O grande golpe (The killing – 1956) – Primeira grande obra de Kubrick
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Cenas das críticas anteriores

Em nossa retrospectiva pela carreira de Stanley Kubrick acompanhamos o jovem diretor iniciar-se com três documentários curta-metragem de qualidade irregular. Após isto consegue, financiado pela família, fazer seu primeiro longa metragem, Fear and Desire, um filme um tanto cerebral e problemático. Vivendo de seguro desemprego (e uma ocasional verba jogando xadrez apostado), Kubrick consegue novo financiamento entre amigos, e tenta a sorte em um gênero mais comercial, o cinema noir. E A morte passou perto  foi o primeiro grande turning point na carreira do diretor. Kubrick consegue vender seu filme com bom lucro, e ainda receber financiamento para seu próximo projeto. Com isto chegamos a 1956, e Kubrick, com 28 anos, pela primeira vez tem uma equipe profissional e um elenco experiente e de renome. Juntando isto com as lições aprendidas com os erros do passado, é a hora do jovem diretor mostrar a que veio.

O grande golpe

Kubrick conheceu o produtor de cinema James B. Harris enquanto jogava xadrez em Washington Square. Os dois formaram então a Harris-Kubrick Pictures Corporation. A empresa comprou os direitos para adaptar o livro Clean Break. Este é o primeiro filme de Kubrick adaptado de um livro, o que depois se tornou um hábito. Todos os filmes posteriores foram roteiros adaptados de livros. E em todos, exceto Spartacus, Kubrick participou da criação do roteiro adaptado, com um ou mais escritores. Stanley preferia escritores a roteiristas.

É a primeira vez também que Kubrick consegue escalar um elenco de atores profissionais. Como protagonista temos Sterling Hayden, um ator conhecido por vários filmes noir, principalmente The Asphalt Jungle Crime Wave. Ambos tiveram forte influência em O grande golpe. O primeiro, por sua temática (também é um filme sobre um crime perfeito) e o segundo no elenco. Além de Hayden, Ted de Corsia e Timothy Carey participam tanto de Crime Wave quanto de O grande golpe. Praticamente todo o elenco foi composto de veteranos de filmes noir. A exceção é Kola Kwariani, lutador profissional, jogador de xadrez, e amigo pessoal de Kubrick.

Com isto, pela primeira vez na carreira do diretor temos atuações realmente memoráveis. Hayden, com sua fala acelerada, fria e impositiva é o arquétipo do herói noir. E a dupla Elisha Cook Jr. e Marie Windsor fazem um casal inesquecível. Cook faz o marido ingênuo e submisso, a ponto do patético, e Windsor faz uma femme fatale cruel, ácida e adoravelmente odiosa. Não é a toa que os melhores diálogos são entregues a dupla.

Outra atuação memorável, e curiosa,  é a de Kola Kwariani. Maurice, seu personagem, é quase que uma caricatura. Provavelmente similar a Nikki the Wrestler, seu nome artístico no ringue. Jogador de xadrez e lutador, Maurice tem algumas falas bastante filosóficas, contrastando com seu comportamento rude. A cena de luta hoje pode parecer um tanto datada, mas faz parte da linguagem visual da época. E gera boas risadas.

Os diálogos são estranhos para o cinema de hoje, mas deliciosos. Frases pomposas, de efeito, alternadas com momentos de ingenuidade. E diversas temáticas sendo repetidas ao longo do filme. Jim Thompson mostra uma verve e uma ironia difícil de encontrar em diálogos de hoje. Com isto Kubrick opta por ter cenas bastante alongadas de diálogos, abusando da linguagem de câmera para reforçar a dramaturgia. Ao assistir O grande golpe sugiro prestar bastante atenção para as escolhas de planos de câmera durante os diálogos.

Por exemplo, compare as cenas pré e pós sexo de Sherry Peaty com o diálogo final entre Johnny Clay e Marvin Unger, no início do terceiro ato. No diálogo temos uma insinuação sutil da homossexualidade de Marv, e sua atração por Clay. E a câmera opta por filmar com os mesmos ângulos usados para a nossa femme fatale nas cenas de insinuação sexual. Junte isto com a inesperada embriaguez de Marv nas cenas durante o golpe, e temos uma delicada narrativa de romance homoafetivo frustrado.

Estas referências cruzadas entre diálogos e cenas diferentes se repete por todo filme. Vemos por duas vezes cachorros no colo de personagens. Uma cena anunciando os efeitos de um tiro de escopeta em um quarto fechado, e a profecia sendo cumprida mais tarde. Por duas vezes Sherry Peatty reclama de seu marido da ausência de punchline. Praticamente todo diálogo, toda cena na primeira metade tem sua cena irmã na segunda metade. Exceto uma.

O diálogo entre Maurice e Clay no clube de xadrez passa desapercebido para quem assiste desatento. Mas é quase que uma alegoria do que irá acontecer. Maurice dá um sermão a Clay. Faz uma defesa do homem comum e aponta as dificuldades dos artistas e gangsters (arquétipos similares no universo noir), sendo totalmente incompreendido. E conclui, em tom quase profético: “você nunca foi muito inteligente, mas te amo mesmo assim”.

Temos algo muito incomum acontecendo aqui. O protagonista do filme, o criador de um plano perfeito, que é a trama e o suspense do filme, é chamado por um enxadrista de “não inteligente”. E qual seria a limitação de Clay? Desconsiderar o fator humano, e a aleatoriedade da vida. Seu plano depende da ação conjunta de 7 pessoas, sincronizadas a perfeição, e sem conflitos. Cada um dos envolvidos tem motivação mundanas, exceto Clay. O que o move, além dos óbvios 2 milhões de dólares (nos valores de hoje seriam 20 milhões), é simplesmente a realização do plano, é saber-se estar no controle.  Mas o fator humano (a relação desequilibrada entre Sherry e George), o aleatório (a ferradura da sorte recusada e suas consequências) e o imprevisto (o cachorro e a mala aberta) demonstram que Maurice estava certo. Clay não é tão inteligente assim.

Se é fato que na época a auto-censura de Hollywood (este é o primeiro filme de Kubrick feito em Los Angeles) exigia que o final de um filme de golpe criminoso tivesse a mensagem de o crime não compensa, Kubrick nos entrega a falha do plano não por questões morais ou pelo poder da lei. O que leva Clay a sua derrota inevitável é a natureza humana, e a limitação de nosso poder de controle. Não é uma vitória da lei e da ordem, mas sim uma eventualidade, uma fatalidade. Um cachorro atravessando a rua. E os frutos de seu trabalho sendo espalhados ao vento.

Mas tudo isto são apenas os elementos base para que Kubrick conseguisse construir um dos melhores filmes noir de todos os tempos. O que faz com que O grande golpe seja um filme revolucionário para os filmes de suspense é sua cronologia. A narrativa é repleta de flashbacks, onde a mesa cena é vista por outros personagens, em outros contextos. O vai-e-vem narrativo pareceu confuso para os produtores, que pressionaram o diretor a fazer uma edição linear. Felizmente Kubrick foi fiel a sua visão.

Com o apoio de uma narração onisciente, que esclarece os horários precisos de cada flashback, Kubrick consegue criar não uma linha de suspense, mas dezenas delas. Linearmente ficaríamos ansiosos por vermos o golpe ser executado. Mas com a narrativa subjetiva, e não temporal, cada conflito se multiplica. Quando testemunhamos cada peça do mecanismo se encaixando ou se soltando, o impacto de cada acerto, e cada erro, se multiplica.

Esta narrativa truncada, subjetiva, foi o golpe de mestre de O grande golpe. Não a toa, influenciou diversos filmes e diretores, em especial Quentin Tarantino. Nos filmes de Tarantino temos o mesmo estilo de diálogo e a mesma fragmentação narrativa. Em especial em Pulp FictionCães de Aluguel. Este último, inclusive, foi descrito por Tarantino como a sua versão de O grande golpe.

O grande golpe é um filme bastante distinto e nada similar aos filmes posteriores de Kubrick. Não é um épico, não tem aquela estranheza quase mitológica. Não é um filme kubrickiano. E talvez por isto mesmo seja a jóia esquecida da coleção. Segundo Roger Ebert é o primeiro filme maduro de Stanley Kubrick. Para mim é mais que isto: é sua primeira obra magistral. Não a toa já após este filme o jovem diretor começou a ser comparado a Orson Welles.

Cenas das próximas críticas

Apesar de ter sido um fracasso financeiro, O grande golpe foi um enorme sucesso de crítica e deu renome a Kubrick junto a indústria. E assim nosso herói consegue chamar Kirk Douglas para participar de seu próximo filme, Glória feita de sangue. Este será o primeiro filme Kubrickiano propriamente dito, no tocante a estilo narrativo. E graças ao sucesso de Glória feita de sangue Kirk Douglas convida Kubrick para dirigir seu próximo projeto: Spartacus. Finalmente Kubrick terá uma superprodução em suas mãos. É após Spartacus que Kubrick alcança o estrelato, e com isto passa a ter total liberdade criativa e financeira. Em apenas 4 anos Kubrick sai de filmes de menos de U$ 100.000,00 para uma produção de U$ 12 milhões (aproximadamente U$ 120 milhões nos valores atuais). E com dinheiro, talento, obstinação e liberdade, Kubrick irá revolucionar o cinema.

 

 

 

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O Grande Golpe

19561 h 25 min
Overview

Quando o ex-presidiário Johnny Clay (Sterling Hayden) diz que tem um grande plano, todos querem participar. Especialmente quando o plano é roubar 2 milhões de dólares em um esquema "ninguém vai se machucar". Mas, apesar do planejamento cuidadoso, Clay e seus homens se esqueceram de uma coisa: Sherry Peatty (Marie Windsor), uma garota ambiciosa e traiçoeira que está planejando um grande golpe só seu...mesmo que para isso ela precise acabar com toda a gangue de Clay!

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer
Author
Runtime 1 h 25 min
Release Date 8 maio 1956

Nota do Razão de Aspecto

 

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