Nasce uma estrela (2018) – Crítica
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Nasce uma estrela é uma história atemporal sobre como a fama pode ser tanto recompensadora como destrutiva. Tão atemporal que rendeu já quatro filmes de Hollywood (todos com mesmo título), e até uma adaptação de Bollywood, Aashiqui 2. A trama central de todas as versões é a mesma. Um artista já reconhecido e famoso encontra uma artista desconhecida. Disto surge um romance, bem como uma parceria artística. Mas a estrela já conhecida está em decadência, devido a seus vícios e sua personalidade autodestrutiva.

A versão atual marca duas estréias cinematográficas. O ator Bradley Cooper inicia sua carreira de diretor, e Lady Gaga estréia como atriz principal. Cooper também é o produtor e o ator principal do filme. E para interpretar Jackson Maine, Cooper teve que estrear também como cantor e guitarrista. Surpreendentemente saiu-se muito bem em todos os papéis. Lady Gaga também não decepciona, entregando uma interpretação sólida, e principalmente demostrando toda a extensão de seu enorme talento musical.

Mas como Jackson Maine diz para Ally, talento todo mundo tem, mas o que importa para ser uma estrela é ter algo a dizer. E para entendermos a mensagem a ser dita pela versão de Cooper de Nasce uma estrela vale a pena compararmos o filme com seus três antecessores.

Nasce uma estrela (1937)

O filme de Willian Wellman tem como força principal o excelente roteiro. Aqui temos um tom de tragédia grega e de inevitabilidade. A mensagem principal é a de que se você tem um grande sonho, para realizá-lo você deve entregar seu coração. E ao atingir seu sonho inevitavelmente seu coração será partido. Em especial se seu sonho for Hollywoodiano.

Há uma certa ingenuidade excessiva na construção dos personagens, e um exagero melodramático em algumas cenas. Mas tanto a tragédia do casal Esther/Norman quanto o retrato cínico que o filme faz sobre Hollywood são soberbos. Tanto é verdade que a história é poderosa que rendeu 3 refilmagens.

Inevitavelmente alguns temas envelheceram mal, em especial o papel masculino e feminino em um casal. Visto com os olhos de hoje, o filme é claramente sexista. Mas não esqueçamos que é um produto de sua época.

Nasce uma estrela (1954)

Aqui temos uma refilmagem extremamente similar ao filme original. A principal modificação foi a mudança do sonho de Esther Blodgett. Em 1937 era uma garota interiorana que desejava ser uma estrela de Hollywood. Em 1954 ela se torna uma cantora de Jazz já resignada a uma carreira mediana, até conhecer Normam Maine. O ator reconhecido, mas decadente, convence a cantora que ela tem todo potencial de se tornar uma estrela de Hollywood.

Além disto temos motivações mais complexas e personagens mais tridimensionais. E duas atuações magníficas, de Fredric March e principalmente Judy Garland. Infelizmente há problemas de ritmo. Dentro das quase três horas de duração há um musical genial de duas horas a ser lapidado. O tom de tragédia grega diminui por causa da maior complexidade emocional. Não temos um processo inevitável de fama e desilusão, mas sim um emaranhado de emoções e situações, que nos faz sentir muito mais próximos do casal protagonista.

Temos ainda o sexismo inerente da época, e infelizmente várias cenas perdidas e parcialmente restauradas. Atualmente temos vários minutos do filme com fotogramas estáticos e som original. De qualquer forma, Nasce uma estrela (1954) é um dos melhores musicais clássicos já produzidos.

Nasce uma estrela (1976)

Nesta versão temos uma revisão drástica da história.  Agora a busca do estrelato não é pelo cinema, mas sim pela música. O Oscar é substituído pelo Grammy, e o vício de  John Norman Howard não é apenas o alcoolismo, mas também as drogas. Muitas cenas foram modificadas, cortadas e incluídas. Não se trata exatamente de uma refilmagem, mas de uma versão.

Esta ousadia poderia ter resultado em um grande filme, mas infelizmente o que temos é a pior versão de Nasce uma estrela. Não existe nenhuma química entre os protagonistas, e Kris Kristofferson parece estar constantemente entediado ou entorpecido. A culpa não deve recair somente sobre o ator, pois o roteiro reduz seu personagem para apenas um degrau para Esther Hoffman se tornar uma estrela da música.

Pior ainda é que o filme tenta se apoiar no talento musical dos atores e personagens. Kris Kristofferson e Barbra Streisand são grandes músicos, mas inexplicavelmente, nenhuma música é marcante. E ainda pior, as apresentações musicais em meio ao filme parecem desconectadas da trama. E se a versão de 1937 flertava com o melodrama, aqui temos cenas de dramalhão puro, em especial na parte final do filme. Com isto temos um filme sem mensagem a ser dita, e sem paixão.

Nasce uma estrela (2018)

E por fim retornamos a versão atual. Bradley Cooper parece ter aprendido e muito com os seus predecessores. Aqui temos novamente a opção pela música como caminho para o estrelato. Para isto a escolha de Lady Gaga como protagonista se revelou essencial. A trilha sonora é a coisa mais impressionante do filme. Composta pelos dois protagonistas, as músicas são todas excelentes. E ainda mais importante, cada uma delas é usada no momento certo para transmitir as emoções dos personagens. A química entre Cooper e Lady Gaga é marcante, e acompanhamos cada movimento e cada toque, cada aproximação e afastamento do casal. E no meio de tudo isto, o amor inegável de ambos pela música.

Cooper soube usar muito bem sua câmera, em especial durante as apresentações musicais. Nos sentimos não como espectadores de um show, mas como músicos dentro do palco, com toda eletricidade e acústica do ambiente. O uso de locações de shows e casas de espetáculos faz esta experiência ficar ainda mais realista. Sentimos o glamour, mas também a pressão e a desumanização que acompanha o estrelato.

Não temos mais aqui uma tragédia grega, nem uma fábula, mas um retrato realista e apaixonado pela arte, pela música. E como a música é capaz de transmitir nossas almas em todos os tons. E por isto mesmo ela pode ser perigosa. A grande mudança em relação a seus antecessores foi transportar o espectador para dentro do mundo do estrelato. Não observamos a ascensão e queda de duas estrelas. Vivenciamos o que é o estrelato.  Sentimos na pele o nascer e o apagar delas.

Aposto que no mínimo Nasce uma estrela será lembrado pela Academia para os Oscars de melhor canção e melhor trilha sonora deste ano. Não me surpreenderia se concorresse também a melhor ator e atriz. E como nota pessoal, Aniello, aprenda: Lady Gaga é um MONSTRO de talento musical.

 

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Assim Nasce Uma Estrela

20182 h 15 min
Overview

A jovem cantora Ally ascende ao estrelato ao mesmo tempo em que seu parceiro Jackson Maine, um renomado artista de longa carreira, cai no esquecimento devido aos problemas com o álcool. Os momentos opostos nas carreiras acabam por minar o relacionamento amoroso dos dois.

Metadata
Director Bradley Cooper
Writer
Author
Runtime 2 h 15 min
Release Date 3 outubro 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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