MULHER MARAVILHA (Wonder Woman, 2017) – CRÍTICA
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Posters para "Mulher Maravilha"

A Mulher Maravilha é a grande heroína da DC, talvez a maior referência feminina nos quadrinhos. Claro que merecia um filme próprio à altura. Diante do controverso Batman v Superman, a personagem foi uma quase unanimidade, o que causou expectativas ambíguas: muitos estavam “desistindo” dos filmes da Warner/DC, alguns consideram este filme a última chance do estúdio e outros estavam otimistas justamente pelo bom desempenho da Gal Gadot como Diana.

Boas notícias: o resultado é bem satisfatório. Não é a melhor coisa do ano (não chega a ser um hino como Logan), porém não vai revoltar ninguém e entregará uma boa experiência na telona. A trama é um grande flashback que conta toda a origem da pequena princesa Diana, filha da rainha Hippolyta. A apresentação da personagem nos ganha no carisma, fofura e vigor. Sim vigor…. mesmo sendo uma criança já vemos o olho brilhando e ávido pelo treinamento.

A narrativa de como a ilha das amazonas foi criada, a ilha Themyscira (Paraíso), é contada de forma muito orgânica e em uma arte muito bonita, meio aquarelada. Assim contextualiza para aqueles que não tem a bagagem dos quadrinhos, mas sem ficar maçante. O pequeno momento de exposição, portanto, não atrapalha o bom fluxo da trama. Aliás, esse é sem dúvidas um mérito aqui: mesmo com mais de duas horas e teor político/guerra a coisa flui muito bem e não vemos o tempo passar – a comparação é inevitável: Mulher Maravilha aprendeu com os erros de BvS e soube desenvolver cada ato da história no tempo certo.

Outro ponto positivo é o visual. A fotografia em tons claros na ilha reforça o ar de paraíso – tanto que o 3D não escurece a imagem como é de costume. O contraste com a cinzenta Londres da segunda metade do filme é nítido e bem explorado. As roupas das guerreiras evidenciam um cuidado com esse quesito. Apesar de pouca vestimenta, afinal elas têm que ser funcionais para as batalhas, em nenhum momento é explorado o corpo das atrizes ou soa minimamente vulgar. Ainda assim, vemos a beleza daquelas mulheres. Ou seja, um acerto e tanto aqui.

Os cenários ajudam bem a compor o que se quer contar. As águas cristalinas e mágicas, as florestas escuras ou mesmo a cidade recém urbanizada são simples e bem efetivas. Diferenciamos bem cada local e essa marca é fundamental aqui. Já a trilha se fixa muito no icônico tema clássico. A presença dele era sim obrigatória, mas por vezes soou como muleta e não empolgou tanto quanto poderia.

Um assunto curioso que surgiu foi a discussão entre fé e ciência. A Princesa Diana culpando o deus Ares pelas desventuras da Guerra, enquanto vemos a terrível Dra Maru maquinando quimicamente um veneno capaz de garantir a vitória da Alemanha na Grande Guerra. O jeito como os demais personagens, e o público, relacionam-se com esses dois lados ficou bem feitinho. Nada mirabolante, mas foi um subtexto bem funcional.

A ação também é básica. Não compromete, mas não é a luta do século. A coreografia competente tem movimentos um pouco repetitivos, mas plasticamente belos  sem abusar – apesar de que o slow motion quase incomoda. Já o humor está no tom. O diálogo sobre casamento é o ponto alto. Alguns pensamentos hilários – e que fazem muito sentido – sobre o matrimônio rendem uma piada até longa.

Sobre os personagens, a nossa querida protagonista é bem desenvolvida e com muito potencial de representatividade. A heroína é carismática, ética e impetuosa. A inocência dela no mundo “moderno” funciona – apesar de ter alguns furinhos. Gal Gadot definitivamente encaixou bem na personagem explora de forma digna essas nuances – hoje não é possível imagina outra atriz no papel.

O companheiro de jornada, o espião Steve Trevor (Chris Pine) é um ótimo parceiro. Não rouba o protagonismo, mas não é apático. Acrescenta e revigora o longa quando está em cena. Nos importamos e acreditamos nele. Mesmo não sendo de uma profundidade gigantesca, ele não é tão preto no branco, raso. Já os demais membros da equipe (e não estamos falando aqui da Liga da Justiça hehe) são bem dispensáveis e nada memoráveis. Os antagonistas estão ok. O plano é bem manjado, mas dá até para ter alguma surpresa e envolvimento. A luta final não tem nada demais e não é o ponto alto aqui.

Pensando na composição de um universo à la Marvel, Mulher Maravilha tem referências sutis e que não atrapalham em nada o andamento do filme como obra única. O mesmo vale para os fanservices. Eles estão lá e vão ser percebidos pelos fãs mais aguçados, contudo não obrigam o longa a parar para marcarem presença – outra evolução em relação ao Batman v Superman.

Em suma: Mulher Maravilha tem mais pontos positivos que negativos. É uma boa aventura/fantasia de guerra, um pouco genérica é verdade, mas sabendo usar a simplicidade a favor. Para os padrões DC/Warner temos um respiro e esperança para filmes futuros.

Not rated yet!

Mulher Maravilha

2017Duration unknown
Overview

Antes de ser a Mulher- Maravilha, era Diana, a princesa das Amazonas, treinada para ser uma guerreira invencível. Criada numa ilha paradisíaca protegida do mundo exterior, é quando um piloto americano que cai nas suas águas e fala sobre o enorme conflito que acontece no mundo, Diana deixa a sua casa, convencida que pode parar essa ameaça. A combater ao lado de homens numa guerra para acabar todas as guerras, Diana irá descobrir a capacidade máxima dos seus poderes…e o seu verdadeiro destino.

Metadata
Director Patty Jenkins
Writer Geoff Johns
Author
Runtime Duration unknown
Release Date 30 maio 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 7    Média: 4/5]
  • Maurício Costa

    Fiquei realmente contente de saber que este filme não decepciona. As experiências com a DC tinham sido péssimas. hehehe

    • Lucas Albuquerque

      não é a oitava maravilha, mas é bem bom hehe

  • Péterson Paim

    Ao contrário do que ocorre bastante em Vingadores (e de pouquíssimos momentos de BatmanXSuperman), em Mulher Maravilha há situações de humor no lugar de piadas, o que funcionou muito bem no filme, sem ser piegas, e sem ridicularizar heróis (como é erroneamente feito com o Deus do Trovão). O show pirotécnico no final é o grande clichê, não soma mas não compromete, pois já esperamos isso do vilão desde sua apresentação teórica no início do filme, portanto está pertinente à diegese proposta, sem ruptura da lógica, porém causa um certo hiato na estética, até então intocável.

    • Lucas Albuquerque

      A questão do humor nos filmes da Marvel já está um tanto saturada, mas para muitos a fórmula ainda funciona. A DC (no cinema) teve dificuldades em seguir por essa linha, vide Esquadrão Suicida. Agora de fato está no tom. O humor decorre em parte da inocência da Diana em meio ao mundo que ela não conhecia/ ou do Steve Trevor no universo das Amazonas.

      Parte da crítica tem descontado muitos ponto do final justamente por esse fator. Mas é isso mesmo: um misto de clichê e coerência.

      Valeu pelo comentário, Professor Péterson 😀

  • Fernando Machado

    Achei que você foi até complacente no texto. Assim como vc gostei do filme, mas tive mais problemas com algumas escolhas. Achei o CGI muito fraco, a resolução fora de tom com momento bem piegas, das cenas de lutas gostei de poucas. Acontece que outros méritos me fizeram gostar do filme no final.

    Ótimo texto!

    • Lucas Albuquerque

      Pois é… o texto acabou refletindo uma visão mais otimista que eu mesmo tive, ocorre…. Mas fico feliz que ainda assim tenha conseguido dar uma ideia geral do filme. Valeu pelo elogio….

  • Alex Watawa

    Achei tanto a critica quanto os comentários
    interessantes em especial por um corte de gênero… um viés extremamente
    masculino e convencional. Acho que está faltando diversidade por aqui para que
    todas as leituras não sejam apenas do ponto de vista dos homens cultos,
    brancos, de classe média.

    Se for pensar numa perspectiva de mulheres
    brancas (amazonas) e a patriotada americana já há muito o quê se criticar, mas
    a importância de uma representação de uma heroína feminina que pensa e age com
    outros valores e paradigmas e que vive situações que toda mulher pode se
    identificar é imensa. E a maioria dos homens não percebem necessariamente isto
    porque cresceram com imagens de super heróis masculinos e raramente perceberam
    que havia um vazio de representação para a metade da humanidade.

    As cenas aonde acontecem o “mansplain”
    (homens explicando às mulheres coisas que elas já sabem e que às vezes sabem
    melhor que os homens) ou ela tendo sua fala cortada à repetição, o não acesso à
    certas esferas de discussão e esferas públicas – parece passar batido nas críticas
    cinematográficas masculinas. Podemos dizer que Peter Parker também tinha sua
    fala cortada e era considerado um “ fraco”… mas esta é a experiência de
    alguns homens, não é a experiência-mor diária de todos os homens e esta não é
    uma diferença anódina.

    Olha aqui exemplos de diferença de crítica
    quando feitas por mulheres:

    https://www.nytimes.com/2017/06/05/opinion/wonder-woman-movie.html?_r=1

    http://www.slate.com/articles/arts/movies/2017/06/wonder_woman_starring_gal_gadot_reviewed.html

    Está faltando diversidade neste
    blog…Percebi que começou como algo entre amigos, mas agora que cresceu, está
    faltando diversidade tanto de gênero quanto de outras categorias…

    • Maurício Costa

      Caro Alex, agradeço pelos comentários e pelas críticas. Porém, há algumas coisas que não cabem. Em primeiro lugar, eu não sou branco. Não sou branco em lugar nenhum do mundo. Talvez a foto em preto e branco possa confundir, mas basta ver uma Mesa Quadrada. Um abc.

      • Maurício Costa

        Quanto ao “mansplain”, o filme reflete a situação exatamente como era naquele período. O mérito é o de mostrar uma personagem que rompe essas amarras, além, é claro, de fazer o público atual perceber o nível do absurdo de forma bem humorada. Enfim, a crítica do texto não é minha, mas creio que esse ponto vale um debate.

    • Aniello Greco

      Bom, não há dúvida que todos somos homens… e isto se deve a como o site foi formado, e como se estendeu o convite aos dois integrantes não originais.

      O site foi formado por dois amigos que queriam falar de cinema. O Maurício e o Ducci. Quando a oportunidade de participar de cabines de imprensa apareceu, os dois tinham dificuldades em participar das cabines, por causa do horário das cabines e do emprego deles.

      E com isto me chamaram. Mas minha disponibilidade para estar no cinema de manhã também se enrolou, e foram atras de mais um para participar das cabines. Assim surgiu o Lucas.

      Os dois convites foram baseados em parte na qualidade da escrita, mas principalmente na amizade e interação.

      Apesar do site ter crescido em número de críticas, qualidade dos textos e principalmente público, ainda é um site de amigos falando de cinema, de forma amadora e sem compromisso fixo, agenda ou perfil editorial formalizado.

      Dito isto, eu realmente acho que uma mulher contribuinte para o site enriqueceria o conteúdo, sem dúvida. Mas o perfil econômico não é tão homogêneo entre nós quatro, nem o racial. Em muitos lugares apenas eu seria visto como branco de nós quatro. Temos um argentino, bem abrasileirado.

      Quanto o culto… acho que a ideia de crítica cinematográfica já é uma leitura acadêmica do cinema. Posso este enganado.

      De qualquer forma, reconheço a limitação quanto a questão feminina. Eu tento analisar este foco quando acho importante em uma crítica, mas ainda seria um homem falando do feminino. E talvez eu abordaria mais a questão do que o Lucas abordou neste texto específico, sinceramente só saberia escrevendo o texto.

      Mas de qualquer forma, acho necessário e importante o debate do feminino nas narrativas artísticas, e é essencial que este tipo de análise seja feito. Mas não é obrigatório que toda análise aborde o tema, em especial em textos de tamanho médio, onde necessariamente não tem uma análise de todos os aspectos do filme.

      E vale comentar que, de forma informal e não estabelecida expressamente, nos quatro evitamos de fazer análises muito politizadas dos filmes. Talvez seja uma questão de manter o foco no cinema, talvez uma ilusão de neutralidade na crítica.

      • Aniello Greco

        Quanto às cenas dos cortes de fala, restrição de espaço, e mans-lain, acho que elas estão lá mais como denúncia e recurso de contraposição entre a Ilha Paraíso e a Europa da Primeira Guerra.

        Vemos estas cenas não pela ótica do homem que tenta excluir e reprimir a mulher, mas pela ótica da mulher que se choca e entende este preconceito como surreal, devido a suas origens.

    • Aniello Greco

      Ah, importante dizer… por mim este filme tinha que ser dirigido por uma mulher, como foi. Essencial. E a melhor cena do filme, na minha opinião, um diretor homem jamais faria igual. É a cena da “Terra de Ninguém”, onde Diana se descobre e se revela como uma superherói, não por confrontar um supervilão ou por fazer feitos físicos sobre-humanos, mas por não aceitar o conceito humano de não poder lutar contra aquela injustiça específica.