A múmia (The Mummy, 2017) – Razão : de : Aspecto – Crítica

Fundada em 1912, a Univesal Pictures é o mais antigo estúdio em atividade nos Estados Unidos.  Seu primeiro presidente, Carl Laemmle, foi responsável pela construção dos estúdios da Universal, em Los Angeles, aberto para a visitação e encanto de turistas de várias gerações. Dos melodramas e faroestes dos primeiros dias, o estúdio cresceu, tornou-se, junto com a MGM, uma das principais empresas do cinema, e chegou a abrir uma unidade de produção na Alemanha. Em 1928, Laemmle Jr. foi escolhido por seu pai para ocupar a presidência da empresa, e decidiu modernizar a produção.

Laemmle Jr. comprou e construiu cinemas para ter maior controle sobre as exibições, e passou a ousar mais no repertório de filmes. A Universal produziu em 1929 o requintado musical Broadway,  além de King of Jazz (primeiro musical colorido do estúdio) e Sem novidades no front, drama de guerra que ganhou o Oscar de Melhor Filme. Outra inovação – e é esta a que interessa neste post, é que Laemmle Jr.decidiu investir no nicho do terror. Nos anos 1930, a Universal produziu clássicos que marcariam o cinema, como Frankenstein (1931), Drácula (1931), A múmia (1932) e O homem invisível (1933). Nomes como os de Bela Lugosi, Boris Carloff e Lon Chaney (que já protagonizara O corcunda de Notre Dame (1923) e O fantasma da ópera (1925) foram eternizados.

Século XXI: a Universal não tem mais o fôlego e o prestígio de outros tempos. Ela observa a Disney/Marvel ganhar rios de dinheiro com as adaptações dos heróis dos quadrinhos e a Warner montando a duras penas seu universo cinematográfico, baseado nos heróis da DC. Filmes que se passam no mesmo universo, em que personagens interagem, e a cronologia respeita os acontecimentos filme a filme (exceto Homem de Ferro 3, suponho). Eis que surge a ideia: por que não fazer o mesmo com os personagens cujos direitos a Universal possui?  Nasce daí a ideia do “Dark Universe” da Universal, cujo primeiro representante é A Múmia, dirigido por Alex Kurzman, escrito por David Koepp, Christopher McQuarrie e Dylan Kussman,  e estrelado pelo indefectível Tom Cruise.

No filme, Cruise interpreta Nick Morton, um sargento-do-Exército-e-caçador-de-relíquias aventureiro e picareta. Junto a seu parceiro Chris Vail (Jake Johnson, da série New Girl) e da arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis, de Anabelle), Morton descobre um sarcófago egípcio em pleno Iraque. Enquanto isso, na Inglaterra, uma obra para a expansão do metrô esbarra em um mausoléu repleto de tumbas de cavaleiros templários. Logo, a equipe de um misterioso instituto liderado por um certo Dr.Henry Jekyll (Russel Crowe) toma conta da escavação. Como nos mostra o trailer e nos explica a introdução do filme, o sarcófago pertence a Ahmanet (Sofia Boutella, de Kingsmen), princesa no Egito antigo que abraça o mal quando seu pai, o faraó, tem um filho homem, o que a impedirá de assumir o trono.

 

Esqueça a aventura leve e com ares de Indiana Jones que as adaptações de 1999 e 2001 (vou ignorar o terceiro filme, de 2008, de propósito) ofereciam, quando Rachel Weisz e Brendan Fraser disputavam para ver quem tinha mais carisma. Aqui temos um ritmo e um jeito de filme de ação, em geral a serviço de Cruise. Embora seja bom ver o ator tentar um papel que o coloca em situações de um pouco mais de insegurança pessoal do que os Jack Reachers e Ethan Hunts da vida, não é o suficiente para vencer seu maior adversário: o roteiro fraco.

Koepp (Jurassic Park, Inferno, Operação Sombra: Jack Ryan, Anjos e Demônios, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal) e McQuarrie (Missão: Impossível – Nação Secreta, No Limite do Amanhã, Jack Reacher: O último tiro, Operação Valquíria) são roteiristas mais do que acostumados com blockbusters, mas desta vez oscilaram entre a preguiça e a indecisão sobre que tom o filme deveria ter. O filme abre com uma introdução narrada em off pelo Dr.Jekyll, para explicar fatos que serão novamente explicados no meio do filme. Os dois primeiros atos de A múmia são até razoáveis, embora as tentativas de criar charme com os atritos entre Nick e Jenny não sejam grande coisa, o humor ligado à fisicalidade dos asseclas de Ahmanet seja apenas razoável e a tentativa de alívio cômico do personagem Vail seja um fracasso (e eu ia comentar que Ahmanet no deserto me lembrou Tieta em Mangue Seco, mas melhor não).

Outro problema é a ansiedade para mostrar algumas coisas que poderiam aguardar os próximos filmes do tal universo de monstros da Universal – e, no caso do terror, o sugerido é sempre mais forte do que o explicado. Todo mundo sabe quem é e o que acontece com o Dr.Henry Jekyll (e Crowe não está mal nao papel), mas sua participação neste filme acaba expondo demais o personagem – coisa que poderia aguardar mais um pouco. E há o terceiro ato. Aí a maldição sobre o filme desanda de vez. A história se torna megalômana e conclui – obviamente com ganchos para outros filmes – deixando mais um ar de “hein?” do que de “quero mais”.

A múmia tem bons valores, em especial no que diz respeito ao desenho de produção. Já trilha sonora é apenas funcional, enfatizando os momentos de ação e suspense, mas esquecível. Funciona como um passatempo tolerável, mas é muito pouco para a qualidade dos personagens originais e sobretudo para um filme de origem de um universo a ser expandido.

A Universal promete para breve O homem invisível, com Johnny Depp e O monstro de Frankenstein com Javier Bardem. Drácula, O monstro da Lagoa Negra, O corcunda de Notre Dame e O fantasma da ópera estão na fila. Os elencos estão sendo montados com astros famosos. Avisa lá que vão precisar de roteiros melhores.

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A Múmia

2017Duration unknown
Overview

Apesar de estar sepultada num túmulo algures nas profundezas do impiedoso deserto, uma ancestral princesa, cujo destino lhe foi injustamente roubado, é despertada no presente, trazendo com ela toda a malevolência acumulada ao longo dos milénios, e horrores que desafiam a compreensão humana.

Metadata
Director Alex Kurtzman
Writer
Author
Runtime Duration unknown
Release Date 6 junho 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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