A morte passou por perto (1955) – Último filme independente de Kubrick
Posters para "O Beijo Assassino"

Cenas das críticas anteriores

Nas críticas anteriores acompanhamos o jovem Kubrick abandonar a fotografia e se aventurar no cinema. Após dirigir alguns documentários curta-metragem, Kubrick pede financiamento a seus familiares e amigos para fazer seu primeiro longa de ficção: Fear and Desire. Apesar da boa fotografia e de algumas cenas de profundo talento, o filme fracassa economicamente. Conseguirá nosso herói cinematográfico seguir sua carreira de diretor? Este é o momento em que A morte passou por perto da carreira do cineasta.

 

Um breve esclarecimento financeiro e cronológico

Para entendermos a importância que este pequeno filme representa na carreira de Stanley Kubrick, é necessário olharmos de novo para trás e esclarecermos algumas coisas. Kubrick, um garoto de classe média nova-iorquino, abandona sua carreira de fotógrafo com 23 anos de idade, e produz dois documentários curta-metragem (Day of The Fight e Flying Padre), sem levantar muito dinheiro com isto. Entre 1951 e 1953 ele sobrevive apenas com um seguro desemprego e jogando xadrez a dinheiro em praça pública (sim, Kubrick foi um chess hustler do Central Park). Não exatamente um modo de vida promissor. Em 1953 ele convence a sua família, em especial um tio dono de uma farmácia, a financiar seu sonho de fazer um longa metragem. Fear and Desire é o resultado. Infelizmente o filme não satisfaz o diretor, e, pior, gera prejuízo financeiro.

É este fracasso financeiro que explica o por que Kubrick aceita dirigir o curta empresarial Seafarers. Ele simplesmente precisava do dinheiro. O terceiro curta de Kubrick é produzido alguns meses após Fear and Desire. Inclui a crítica junto com os dois primeiros curtas por questões temáticas, não cronológicas.

Então a situação que temos em 1953 é a de um jovem diretor de cinema de 25 anos, sem dinheiro, com um filme fracassado, e que persiste em fazer seu segundo longa. Novamente ele recorre a família. Seu tio, Martin Perveler, resolve não investir no filme, para não tomar prejuízo. Então ele recorre a Morris Bouseul, um amigo farmacéutico, que ganhou os créditos de co-produtor. Consegue um empréstimo de U$ 40.000,00. E assim nasce A morte passou por perto. Imagine a pressão em cima de Stanley Kubrick! Um segundo fracasso financeiro poderia significar um senhor entrave a continuidade de sua carreira. Não só no aspecto financeiro, mas até de auto-imagem.

A morte passou por perto

Com algumas lições aprendidas, Kubrick agora opta por um filme mais comercial. Em 1953 estamos no auge do Cinema Noir, então Kubrick opta por um filme em vários aspectos bastante comum dentro do gênero. Temos um romance fatídico de um personagem ingênuo, o pugilista Dave Gordon, com a femme fatale Gloria Price. Mas sua amada está envolvida com o questionável criminoso de baixa categoria, Vincent Rapallo.

Duas das pessoas envolvidas na produção de Fear and Desire também estão em A morte passou perto. Howard Sackler foi o roteirista no primeiro longa, e escreveu juntamente com Kubrick o roteiro para o segundo. Desta vez a história é bem mais convencional, e com trama mais elaborada. E o ator Frank Silvera, que interpretou Mac, agora faz o antagonista Vincent Rapallo. Silveira amadureceu bastante como ator durante estes dois anos. O restante do elenco, apesar de não serem de atores profissionais, fazem atuações convincentes. Nada excepcional, mas são atores com personagens elaborados e emoções realistas.

A trilha sonora de Gerald Fried é simples e típica da época, com temas bem marcados para cada ambiente. O contraste do tema romântico com a música um tanto latina do mundo de Rapallo é bastante eficiente. Mas o que torna A morte passou perto um filme realmente excelente é sua parte visual.

Boxe

Um dos pontos mais marcantes da estética de A morte passou perto é a luta de boxe no início do filme. Kubrick inspirou-se em si mesmo, e vamos muitas referências a seu documentário Day of the Fight. Os cartazes de anúncio da luta, as cenas de preparação de Cartier/Gordon, a luta filmada apenas com som ambiente, etc. As semelhanças são enormes. Mas há uma cena em particular onde há semelhança e oposição ao mesmo tempo. Em Day of The Fight temos uma tomada belíssima de Cartier sendo enquadrado pelo banco de seu oponente. Agora é o banco de Gordon que serve de enquadramento para seu oponente. E com este pequeno detalhe Kubrick nos conta que Cartier e Gordon são opostos no ringue. Uma bela dica visual para o queixo de vidro do protagonista.

O que Kubrick não podia advinhar é que esta sua visão crua e seca do boxe iria influenciar os dois melhores filmes de boxe já realizados. O apartamento de Gordon tem muitas semelhanças visuais com o de Rocky Balboa. E Martin Scorcese já declarou diversas vezes que sua principal inspiração para a forma como escolheu retratar as lutas de Touro Indomável foi A morte passou perto. Não é a toa, os poucos minutos de boxe do filme são puro drama visual.

Mas não é só no boxe que Kubrick conseguiu belas composições de imagens. Como todo bom filme noir, o uso de luz e sombras em grande contraste, similar ao expressionismo alemão, está bem presente. O uso dos espaços urbanos e a iluminação utilizada transforma Nova Iorque em uma cidade sombria, perigosa, e cruel. Isto é ressaltado pelo uso de planos muito abertos, desumanizando os personagens. A sequência inicial em que vemos Dave Gordon e Gloria Price descendo de seus apartamentos em imagens quase espelhadas, e se cruzando na saída do prédio consegue produzir, sem nenhum diálogo, uma forte impressão de destino e inevitabilidade. A mesma inevitabilidade que, posteriormente, faz com que um roubo de cachecol fracassado tenha consequências inimagináveis.

Temos ainda uma cena onírica onde a câmera grita pelas ruas de Nova Iorque com a imagem em negativo. O uso do travelling para transformar um pequeno salão de dança em um enorme espaço dramático.  E o simbolismo de um duelo de dois homens lutando pela amada, destroçando acidentalmente dezenas de manequins femininos. Se em Fear and Desire Kubrick tenta fazer um filme narrativamente cerebral, com resultado questionável, agora vemos o diretor optando por uma história simples, mas abusando de toda a sua habilidade com a câmera. Simplicidade narrativa e muita ousadia visual.

A morte passou perto ainda é um filme de baixo orçamento, com um tanto de improviso técnico, atores amadores e uma edição um tanto crua. E é uma história  mais prosaica do que estamos acostumados a associar com o diretor. Mas não só os temas sexo e violência, tão comuns a Kubrick, estão presentes. O que faz de A morte passou perto quase que uma fita demo do que Kubrick virá a fazer é a riqueza dos recursos de câmera.

Resultado? A United Artists comprou o filme por U$ 100.000,00, e ainda ofereceu a Kubrick mais U$ 100.000,00 para a realização de seu próximo filme. A única exigência do estúdio foi a inclusão de um final feliz. Kubrick, a contra-gosto, aceitou. Algo impensável poucos anos mais tardes. Com isto temos A morte passou perto como o único filme de Kubrick com um happy end clássico. E confesso… é um bom final.

Mas o mais importante, A morte passou perto é o filme que permitiu Kubrick a viver de cinema. A partir deste pequeno grande filme, Kubrick se torna um diretor realmente profissional, em todos os sentidos.

Cenas das próximas críticas

Com o pequeno sucesso comercial de A morte passou perto, Kubrick tem a chance de fazer seu primeiro filme de estúdio, sem depender de financiamento próprio. Kubrick se associa com James B. Harris, criando a Harris-Kubrick Pictures Corporation. A parceria foi responsável por três dos quatro próximos filmes: O grande Golpe (1956), Glória feita de Sangue (1957)  Lolita (1962). Foi nestes anos que Kubrick consegue se firmar como um dos principais diretores da  nova geração.

O grande golpe é a primeira obra realmente magistral de Kubrick. E é a única vez em que Kubrick opta por fazer dois filmes seguidos dentro do mesmo gênero. Apesar de não ter sido um sucesso comercial, O grande golpe foi aclamado pela crítica e até hoje é tido como um dos melhores filmes noir já realizados.

A partir de agora vocês notarão um padrão. Todos os filmes receberão 5 estrelas, até o fim da lista. Sendo que para alguns, será injustiça. Mereciam nota maior que a máxima.

Not rated yet!

O Beijo Assassino

19551 h 07 min
Overview

Quando Gloria Price estava sendo atacada por seu empregador e amante, Davy Gordon, um lutador de boxe em decadância, salva-a acaba se envolvendo com a moça, atiçando a ira de Vincent Raphello, o empregador.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer
Author
Runtime 1 h 07 min
Release Date 21 setembro 1955

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 0    Média: 0/5]