Motorrad – Segunda Crítica

Eu não sei se já comentei aqui, mas um dos meus sites favoritos sobre cinema é o Razão de Aspecto. Quando estou decidindo sobre ver um filme ou não, procuro uma crítica deles para ter uma ideia sobre o que esperar. Mas nem sempre uma crítica positiva me dá vontade de ver o filme, e as vezes uma negativa aumenta a minha vontade de assisti-lo. Assim foi com Motorrad.

Motorrad era um filme que eu queria muito gostar, mas temia muito odiar.  O cinema nacional precisa de mais filmes de gênero. Apesar de todo amadurecimento que tivemos nas últimas décadas, o cinema nacional ainda não se desenvolveu como indústria de entretenimento plenamente sustentável, e seguimos dependente de editais públicos, financiamento estatal, ou heróis dispostos a tirar dinheiro do próprio bolso para fazer seu filme na cara e na coragem. Isto e as produções Globo Filmes, extremamente formulaicas e pasteurizadas.

Precisamos de mais filmes que se proponham como entretenimento de gênero. Mais filmes de terror, ficção científica, aventura, filmes históricos, épicos, etc. Sem isto, mesmo produzindo várias obras de qualidade, como já fazemos, não conquistaremos o público.

 

Somente com mais filmes de entretenimento de nicho o cinema nacional poderá superar este ranço de nosso público. Isto faz com que Motorrad seja um filme importante. Mas é bom? De acordo com 99,99% da crítica nacional, inclusive aqui do Razão de Aspecto, não. Não mesmo!

Diante disto, permanecia pessimista quanto ao filme. Mas as críticas que vi dos meus colegas, entre eles a de Lucas Albuquerque, me despertaram sincera curiosidade. Todos falavam muito mal, mas muitos falavam sobre talvez não ter entendido a proposta, ou não ter captado algo. Estranho… Motorrad parecia ser um slasher movie, algo sem muita complexidade. O que havia de diferente aqui?

Fui no cinema conferir e me surpreendi. Vi um filme problemático, com altos e baixos, mas um filmes simples, despretensioso e direto. Até seco. Quase tosco. Muitos dos problemas apontados pela crítica especializada estão bem presentes, e alguns dos méritos nítidos foram negligenciados. Mas o que mais me estranhou foi a resistência contra algumas escolhas propositais do diretor, típicas do gênero slasher.

As grandes referências para este sub-gênero são Haloween (1978), O massacre da serra elétrica (1974), Sexta-feira 13 (1980), A hora do pesadelo (1984), entre outros. O que há em comum entre estes filmes? Quais são os clichês do gênero? Inicialmente um grupo de jovens cometem alguma transgressão aparentemente inconsequente. Esta transgressão gera uma reação em um (grupo) psicopata, que os persegue e os executa com requintes de violência. Entre as vítimas temos alguns estereótipos, como a screaming queen (uma espécie de donzela em perigo com volume mais alto), ou o valentão covarde, o fiel amigo, etc. E a protagonista, normalmente feminina, que sabemos desde o início que será o último sobrevivente.

Somente depois destes filmes estabelecerem e explorarem ao máximo estes clichês a linguagem amadureceu o suficiente para as transgressões e paródias, como a franquia Pânico. Muita gente interpreta Pânico como apenas mais uma franquia slasher, mas a presença de personagens especialistas em clichês do estilo dentro do filme estabelecem claramente o tom de paródia (o que faz de Todo mundo em pânico uma proposta para lá de vazia).

Onde se posiciona Motorrad no meio disto tudo? Como uma tentativa moderna de se fazer um slasher a moda antiga. E já no início notamos algumas marcas próprias, bem como alguns clichês. Temos desde o início a geografia e as motos como personagens da narrativa. E o silêncio e as ações como principal forma de interação entre os personagens.

O ambiente, fotografado com um filtro sépia, apresenta uma aridez quase estéril, dando um visual meio pós-apocalíptico ao filme. O que não é pedra, areia ou água é metal, corrente, etc. O figurino quase militar dos motoqueiros reforça a aridez. Que também ressoa nos diálogos curtos, simplistas. Não há espaço para muito além de fuga, violência e medo.

De personagens propriamente ditos, temos apenas 4 importantes. Hugo, o protagonista, que busca ser aceito entre os amigos de seu irmão, Ricardo. Para tal aceita até mesmo arriscar a vida furtando peças de moto de um ferro velho. Paula, uma mulher misteriosa, com algo de sobrenatural. Um grupo de motoqueiros sem identidade, com comportamento de manada e assassinos. E a Reserva, com seu muro inexistente, e suas trilhas embaralhadas. Todos os demais personagens são meros recursos para que suas mortes sejam contadas, e com isto se estabeleça a relação entre os personagens centrais.

O final aberto,  e o mistério acerca do poço, do muro, de Paula e os motoqueiros de preto pode incomodar muita gente na platéia, mas tem como função apenas estabelecer a inumanidade do antagonista e o arco dramático de Hugo. Não são enigmas com respostas, mas mistérios com sugestões. Sugestões que percebemos desde o início. O final não é um plot twist, mas sim a conclusão inevitável.

Tudo isto encaixa muito bem, ao meu ver, com a ideia de um cineasta aprendendo os clichês necessários ao gênero. Primeiro se domina o alfabeto, para depois se explodir a linguagem. Mas infelizmente a falta de domínio de alguns recursos necessários aos clichês carregam as boas intenções para baixo.

A trilha sonora é lamentável. O tempo todo temos música pesada e acelerada, ruídos mecânicos e sussurros, sem falar no abuso dos jump scares sonorosIsto, ao invés de criar tensão, superestimula a platéia e irrita, tirando o impacto das cenas de violência, onde tal exagero seria bem vindo.

Há também um excesso de perseguições de moto, alongadas e filmadas de modo cansativo. E ainda pior, muitas vezes a edição entre as cenas dificulta entendermos como tal personagem chegou, sumiu, ou reapareceu, e onde na reserva a cena está acontecendo. E as cenas violentas, que são o centro de todo slasher, apesar de bem filmadas, são esparsas.  Devido a confusão e exagero da trilha, acabam tendo o mesmo tom do resto do filme.

Se O rastro (2017) foi um tombo na direção certa para que o cinema de horror nacional de entretenimento deixe de ser cinema alternativo, Motorrad parece ter aprendido uma ou duas lições, mas ainda atordoado com a falta de experiência. Esta longe de ser O massacre da serra elétrica nacional, mas já demonstra uma intenção sincera de produzir bons sustos, e boas poças de sangue. E nada além disto. Ainda falta muito para merecer ser parodiado.

Not rated yet!

Motorrad

Overview

Um grupo de motoqueiros invade uma reserva para curtir a natureza. Mas a maioria deles não sairá vivo do passeio.

Metadata
Director Vicente Amorim
Writer
Author
Runtime
Country
Release Date 7 setembro 2017
Actors
Starring: —

Nota do Razão de Aspecto

 

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