O iluminado (1980) – O estranhamento no cinema
Posters para "The Shining"

Cenas das críticas anteriores

Depois de uma longa pausa, voltamos a analisar a obra cinematográfica de Stanley Kubrick. Se você perdeu ou não lembra mais das críticas anteriores, nós começamos com os 3 curtas do início de carreira. Já analisamos também todos os seus longa-metragens anteriores a 1980. Sua estreia irregular com Fear and Desire, sua fase noir com A morte passou por perto e O grande Golpe. Vimos como sua parceria com Kirk Douglas o colocou entre os grandes diretores de sua geração, com Glória feita de sangue e Spartacus. Depois Kubrick experimenta a comédia, junto com Peter Sellers, em Lolita e Dr. Strangelove. Nos deslumbramos com Kubrick atingindo sua fase madura com 2001 – Uma odisséia no espaço, Laranja Mecânica e Barry Lyndon .

Assim como este crítico que escreve agora, Kubrick começa a demonstrar seu maior (único?) defeito como cineasta, a lentidão. No início de carreira o diretor conseguiu lançar três filmes em três anos. Mas, depois disto, o padrão passou a ser esperar cada vez mais por um filme do mestre. Quatro anos entre Dr. Strangelove e 2001. Três anos entre 2001 e Laranja mecânica. Depois mais quatro anos para Barry Lyndon. E agora mais 5 anos para O iluminado. Esta lentidão piora ainda mais com uma espera de sete anos para Nascido para matar, e depois doze (12!) anos para seu último longa, De olhos bem fechados. Ressalto isto para arranjar uma desculpa por minha demora com as críticas lamentar termos apenas 13 longas de Kubrick para analisar.

Se é verdade que eu adoraria ter mais filmes kubrickianos, sem esta demora seu estilo de produção seria impraticável. Os meses em busca de uma história inspiradora, e o hábito de filmar as cenas dezenas ou centenas de vezes até a perfeição são alguns dos motivos para o nível de qualidade de sua obra.

O iluminado

Finalmente chegamos ao ponto em que meu diretor favorito cria um longa do meu gênero predileto: o terror. E, como sempre, Kubrick aborda o gênero de forma inovadora. O iluminado é a projeção em tela do conceito freudiano de estranhamento. Como explicado por Freud em seu artigo O estranho, o que temos aqui é o quase familiar, mas ao mesmo tempo, absurdo. A sensação de estranhamento, de mistério, de desconforto, não ocorre com aquilo que é completamente diferente de tudo o que vimos antes, mas sim do que deveria nos ser familiar, mas não é. Então Kubrick opta não por cenários escuros e bruxuleantes, ou por elementos claramente sobrenaturais a primeira vista. O iluminado é quase realista.  E do quase se retira toda uma corrente subterrânea à narrativa, acrescentando mais e mais tensão e desconforto, até a catarse final.

Apesar de ser baseado no livro homônimo de Stephen King, O Iluminado de Kubrick é dramaticamente muito diverso do livro. Na obra original, temos um conflito entre a inocência e a pureza de um garoto de 8 anos com o mal externo e infernal do Hotel Overlook. E no centro do conflito o dom da iluminação, da capacidade psíquica de Danny, e do Hotel. É uma história repleta de elementos sobrenaturais.

Já no filme o protagonista deixa de ser Danny Torrance e passa a ser Jack Torrance, seu pai.  Temos um filme sobre um pai em conflito interno entre o bem e o mal. Jack se divide entre seu sucesso profissional (tanto de zelador quanto de escritor) e sua vida familiar. E em uma espiral descendente, vai cedendo a seus vícios e defeitos: álcool, traição, preconceito, machismo, e por fim, assassinato. O elemento sobrenatural aparece, mas só ate o ponto de criar o estranhamento. Kubrick não perde tempo em explicações sobre o que seria a iluminação além do necessário.

Para tornar a narrativa em algo pavoroso, mas familiar, Kubrick altera a essência do trio de personagens centrais. Jack Torrance não é um pai amoroso em conflito com seus vícios. Danny não é um farol psíquico de esperança.  Wendy não é uma mulher independente  e forte, mas sim submissa e frágil. Com esta reconstrução temos núcleo familiar que nos é quase familiar… mas estranho. Estranho como descrever a história de um pai bêbado deslocar o ombro de seu filho de sete anos como um acidente, destes que em qualquer família.

O tema do estranhamento se repete no cenário. O Hotel Overlook é repleto de ambientes típicos de grandes hotéis, mas distribuídos em uma geometria impossível. Portas que não fazem sentido, janelas exteriores em posições impossíveis, corredores labirínticos com trajetos que não se fecham. Mas só um olhar muito atento, ou um crítico que assiste o mesmo filme 12 vezes, para notar estas incongruências facilmente. São distorções sutis que falam mais em um nível subconsciente. Vemos o hotel como algo estranho, inquietante, mas não sabemos porque exatamente.

Kubrick usou extensivamente uma das mais recentes novidades tecnológicas do cinema à época, a Stedicam. Graças a esta tecnologia acompanhamos Danny serpenteando pelos corredores do hotel em seu velocípede. Também apenas com esta tecnologia se conseguiria filmar a perseguição final. E claro, se o Hotel Overlook é um labirinto no sentido figurado, temos do lado de fora um labirinto real. Uma imagem espelhada. Sem o uso da Steadicam seria impossível acompanharmos Danny em seu velocípede em uma câmera quase subjetiva. Os corredores filmados quase na altura do solo nos colocam junto a Danny.

Espelhos é o que não faltam no filme. Não apenas espelhos literais, como também figurados. Temos o hotel labiríntico e o labirinto. Temos Danny e Tony, duas gêmeas fantasmagóricas, Charles e Delbert Grady, duas mulheres no quarto 237. E, principalmente, dois Jack Torrance. Aquele cuja narrativa acompanhamos, e o que sempre esteve no Hotel

Em O iluminado Kubrick leva sua obsessão por refilmar cenas ao extremo. Scatman Crothers teve que refilmar 60 vezes uma cena onde ocorre apenas um zoom em direção a sua face. E pior, 148 vezes a cena em que ele dialoga com Danny Loyd sobre suas capacidades psíquicas. Obrigar um ator septuagenário e outro de apenas 8 anos a fazer o mesmo diálogo centenas de vezes é a definição de perfeccionismo (e, talvez, crueldade). Ao todo se gastou 1,3 milhões de pés (perto de 400 mil metros) de película nas filmagens.  Normalmente a proporção entre o número de quadros filmados e os usados na edição final varia entre 5 para 1 e 15 para um. Em O Iluminado esta proporção foi de 102 para 1. Ou seja, para cada minuto de filme se fez 102 minutos de filmagens. Menos de 1% das cenas filmadas foram utilizadas no produto final.

Podemos estimar então o estresse ao qual todos os atores foram submetidos. Mas ninguém penou tanto quanto Shelley Duvall, que passou meses a fio interpretando uma mulher em desespero histérico. Para trazer a atriz para o estado de ânimo adequado, Kubrick foi bastante cruel com Duvall. Seu nível de críticas a atriz a deixou a beira de um colapso nervoso. No documentário The making of The Shining, filmado por Vivian Kubrick (filha do diretor), vemos Duvall passar mal e começar a ter queda de cabelos por causa do estresse. Será que valeu a pena? Julgue você mesmo:

Este número excessivo de refilmagens acabou por levar os atores a interpretações bastante extremas. Duvall parece (e estava) estar sempre no limite da sanidade. Danny Loyd está surpreendente como ator mirim, em especial se lembramos que o ator infantil sequer sabia que estava em um filme de terror. Se Kubrick foi cruel com Duvall, pelo menos foi superprotetor com Danny. Por insistência do diretor se criou uma pequena farsa para enganar o ator, que acreditava estar fazendo parte de um drama. E Jack Nicholson entrega uma das maiores atuações de sua carreira, sendo odiasamente carismático e convincente em sua loucura. Se a cena a seguir não marca a definição de loucura em imagens, não sei o que mais marcaria.

Surpreendentemente a interpretação de Duvall foi indicada ao prêmio framboesa de 1980, e Kubrick indicado para categoria de pior diretor. Um filme de terror tão fora da norma, e a campanha de Sthephen King contra o filme são as prováveis causas desta injustiça. Se você considera que Sthepen King tem algum mérito em suas críticas, sugiro assistir a série de TV por ele dirigida. Ou melhor, confie em mim e não assista.

É o perfeccionismo de Kubrick que faz de O iluminado um filme capaz de fazer a platéia pular de medo com apenas um cartaz escrito Terça-feira, como bem apontou Janet Maslin. Este pequeno detalhe merece comentário. Um truque simples, mas muito eficiente. Temos cartazes explicitando a cronologia do filme. Primeiro com intervalo de meses, semanas, dias… e no final, horas. Perfeito para criar um senso de urgência.

Graças a estes e tantos outros detalhes que O iluminado afetou e ainda afeta nosso imaginário até hoje. Críticos atentos percebem metáforas para a história americana, o massacre indígena, e até o senso de história humano. Outros não tão atentos ficam tão assombrados com o estranhamento causado pelo filme que conseguem ver até teorias de conspiração. Se você gosta de ver até que ponto a mente humana consegue criar absurdos interpretativos, recomendo assistir The room 237. Para ilustrar o nível, uma das teses defendidas pelo filme é que nele Kubrick deixa pistas de que ele teria filmado o pouso de Neil Armstrong na Lua, em um estúdio. E isto com bases em detalhes estranhos como um chaveiro de um quarto de hotel ter a palavra ROOM. Um excelente exemplo do que NÃO é uma boa crítica de cinema. Mas somente um filme capaz de gerar tanto estranhamento seria assunto para documentários como este.

Cenas da próxima crítica

Na próxima crítica sairemos do terro do Overlook Hotel para os horrores da Guerra do Vietnã. Full Metal Jacket (traduzido “perfeitamente” como Nascido para matar)marca a volta de Kubrick aos filmes de Guerra. E assim como em Glória feita de sangue, temos aqui novamente um filme 100% anti-guerra. Lançado menos de um ano após o maravilhoso filme PlatoonFull Metal Jacket consegue lançar novas luzes a um tema que parecia esgotado. Não, não é apenas mais um filme sobre o Vietnã, e sim um dos três melhores filmes americanos sobre o tema. Apenas Platoon e Apocalipse Now lhe podem ser comparados com justiça.

Not rated yet!

The Shining

19801 h 59 min
Overview

Um homem, contratado para ficar como zelador num hotel do Colorado durante todo o Inverno, muda-se para lá com a mulher e o filho, decidido a enfrentar o isolamento absoluto. Mas o hotel tem um mal misterioso e secreto que começa a causar-lhe problemas mentais e ele vai-se tornando cada vez mais agressivo e perigoso, ao mesmo tempo que o seu filho começa a ter visões de factos ocorridos naquele lugar no passado.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer
Author
Runtime 1 h 59 min
Release Date 22 maio 1980

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 1    Média: 5/5]