O Mecanismo (Netflix, 2018) – Crítica

O Mecanismo nasceu destinada a ser um série amada ou odiada, independentemente de ter ou não ter méritos como obra audiovisual, ao se propor a dramatizar eventos reais e adaptar fatos e personagens para melhorar o “efeito dramático”.  Na era das notícias falsas e da pós-verdade, temperada pela divisão extrema da sociedade brasileira,  essas adaptações, embora supostamente cobertas pelo disclaimer no início de cada episódio, acabam resultando em escolhas problemáticas de construção de personagens que todos conhecemos, a quem são atribuídas frases e atitudes que não correspondem aos fatos. Claro, haverá quem argumente que os fatos são relativos e que a obra audiovisual pode reinterpretá-los, porém, interpretações e, digamos, criações de situações de bastidores são totalmente diferentes de atribuir falas e atitudes de uma personalidade pública a outra. Nesse ponto, O Mecanismo é intelectualmente desonesta, porque se atribui o direito de alterar a história dos crimes que relata sem nenhuma preocupação, apenas alegando que se trata de liberdade criativa. No frigir dos ovos, o debate acaba resumido àqueles que consideram a série um ataque à esquerda e àqueles que querem acreditar que tudo que ali está é verdade, sem preocupação alguma com veracidade das informações. Em se tratando de fatos tão recentes da história política do nosso país e ainda pulsantes no contexto atual, O Mecanismo foi pelo menos temerário na forma de tratar o tema.

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Se desconsiderarmos quaisquer divergências sobre a verdade do que a Lava Jato conta e se aceitarmos com verdade absoluta a versão oficial dos procuradores e do juiz Sérgio Moro, os fatos já não seriam escandalizantes por si só? Com acesso público -graças aos vazamentos – aos textos das delações premiadas, seria necessário criar relações inexistentes e atribuir novos crimes a diferentes personalidades? José Padilha sempre poderá alegar que sim, que essas alterações foram feitas em favor de uma narrativa mais consistente.  Neste caso, o diretor incorre em dois erros crassos: o primeiro é o de ignorar, ou fingir ignorar, como as coisas repercutem no nosso contexto atual, e o segundo é o de que acreditar que a narrativa de O Mecanismo esteja consistente como obra audiovisual, quando, na verdade, resultou em uma paródia daquilo que pretendia ser.

Ao contrário do que a maioria da esquerda brasileira tem argumentado, não interpretei O Mecanismo como uma propaganda anti-esquerdista. Ainda que a série tenha distorcido alguns fatos e atribuído, “bobocamente”, ações e falas a personagens diversos daqueles que as executaram na vida real, O Mecanismo é uma metralhadora giratória despolitizada, anárquica, preocupada em destruir todo o sistema político, que, consequentemente, acaba com a politização do debate. Não faltam passagens que buscam dar algum equilíbrio: Aécio é chamado de bandido, Temer é uma espécie de bobalhão manipulado, Janot é um covarde hesitante, Moro é um juiz sério, mas vaidoso, Dilma é uma caricatura digna do Zorra Total, Márcio Thomaz Bastos mais parece um Don Corleone e todos os políticos e instituições, inclusive a Polícia Federal, são tratadas como corruptas, exceto o Ministério Público, que, aqui, erra por vaidade. Ao assumir esse discurso, fica evidente porque José Padilha alega que as mudanças não fazem diferença, já que “é tudo a mesma coisa”. Infelizmente, a realidade é mais complexa do que parece.

Quando comecei O Mecanismo, esperava encontrar uma narrativa polêmica, mas com a qualidade de produção e a consistência narrativa de Narcos, também baseada em eventos reais “adaptados para melhorar o efeito dramático” e também produzida por José Padilha. Infelizmente, o que encontrei foi uma espécie de “primo pobre”, com diálogos fraquíssimos, péssima direção de atores, erros grotescos de montagem e cenas que chegam a provocar vergonha alheia – e não, a vergonha alheia não tem relação com o conteúdo das cenas.

A narração é um dos recursos favoritos de José Padilha, presente em suas principais obras (Tropa de Elite, Tropa de Elite 2: O inimigo Agora é Outro e Narcos), mas, em O Mecanismo, é mal utilizada, com a mudança de foco narrativo entre os personagens de Selton Mello e Caroline Abras feita de forma confusa e, frequentemente, apenas anunciando algo que vai acontecer na cena seguinte; “fulano vai fazer tal coisa”, e fulano faz o que foi dito. Esse tipo de narração fica redundante, primário e mais parece um erro na montagem do que uma escolha consciente. Claro, devemos considerar que a série foi lançada, simultaneamente, em 190 países e que o público fora do Brasil precisa compreender a trama, mas, na prática, a narração explica pouco e interfere muito, com péssimo resultado. Além disso, na segunda metade da temporada, o roteiro opta por praticamente eliminar a participação do personagem de Paulo Roberto Costa, no qual investiu muito tempo para desenvolver e não chegar a lugar algum.

Na parte técnica, a mixagem de som está abaixo da crítica, a direção de arte de baixa qualidade (somente em O Mecanismo os Procuradores da República moram em apartamentos modestos de classe média, por exemplo) e a trilha sonora, embora bem feita, tenta dar um tom permanente de suspense, mesmo quando não há suspense algum e já sabemos o que vai acontecer.

Algumas cenas têm direção primária, tão óbvia que podem levar o riso, por exemplo: a festa a carceragem da PF, com champagne, para comemorar a ida do processo ao supremo e, logo depois, o supremo tomar uma decisão correta pelo motivos errados (na série, ninguém toma decisões por motivos certos, exceto os protagonistas); o encontro do PGR com os procuradores, no qual ele joga na lata de lixo abaixo da sua mesa, em frente os procuradores, L-I-T-E-R-A-L-M-E-N-T-E, o acordo que faria com as empreiteiras; o diálogo de Aécio com Temer sobre o impeachment e todas as cenas envolvendo Lula. Se uso os nomes originais, algo que o seriado não fez para evitar processo, o faço porque os nomes dos personagens e mesmo das INSTITUIÇÕES foram substituídos por trocadilhos péssimos, tais como, Lúcio Lemes (Aécio), Samuel Thames (Temer), Janete Ruskov (Dilma) Paulo Rigo (Moro) ou Polícia Federativa e Procuradoria Geral Republicana. Os nomes escolhidos e a trocas foram tão ruins que tornaram O Mecanismo uma paródia de si mesma.

O Mecanismo também apela para cenas gratuitas de sexo, uma delas com o personagem que representa o juiz Sérgio Moro, sem função alguma na narrativa (para quê?!), e outra com Caroline Abras, que, embora esteja contextualizada, serve mais para explorar a nudez  do que para levar a história adiante. Ademais, há uma cena, em especial, com um plano detalhe das nádegas de uma personagem totalmente desnecessário, a não ser para explorar o corpo da atriz coadjuvante.

A despeito de todos os problemas, O Mecanismo tem seus méritos. Na parte técnica, a fotografia é belíssima, ajudada pelas belas paisagens de Brasília, do Rio e de Curitiba. Nas interpretações, Enrique Dias, como Roberto Ibrahim (ou Alberto Youssef, como preferir) entrega o melhor personagem: um vilão ambíguo, carismático, inteligente envolvente, e Caroline Abras, como a delegada Verena, tem o melhor arco dramático. Na narrativa, o núcleo investigador da Polícia Federal é o que mais funciona e envolve o espectador, com bom desenvolvimento e diferentes arcos de personagens. Torcemos pelos investigadores, mesmo que já saibamos, ou pelo menos achemos que sim, aquilo que vai acontecer.

Para o o público estrangeiro, O Mecanismo será uma experiência difícil. As tentativas de explicar tornam-se redundantes e, em alguns casos, obscuras. Sem recursos interpretativos envolventes, ao contrário de Narcos, a trama se perde em meio ao proselitismo anarquista de Padilha e afasta o espectador. Para o público brasileiro, O Mecanismo é envolvente: queremos saber para onde vai a trama, muitos de nós buscam, na ficção, a confirmação de suas convicções, sem se importar com a veracidade, desde que seja verossímil, e a presença permanente do tema no nosso debate político impulsiona o interesse pela série.

O Mecanismo, portanto, é um desperdício de oportunidade de realizar uma obra séria, densa e com a qualidade dos trabalhos anteriores de Padilha.

 

 

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O Mecanismo

Overview

Marco Ruffo (Selton Mello) é um delegado aposentado da Polícia Federal obcecado pelo caso que está investigando. Quando menos espera, ele e sua aprendiz, Verena Cardoni (Carol Abras), já estão mergulhados em uma das maiores investigações de desvio e lavagem de dinheiro da história do Brasil. A proporção é tamanha que o rumo das investigações muda completamente a vida de todos os envolvidos.

Metadata
Director
Writer
Author
Runtime
Country
Release Date 25 abril 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 47    Média: 1.9/5]
  • Pendrell Heinz

    A série é maravilhosa. Muito melhor do que a primeira incursão do Netflix (3%). Bem dirigida, com fotografia belíssima, com bom arco dramático que lhe deixa esperando o próximo capítulo e que se não tiver cuidado, vc acaba de ver em uma sentada. Só quem ama o PT é que é cego para ver isso. Infelizmente esses aí deveriam cancelar o serviço, tal como a ídola deles e assinar o CubaFlix.