O Formidável (Le Redoutable, 2017) – Crítica

O Formidável é uma homenagem,  meio paródia, meio crítica, ao diretor Jean-luc Godard. Gordard. Para uns dispensa apresentação, para outros vale a dica de que ele é um dos mais cultuados diretores de todos os tempos. O longa faz um recorte de uma fase de transição, onde ele queria deixar as produções que o consagraram e partir para um tom mais político, influenciado por revoluções que ocorriam no final da década de 60.

Michel Hazanavicius dirigiu O Artista, premiado no Oscar de 2012 como Melhor Filme e Direção, além de outros títulos. Se lá já víamos uma silenciosa (quase que literalmente) homenagem ao cinema, aqui Hazanavicius mostra novamente o amor à sétima arte. Mas o tom aqui é outro, talvez oposto: uma verborragia rica em diálogos com a obra de Gordard e com o cinema.

Mas muito mais do que uma biografia comum ou até do que uma comédia comum, Formidável é um deleite para os fãs do cinema. Vai além da simples referência às obras de Gordard. Citações ao próprio cinema como um todo, principalmente à técnica cinematográfica. Uma metalinguagem quase constante. Mesmo quando temos traços mais convencionais, temos que encarar os fatos olhos mais perspicazes (confesso que devo ter perdido algumas passagens e já estou curioso para pesquisar mais e rever o longa).

É volumosa, por exemplo, a quebra da quarta parede. O recurso, relativamente comum, aqui é extrapolado (no melhor dos sentidos). Alternância e quebra na trilha sonora, questionamentos da função e autonomia dos atores e uma lembrança de que aquilo é um filme se fazem presente, gritando sem sutileza. Onde poderia se enxergar problemas na imersão, aqui é parte da brincadeira.

Quando a trama ganha rumo vem outro fato curioso: Gordard é retratado como um maluco, babaca, arrogante. O normal seria uma ode ao grande diretor, mas o filme envereda por um tom jocoso (na realidade o tom sempre esteve ali) e transforma o biografado em um ser patético. O que pode ofender alguns, vem como uma total sabedoria e novamente provocação.

Há algumas cenas de nudez em O Formidável. Muitos criticam este uso dos corpos, pois soa “gratuito”. Mais uma vez, Hazanavicius explora a nossa relação com essa abordagem e torna isso parte do texto. Discussões sobre como o público lida com filmes e até mesmo a importância de Festivais, como Cannes, são posta em tela, como o mesmo despudor.

O fazer artístico pode ser resumido com uma frase, dolorosa para muitos produtores de conteúdo, algo como: “saiba interessar às pessoas e não apenas se interessar por elas”. A velha “briga” entre um entretenimento pueril e uma arte quase hermética acaba sendo um dos cernes do longa, já que vemos várias linhas nesse sentido, como na citação selecionada, e como subtexto mais encorpado.

Um “arco” com os óculos de Godard geram gags simples, quase cartunescas, mas bem eficazes. A troca de lentes oculares aparece de forma análoga ao modo do diretor enxergar a própria obra e a transformações do personagem. Cabe ressaltar a bela composição de Louis Garrel como Jean-luc. Toda a crença e frágil firmeza são explorada por trejeitos rápidos, expressões marcantes, mas sem nunca se tornar uma paródia da paródia.

Vale também os aplausos para Stacy Martin, que faz a esposa de Godard. Parte da trama é sob o ponto de vista dela. O amor, paciência e cansaço da personagem em relação ao companheiro, ficam convincentes na atuação de Martin. Ela é a oposição dele como personagem e como atuação: minimalista, pequenos gestos e arroubos calculados, mas igualmente meritosa.

A despeito de alguma barriga, de arcos que acabam sobrando ou que ficam um tanto soltos – que podem ou não fazer parte do jogo – Formidável entrega uma antibiografia, um antiromance e um anticinema, mas tudo calculado.

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Le Redoutable

Overview

Após terminar seu longo e famoso relacionamento com a sua musa Anna Karina e em meio à fase revolucionária de sua carreira, o célebre diretor e escritor Jean-Luc Godard (Louis Garrel) inicia a produção de seu mais novo filme: A Chinesa, longa que narra a história de um grupo de jovens que tentam incorporar princípios maoístas ao seu cotidiano político. Durante as filmagens, ele conhece Anne Wiazemsky (Stacy Martin) e, logo, os dois se apaixonam.

Metadata
Writer
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Runtime
Country  Myanmar France
Release Date 13 setembro 2017

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