Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi (Mudbound, 2017) – Crítica
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Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi tem algo de estranho: não estar em mais categorias do Oscar. Seja pela qualidade do filme em si, seja pelo tema – caro à academia. Ainda assim, o filme está em 4 categorias, fotografia, roteiro, atriz coadjuvante e canção, todas justas.

Confira aqui todas as nossas críticas dos indicados ao Oscar 2018.

A história se passa no Mississipi (como o deturpado título nacional indica), na década de 40. Dois temas pulsavam: a guerra e o racismo. Esses dois assuntos, com as devidas repercussões, são mesclados aqui. Apesar dessa força temática, o que rouba a cena são os personagens. Inclusive quanto mais eles se relacionam, melhor o longa fica.

Mudbound

Todos tem a devida apresentação, mas sem um didatismo maçante. Rapidamente o filme é hábil em mostrar as personalidades de cada um e possíveis ato futuros ou consequências passadas. Parte do mérito está no roteiro, mas parte nas atuações.

Não que a interpretação de Mary J. Blige, como Florence, esteja ruim – pelo contrário, está ótima. Mas a indicação dela representa uma vaga que deveria ser do elenco (mas não há essa categoria no Oscar, azar do Oscar…). Não à toa no SAG (sindicato dos atores), Mudbound foi lembrado, perdeu para o também excelente Três Anúncios Para um Crime.

Vários assuntos são postos em tela com calma. Das questões trabalhistas, às intimidades familiares. Do papel de cada um na guerra, à presença forte do racismo. Da fé, à bebida. Tudo é trabalhado de maneira orgânica, nenhum brota do nada e todos levam a algum lugar.

Mudbound

Por exemplo, a violência é destrinchada em diversos tipos. Seja uma violência contra animais, descrista em uma cena com dinamismo, ou então os pontos-chave: as perdas na guerra e o preconceito racial. Tudo graficamente forte. Onde era pra ter sangue, tem sangue.

As marcas da guerra são sentidas em quem fica, quem vai e naqueles que ficaram no meio do fogo cruzado. O jeito como cada um assimila os horrores – ganhando ou perdendo força – dá mais uma camada para os personagens.

Por consequência, tal como a lama (do título original), a dor é um cenário. E dor vem por alguns caminhos. A dor física nem sempre é a mais dolorida. Temos a dor da saudade, a dor moral e a dor da impotência ante diversas situações.

A montagem alterna de modo preciso os movimentos no front na Europa e na fazenda no Mississippi. A cena do pé potencializa a dor graças a truques simples, porém eficazes. Além dos núcleos diversos dentro de um mesmo ambiente. A história andar com a narração também possibilita um ritmo que, mesmo no alto dos quase 140 minutos, não torna a coisa arrastada (a despeito de alguma barriga no segundo ato).

Vale falar da narração. Normalmente eu não gosto deste recurso, pois ele denota uma certa preguiça em mostrar os fatos, ao precisar recorrer ao contar. Aqui, além da emoção ser reforçada, a ferramenta possibilita mais empatia com os personagens e que o público entre na mente de cada um que tem aquela voz. Sim, vez ou outra soa expositivo, mas no geral foi uma sacada inteligente (Extraordinário tentou fazer algo parecido e naufragou).

Mudbound

A direção de Dee Rees poderia ser lembrada (e claro o filme também). Desde o começo ela tem o filme nas mãos. Claro que não é recomendável perder o início de nenhum filme, mas aqui, o prólogo diz tanta coisa e prepara o terreno – literalmente – de maneira exemplar.

Há uma virada de tom no terceiro ato que em mãos menos habilidosas poderia fazer o filme descambar e, pasmem, ocorre justamente o oposto: o filme sai dos trilhos para disparar. A tensão, antes mais intimista, cresce vertiginosamente. Até as tintas mais carregadas se sustentam e fazem sentido narrativo.

Mudbound não é fácil. Tudo pesa. Mas de um peso necessário.


E você ficou sabendo deste filme há um ano na nossa cobertura do Festival de Sundance 2017. Confira o vídeo onde Maurício Costa já exalta os méritos da obra:

Nota do Razão de Aspecto

 

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