O destino de uma nação (The darkest hour, 2017) – Crítica

É bastante curioso que O destino de uma nação (The darkest hour) tenha sido produzido no mesmo ano que Dunkirk (crítica do Razão aqui). Os dois filmes são como irmãos: enquanto o longa de Christopher Nolan trata da retirada das tropas britânicas e francesas do litoral belga ocupado pela Alemanha nazista, o filme que estreia no Brasil no próximo dia 11 de janeiro foca-se um uma das figuras responsáveis por esse marcante episódio da 2ª Guerra Mundial, cujo desfecho poderia ter mudado completamente os rumos do conflito: Winston Churchill, Primeiro-Ministro britânico que passaria para a história como o grande opositor de Adolf Hitler.

Objeto de diversas produções cinematográficas em razão de sua importância histórica, Churchill não era uma unanimidade ao raiar da Guerra (nem depois dela, diga-se de passagem): havia sido um dos comandantes britânicos na desastrosa Batalha de Galípoli, durante a 1ª Guerra Mundial;  já havia mudado do Partido Conservador (Tories) para o Liberal e de volta ao primeiro (algo que, ao contrário do Brasil, era tido como algo bastante incomum e digno de desconfiança); e não era um sujeito dado a limitar suas críticas a quem quer que seja. Por outro lado, havia sido ele a alertar, durante boa parte da década de 1930, para o rearmamento alemão e para os planos de expansionismo militar do Führer alemão, chocando-se diretamente com o líder dos Tories Neville Chamberlain (Ronald Pickup, em papel que seria de John Hurt se ele não tivesse falecido antes das filmagens) , Primeiro-Ministro que passaria para a história por sua irresponsável política de apaziguamento com Hitler.

É nesse contexto que O destino de uma nação se inicia. Chamberlain não tem mais a confiança do Parlamento, e o único nome aparentemente capaz de formar um governo de coalizão é o de Winston Churchill. A partir daí, o filme cobrirá o período de 10 de maio de 1940 – data da chegada do protagonista ao cargo de Primeiro-Ministro – até 4 de abril do mesmo ano – data do famoso discurso “Lutaremos nas praias” (“We Shall Fight on the Beaches“) realizado na Câmara dos Comuns.

Aliás, é exatamente no poder e na grandeza das palavras que reside a força tanto do filme quanto de seu biografado. Churchill fora correspondente de guerra, viria a escrever um gigantesco tratado sobre a história dos países de língua inglesa e era um orador espetacular (tendo, inclusive, ganho o Prêmio Nobel de Literatura em 1953). Em O destino de uma nação, não são poucos os momentos em que presenciamos Churchill elaborando cartas e discursos, seja no escritório, seja no banho ou andando pelado pela casa, para desespero de sua secretária Elizabeth Layton (vivida por Lily James, de Cinderela e Downton Abbey). É com a força de suas palavras que Churchill consegue inspirar o Rei George VI (Ben Mendelsohn), o Parlamento, sua família (a esposa, Clemmie Churchill, é vivida pela sempre excelente Kristin Scott Thomas) e o próprio povo britânico, que, por sua vez, é a inspiração definitiva para o Primeiro Ministro, na hora mais escura (ahá!) da Guerra, em que a esperança parecia tolice.

Mais do que acostumado com filmes de época, como Razão e Sensibilidade (2005), Desejo e Reparação (2007) e Anna Karenina (2012), além do bom Hannah (2011), o diretor Joe Wright entrega um filme com cara de cinemão, consciente da importância histórica dos fatos e personagens retratados, e sem pudor de fazer cinema convencional de qualidade. Para esse clima épico, colabora a espetacular trilha sonora de Dario Marianelli (tradicional parceiro de Wright, e vencedor do Oscar pela trilha de Desejo e Reparação). Capaz de imprimir a sensação de relevância até mesmo a momentos menos significativos da trama, a trilha orquestral sustenta o tom do filme e reforça a importância dos momentos em que se ausenta. Há um uso muito bom do piano, sem que se escorregue para temas forçadamente sentimentais. A fotografia de Bruno Delbonnel (responsável, entre outros por O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Across the Universe) opta por utilizar uma luz que muitas vezes foge do naturalismo, retratando ambientes políticos de forma mais escura do que são na realidade, com fachos de luz que destacam a figura de Churchill.

O grande nome do filme, claro, é Gary Oldman. Submerso em uma tonelada de próteses e maquiagens, o ator desaparece e dá lugar ao personagem – ainda que, mesmo com o trabalho visual apurado, o Churchill do filme não chegue a ser um sósia do original. Oldman é um ator que já provou ser capaz de interpretar qualquer papel, de Drácula ao Comissário Gordon, de imitador de Elvis Presley ao experiente espião George Smiley, de Beethoven ao padrinho do Harry Potter, de Sid Vicious ao assassino de JFK. Sua atuação em O destino de uma nação, muito além da maquiagem, é, mais uma vez, uma daquelas para ficar marcada no cinema. Churchill era um homem com um biótipo peculiar, vários maneirismos de fala e de gestual e uma entonação de voz característica. Oldman consegue capturar esses detalhes sem parecer uma caricatura de Churchill.

Há duas pequenas considerações sobre o roteiro de Anthony McCarten que impedem o filme de levar nota máxima: em primeiro lugar, o filme demora um pouco a engatar, e se perde em algumas cenas – por exemplo, a de um brinde com a família – que poderiam ser retiradas do filme sem prejuízo (e com ganho de foco). Além disso, há pelos menos duas ou três cenas criadas com o único intuito de re-explicar para o espectador as condições do teatro de guerra e o quanto é importante continuar resistindo a Hitler.

Em uma época em que grandes líderes políticos estão cada vez mais escassos, em que o homem mais poderoso do mundo é uma caricatura ambulante, e em que as vozes em prol de regimes totalitários (de qualquer parte do espectro político) assustadoramente ainda encontram ouvidos a fortalecê-las, revisitar a vida de um grande estadista – seja ela algo romantizada ou não – é muito pertinente.

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O destino de uma nação

20172 h 05 min
Overview

Durante os primeiros dias da Segunda Guerra Mundial, o destino da Europa Ocidental depende do recém-empssado Primeiro Ministro britânico Winston Churchill, que deve decidir se negocia com Adolf Hitler ou parte para uma improvável resistência contra os nazistas.

Metadata
Director Joe Wright
Writer Anthony McCarten
Author
Runtime 2 h 05 min
Country  United Kingdom
Release Date 22 novembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 11    Média: 3.5/5]
  • Lucas Albuquerque

    Acho que vem indicação ao oscar em ator, trilha e maquiagem. Algo mais seria surpresa, apesar disso ainda está correndo por fora em melhor filme.