Minha Fama de Mau (2019) – Erasmo Carlos como você nunca viu – Crítica
Minha Fama de Mau

Minha Fama de Mau tem uma missão que é surpreendente que ninguém tenha feito antes: um filme sobre um dos maiores nomes da nossa música, o Tremendão Erasmo Carlos. Mas o que surpreende mesmo é como o filme conta a história, saindo da fórmula de uma cinebiografia quadradinha. Dirigido por Lui Farias e escrito por ele em parceria com Letícia Mey, baseado em um livro do próprio Erasmo, Minha Fama de Mau tem vários elementos que escapam do convencional e tornam tudo mais interessante.

Para os fãs será, claro, um prato cheio. Mas mesmo quem não conhece a fundo um dos cabeças da Jovem Guarda, vai apreciar o longa, já que ele cumpre um excelente papel de apresentar para as novas gerações o ícone, e o faz de uma forma deliciosa – e tem chances de você descobrir músicas que não sabia que partiram dele.

Logo de cara ficamos íntimos de Erasmo Carlos (Shay Suede), pois opta-se pela quebra da quarta parede e por uma narração em off, que pasmem, funciona muito bem, dando um charme e sem ser redundante, combinando perfeitamente com o ar despojado do biografado. As piadas são engraçadas e no tom certo, não quero cravar com certeza, mas acho que acertam em perto de 100% das vezes.

Minha Fama de Mau

E que escolha acertadíssima de elenco. Os atores não se parecem tanto com as figuras reais, e isso pode soar estranho no começo, mas rapidamente acostumamos e nos rendemos ao carisma deles. Shay brinca com o público às vezes de modo explícito, às vezes de maneira mais sutil. Tem duas cenas que deixam um pouco a desejar (uma que ele precisa parecer um bad boy e outra que ele está bebendo), mas fora isso, ele tem potencial para encantar gerações – tal como Erasmo.

Gabriel Leoni faz o grande amigo do Tremendão, estamos falando obviamente de Roberto Carlos. Mesmo tendo um trejeito aqui ou acolá, o foco não é uma imitação pura e simples. A repaginada conferida é dentro de um espectro bastante aceitável. O que mostra que a direção e o ator encontraram o tom certo de homenagem e criação. Malu Rodrigues encarna uma Wanderléa com pouco material para trabalhar, ainda assim dá uma energia que ajuda no frescor, destaque para um dueto lindíssimo com Erasmo. Vinicius Alexandre tem poucos minutos em cena, mas entrega um Tim Maia desbocado sem nunca soar ridículo, pena que aparece tão pouco. Já Bruno de Lucca deixa um gosto torto como Carlos Imperial, sendo mais Bruno e menos Carlos.

Em especial no primeiro ato de Minha Fama de Mau a montagem dá um show. Ágil sem ser corrida, com inserções de imagens reais e colagens sem serem bagunçadas, além ajudar na apresentação/construção do universo. Ajudada pela identidade visual criativa com rabiscos animados, recortes “vivos” de jornal e um inusitado ar quadrinesco, constrói-se aqui um dos pilares do sucesso da obra. Espertamente, essa loucura não é usada durante o filme todo, caso contrário saturaria. E nos momentos de mais drama há uma dose certa de lentidão e movimentos mais tradicionais que coadunam com os sentimentos de Erasmo.

Minha Fama de Mau

As cenas de palco tem uma certa limitação orçamentária que tiram da imersão, mas por todos os elogios feitos (atuação, direção e montagem), relevamos em prol dos momentos encantadores, junto com as músicas que nos embalaram.

A parte musical, aliás, que merece aplausos. Seria tentador se apoiar nos sucessos, mas o filme sabe sim chamar o público para cantar junto, sem precisar parar a trama. Ele sabe do potencial sonoro, mas não esquece do narrativo. Há uma relação dialética de um aspecto melhorando o outro. Sem dúvida que não daria para dar conta de modo exaustivo de todas as músicas. Mas os sucessos estão ali.

Nessa linha, vale frisar que não temos a vida completa de Erasmo Carlos, mas exatamente um recorte. Não é mostrada a infância e tampouco os dias atuais. E agradeço muito aos realizadores de não colocarem frases explicativas no começo ou no final. Quem conhece conhece, quem quiser conhecer que vá pesquisar. A história que o filme quer contar ele conta, sem precisar dessas ferramentas preguiçosas.

E nada preguiçoso é o olhar do diretor para extrair com a câmera diversas sensações que guiam o publico sem querer pegar na mão, mas acrescentando à história. Contra Plongée, plano holandês (usado com parcimônia em uma momento de confusão) e um respirar dos planos que permite que os atores se desloquem com fluidez no quadro.

Alguns podem reclamar que falta desenvolvimento nos personagens secundários. O que não é uma mentira. Porém à semelhança de um Bohemian Rhapsody, o foco é marcado: os demais personagens não funcionam, aqui, de modo isolado. O único arco real é do Erasmo Carlos. O Roberto vem como um irmão mais velho que no geral tem tudo sob controle e está lá para acolher o amigo. A Ternurinha também é unidimensional, mas com muito carisma, quero um filme só dela… E vale comentar que ao contrário do filme do Queen, Erasmo passa por alguns altos e baixos, em alguns momentos ele tem um abacaxi nas mãos e pena para resolver.

Outra sacada inteligente está nas personagens de Bianca Comparato (protagonista da série 3%). Ela interpreta várias mulheres e isso cria uma piada que quase que a transforma em uma entidade, mas que serve para abarcar vários amores. Mas o principal amor de Erasmo é o Roberto e esse “romance” é destacado de maneira carinhosa. Uma cena no piano mais para o final do filme rende lágrimas potenciais.

Minha Fama de Mau atira para vários lados e como todo artista nem sempre acerta. Mas quando acerta, tal como um grande artista, aí gera uma emoção inesquecível.

 

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Minha Fama de Mau

Overview

Lutando para sobreviver e se virando com pequenos trabalhos, o jovem Erasmo Carlos (Chay Suede) alimenta uma paixão: o rock and roll. Fã de Elvis Presley, Bill Halley & The Comets e Chuck Berry, ele aprende a tocar violão e passa a perseguir a ideia de viver da música. Misturando talento e um pouco de sorte, ele conquista a admiração do apresentador de TV Carlos Imperial (Bruno de Luca), um cara influente no meio artístico, e através dele conhece o cantor Roberto Carlos (Gabriel Leone), com quem começa a compor diversas canções. A parceria dá muito certo e o sucesso logo chega, transformando para sempre a vida de Erasmo.

Metadata
Director Lui Farias
Writer
Author
Runtime
Country
Release Date 14 fevereiro 2019

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