O CÍRCULO (THE CIRCLE, 2017) – CRÍTICA
Posters para "O Círculo"

Em um mundo distópico contemporâneo, O Círculo é uma grande empresa de tecnologia que, por meio da sua rede social True You, se torna quase um monopólio da informação no planeta. Imagine o resultado de uma fusão de serviços do Facebook, do Twitter, do Uber e de quase todos os maiores aplicativos da nossa geração: isso seria o círculo. Com base nessa premissa, O Círculo pretende realizar discussões grandiosas sobre temas importantes do nosso mundo, como a privacidade, a ética nas redes sociais, os efeitos da imersão no mundo virtual em contraponto às relações sociais na vida real e o poder das grandes empresas de tecnologia frente ao Estado em caso de monopólio da informação. Pensou num episódio de Black Mirror? Se sim, pensou corretamente, mas O Círculo tem menos profundidade do que o seriado da Netflix.

O grande ponto fraco de O Círculo é, sem dúvida, o roteiro. Se os temas da narrativa são grandiosos, seu desenvolvimento jamais ultrapassa a superficialidade. Há personagens-chave para trama que são mal construídos, especialmente o jovem Mercer, interpretado por Ellar Coltrane, de Boyhood, e o criador do True You Ty Lafitte, interpretado por John Boyega, nosso querido Finn, de Star Wars: Episódio 7. A relação de ambos com Mae (Emma Watson, de A Bela e a Fera) tem função narrativa fundamental para o desfecho de O Círculo, mas parecem completamente forçadas em um roteiro e uma montagem desastradas. Tanto o vínculo existente com Mercer quanto o criado com Ty são construídos em cenas, digamos, curtas e fracas, com as quais é realmente difícil empatizar. O suposto grande vilão Eamon Bailey, interpretado por Tom Hanks, não se constitui em uma ameaça real, apesar de sabermos exatamente quais são seus interesses e como seu carisma e simpatia servem aos seus objetivos comerciais. Com exceção da previsível cena que define o plot twist, não há nenhuma atitude realmente reprovável que o público possa rejeitar. Por fim, algumas soluções do roteiro para estabelecer conflito entre os personagens são quase risíveis.

Para além do roteiro, as atuações parecem estar no piloto automático. Boyega e Coltrane têm pouco material para desenvolver seus personagens, Tom Hanks faz um homem carismático e inteligente, como tantos outros papéis de sua carreira, e Emma Watson não consegue expressar o drama e o conflito de uma jovem de família humilde, cujo pai sofre de esclerose múltipla, que entra no Círculo como forma de resolver seus problemas. Além disso, a atriz tem carisma zero, o que resulta em uma personagem insossa, com qual é realmente difícil nos importarmos. Nas atuações, o único destaque é Karen Gillan, que interpreta Annie, a jovem amiga de Mae.

Felizmente, O Círculo não se resume a seus fracassos. Tecnicamente, o diretor James Ponsoldt fez um bom trabalho na construção do mundo do Círculo, com excelentes recursos visuais que integram a dinâmica das redes sociais à linguagem cinematográfica. Particularmente,  valorizo muito esse esforço e ainda mais o excelente resultado, porque considero necessário que as artes audiovisuais entendam a linguagem de seu tempo e, principalmente, de seu público para avançar à novas formas de narrativa cinematográfica. A montagem de Lissa Lassek e Franklin Paterson tem o melhor resultado do uso desse tipo de recurso no cinema moderno até hoje. A fotografia luminosa,  a onipresença do vermelho e a trilha de rock/pop contemporâneo dão à narrativa um tom leve e familiar, como se todos nós fizemos parte daquele mundo “mágico” do vale do Silício.

Com referências óbvias a 1984 e às grandes empresas de tecnologia da contemporaneidade (não deve ser coincidência a semelhança entre o  a marca do Círculo e a do Uber, por exempl0), O Círculo não fracassa completamente: consegue fazer uma crítica superficial  à nossa sociedade e nos dá um bom indício de que rumos o mundo pode tomar na era da tecnologia da informação. James Ponsoldt teve grande orçamento, elenco estelar e uma grande ideia, mas tudo o que conseguiu realizar foi um episódio estendido de Black Mirror que sequer figuraria entre os dez melhores do seriado.

Not rated yet!

O Círculo

20171 h 50 min
Overview

Quando Mae é contratada para trabalhar na The Circle, a maior e mais poderosa empresa de tecnologia e redes sociais do mundo, ela encara esta ocasião como a oportunidade da sua vida. À medida que sobe na hierarquia da empresa, Mae é encorajada pelo seu fundador, Eamon Bailey, a participar numa experiência inovadora que força os limites da privacidade, ética e até da liberdade pessoal. Rapidamente, Mae apercebe-se que a sua participação na experiência, e cada decisão que toma, começa a afetar a vida, o futuro da sua família, dos seus amigos e mesmo da humanidade

Metadata
Director James Ponsoldt
Writer
Author
Runtime 1 h 50 min
Release Date 27 abril 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 2    Média: 2/5]
  • Lucas Albuquerque

    Decepção define