Netflixing: Como falar com garotas em festas
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Sabe aquela sensação de estar em uma festa, ficar admirando as garotas, e não ter a menor ideia de como puxar algum assunto interessante? Parece até que elas são criaturas alienígenas de mundos bizarros. Não sabe? Então você teve uma adolescência bem diferente da minha. Como falar com garotas em festas é um excelente conto do Neil Gaiman, adaptada como boa história em quadrinhos de Fábio Moon e Gabriel Bá, e também adaptada para o cinema por John Cameron Mitchell.

O conto nos fala da enorme distância entre os gêneros durante a puberdade. Acompanhamos o adolescente Enn e seu amigo Vic durante uma festa que eles adentram por engano. Só que esta festa irá transformar a vida de Enn completamente. Pois as garotas que estavam lá eram diferentes. Eram o tipo de garotas que podiam se chamar Triolé, e ser um poema, um padrão ou uma raça cujo o mundo foi tragado pelo mar.

Já o filme tem que ir bem além do conto, que, com suas 18 páginas, daria material para no máximo um bom curta. Transformar o conto em filme exigiu a criação de personagens, o preenchimento de lacunas sugeridas (afinal o que aconteceu entre Vic e Stela no quarto durante a festa?) e a elaboração do que é apresentado apenas como mistério na história original. O resultado? Uma estória completamente diversa, que ainda carrega a alma do conto, mas em uma roupagem mais complexa, mais estranha e mais energética.

Punk! A estória se passa em Londres, no final da década de 1970, e está repleta de energia, acidez e irreverência. Enn (Alex Sharp) é um garoto ao mesmo tempo cronicamente tímido e intenso, pleno. Junto com Vic (AJ Lewis) e John (Ethan Lawrence), ele vive e respira o cenário punk de Croydon, um dos distritos de Londres. Usa de sua curta mesada para editar seu fanzine, ir a shows em porões de Pubs escuros, entrar em festas e, principalmente, não saber como falar com garotas.

Isto até a fatídica festa em que Enn conhece Zan (Elle Fanning), membro da Quarta Colônia, filha do Progenitor-Professor Waldo, que busca experiências individuais até ser devorada pelos Progenitores. E é esta relação romântica e desfuncional que é o centro do filme. Sem rodeios, sem grandes complicações, o filme não esconde em nada o protagonismo do casal.  É uma comédia romântica direta, quase visceral. John Cameron Mitchell conduz a trama de forma linear. Seria fácil tentar fazer malabarismos devido a temática alucinada do mundo de Zan, mas acertadamente o bizarro é mostrado ordenadamente, sem prejudicar o entendimento da trama.

Entendimento este que não é feito pelo cérebro frio e matemático, mas pelo coração e vísceras. Muito do que nos é mostrado não dá para ser totalmente verbalizado ou equacionado. Mas mesmo assim absorvemos e entendemos de outras formas. É como a sensação de estar em um show de rock onde a banda desafina, todos gritam, a cerveja é barata e quente, mas saímos cobertos de suor, barro e fúria juvenil jubilante. O uso de uma câmera nervosa nos momentos de alegria, e do rock punk a todo momento, reforça este clima atávico.

O figurino é espetacular. Os adultos e londrinos típicos com roupas mais escuras e sérias. Os punks com sua transgressão visual e energia. E os membros das colônias com seus uniformes quadrinescos e cores berrantes. Sabemos muito de cada universo apenas pelas roupas.

Alex Sharp está bem afiado (desculpem) em sua dubiedade entre timidez e expressividade, mas é quase apagado pela estranheza de Elle Fanning. Zan é ingênua, sensual, inteligente, curiosa, cativante. Mas principalmente NÃO É UMA TURISTA!!! E faz Enn encontrar a maturidade, quase. Nicole Kidman aparece como Boadicea, e está quase irreconhecível, tanto fisicamente quanto em personalidade. É uma espécie de anti-mãe para personagens tão sedentos de Progenitores-Professores.

E é este conflito de gerações, e a transição entre infância e maturidade, que o filme se trata. A descoberta da sexualidade, do outro gênero, do amor, e principalmente da voz interna, pessoal e única. O coda no final é especialmente feliz neste aspecto.

É um filme com alma transgressora, juvenil, e principalmente romântica. Ao final temos vontade de pogar, mas também abraçar a namorada. E lambê-la para lhe descobrir o sabor.

De forma incompreensível quase toda a crítica não apreciou este filme. Talvez por que críticos já saibam como falar com garotas. Eles devem saber de algo que ainda não sei. Nem pretendo descobrir. Nota? Me recuso a enquadrar este filme em um número. É uma experiência. Divirta-se com ela.

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Como Falar Com Raparigas em Festas

20171 h 42 min
Overview

Em Londres (Croydon para se ser mais específico...) de 1977, Enn (Alex Sharp) e dois dos seus jovens amigos estão à procura de uma noite inesquecível, não tendo interesse nos festejos do Jubileu de Prata da Rainha, que decorrem na quietude dos subúrbios. Quando não são admitidos na festa de Boadicea (Nicole Kidman), a matriarca punk local, decidem entrar sem convite numa festa da qual tinham ouvido falar. Quando chegam, contudo, nada é o que esperavam: a casa parece estar cheia de estudantes adolescentes, exóticos, estrangeiros e incrivelmente atraentes.

Metadata
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Runtime 1 h 42 min
Release Date 6 outubro 2017

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