fácil percebermos isto em filmes que não se levam a sério, que sabem que estão ali para apenas entreter o público de uma forma simples e direta.

Coisas como a franquia Sharknado, ou Transformers. São filmes que funcionam, atraem uma legião de fãs, por entregar exatamente o que prometem, e nada mais. E mesmo os fãs destas franquias (eu assisti os 5 Sharknados, e estou ansioso pelo 6) não têm nenhum problema em reconhecer a futilidade e a tolice das narrativas. Não são bons filmes, na verdade são divertidos exatamente por seus defeitos.

Agora quando transportamos este mesmo tipo de estrutura narrativa simplista e codificada para dramas, algo acontece. O público e a crítica deixa de ver o apelo sentimental raso e, por se emocionarem, acreditam estar diante de uma poderosa narrativa.

Sabemos não nos levar a sério quando estamos rindo, mas pensamos que quando estamos chorando, ou nos revoltando, estamos diante de algo grandioso. Mas não se iludam, filmes como A Cabana, Beleza OcultaPolícia Federal ou O que te deixa mais forte merecem estar no mesmo grupo de filmes como Sharknado. São formulaicos, rasos e pasteurizados. Podem gerar reações fortes para o público alvo, afinal nós temos mais ou menos os mesmos gatilhos emocionais dos outros. Mas não são grandes histórias.

O que mais incomoda em O que te deixa mais forte é a ideia de que a intensidade e o realismo da história podem vir a substituir roteiro, interpretação, direção, sentido. Todos os personagens são não apenas unidimensionais, mas compartilham do mesmo pathos. Apenas dor, superação, persistência e trauma. E não de uma forma estruturada, mas em uma avalanche. David Gordon Green aposta em cutucar os mesmos botões, cada vez mais forte, até traumatizar o público.

O que muitas vezes acaba por gerar o efeito contrário. Quando o drama se torna dramalhão, acabamos por nos anestesiar e nos irritar. Não, eu não preciso de ver uma pessoa cair da privada para me solidarizar com sua mutilação. E não consigo comemorar a morte de terroristas, ou estar na mesma vibração emocional de quem o faz. O ufanismo da resistência não me comove, e a insistência em gritar 50 vezes a mesma mensagem acaba por irritar.

Não há muito mais o que falar sobre o filme. As atuações são intensas ao máximo, sem descanso ou evolução. A trilha é óbvia, banal e exagerada. A narrativa é linear, arrastada e enfadonha. A direção é burocrática e banal. O que daria um filme morno. Mas a insistência dele em ser grande o deixa apenas amargo. Há alguns méritos técnicos (a CGI da ausência de pernas, a fotografia, e só), mas os defeitos sobrepujam e muito os méritos.

E é exatamente esta falta de sensibilidade narrativa, a falta de sutileza, que pode gerar o efeito reverso. Deixamos de nos simpatizar com a vítima, e passamos a querer agredí-la. Sinto muito Bauman, você parece um cara muito bacana e sofreu e sofre algo que ninguém merece. Sua coragem em expor seu drama e usá-lo como símbolo merece elogios. Mas pelo exagero emocional, saí do cinema com vontade apenas de dizer que perder as pernas não te faz alguém especial.

Quer um bom drama, capaz de levar as lágrimas, sobre deficiência física? Fique com Meu pé esquerdo. Lá temos uma história, com arcos, conflitos, evolução. E não uma repetição nauseante da mesma sensação.

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Stronger

Overview

As memórias de Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal) sobre o dia mais impactante de sua vida, 15 de abril de 2013. Enquanto esperava seu grande amor, Erin (Tatiana Maslany), finalizar a participação na Maratona de Boston, ele foi atingido por uma das bombas do atentado terrorista e perdeu as duas pernas.

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Release Date 22 setembro 2017

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