Me Chame Pelo Seu Nome (2017) – Um dos favoritos ao Oscar- Crítica
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Me Chame Pelo Seu Nome está muito cotado em diversas categorias do Oscar 2018. Será que esse favoritismo é justo? Confesso que na primeira hora do longa eu não tinha entendido o motivo. Erro meu. Como mea culpa, posso afirmar que é de fato no final, especialmente nos minutos finais, que a coisa fica gigante e acaba até melhorando e justificando todo o trajeto…. Mas não vamos nos adiantar, voltemos ao começo…

O longa apresenta um letreiro inicial marcando a data, estação do ano e o local (de modo semi preciso) onde se passará a história. Tal símbolo, que em outros filmes poderia ser um misto de capricho com preguiça, aqui funciona com sentido narrativo.

O verão é quase um personagem, ou no mínimo um cenário que envolve os personagens – tanto que no inverno “resta esperar o verão” como é dito. O jeito de filmar emula em certo sentido a época, começo dos anos 80. A dinâmica do multicultural ambiente (algum lugar ao norte da Itália, essa imprecisão é curiosa) se altera e o ânimo dos que ali estão também.

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Uma dessas alterações se dá pela chegada de Oliver (Armie Hammer) na casa da família de Elio (Timothée Chalamet). O convidado surge confiante e soberbo. É dito que ele possui arrogância até no uso da expressão “até mais”.

Atitude que causa um estranhamento em Elio, ainda assim o jovem de 17 anos sente uma atração diferente por aquela figura, atração que todos ao redor de Oliver sentem, ele é magnético. Construir e apresentar a relação da dupla é a tarefa de boa parte de Me Chame Pelo Seu Nome.

Apesar da vasta quantidade de outros tipos que entram e saem de cena, o longa acompanha muito de perto essa parceria. Em alguns minutos da trama sentimos que só tem eles no universo e quando nos damos conta os demais personagens “desaparecem”. Mas logo reaparecem como complementos importantes.

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Cada pequeno momento é degustável. Isso se dá pelo excelente texto (um dos favoritos ao Oscar), pela bela cinematografia – os planos são precisos e preciosos – e pelos atores, já já falo deles. O resultado pode ser visto em cenas como a do vôlei, ou um passeio de bicicleta ou ainda a brincadeira com o pêssego (este último que ganha peso por ser uma continuação de um outro momento que fora interrompido cenas antes), todos pérolas, e como tal valiosas e delicadas.

Apesar de algumas linhas de diálogos verborrágicas, com um texto poético, artístico e filosófico sobre o dia a dia, Me Chame Pelo Seu Nome ganha muito na sutileza e delicadeza. A emoção vem do ponto de equilíbrio destes polos. Polos que também são Oliver e Elio…

A arte aliás tem um trabalho fundamental aqui. Seja na verve acadêmica do pai (ponto de partida da trama) e que rende duas cenas: uma sobre o corpo e a outra sobre o resgate, ambas são importantes como metáforas para a situação do protagonista.

Protagonista que sempre está com um livro nas mãos. “há alguma coisa que você não saiba?” pergunta Oliver sobre ele. Ele volta e meia se debruça sobre partituras (música que é um dos pontos altos e também deve ter presença no Oscar). Esse lado do personagem permite uma cena ao piano que mescla identidade, transformação e maturidade.

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Sobre as atuações, de modo algum quero tirar o méritos dos atores – eles estão ótimos – mas sem dúvidas houve um belo direcionamento de Luca Guadagnino. Repare nas reticências das respiradas dos personagens. Isso quebra o ritmo ao mesmo tempo que vende uma fluidez natural. A distribuição dos personagens em cena também é bem feita. Não temos atropelos e até possíveis conveniências (como um saindo da casa e outra entrando de bicicleta) não pesam negativamente.

Armie Hammer apresenta um Oliver expansivo, vigoroso e cheio de si. A composição rouba a primeira metade do filme e instiga para mais. Ele tem boas chances de ser indicado para Melhor Ator Coadjuvante.

Porém quem brilha muito é Timothée Chalamet. Vi que ele estava muito bem cotado para o Oscar e pensei “este ano tem Gary Oldman [em O Destino de uma Nação], Daniel Day-Lewis, Tom Hanks, Denzel Washington… por que esse garoto de nome quase desconhecido está se metendo no meio?”

Não tardou para eu entender.

Chalamet tem um fisicalidade impressionante. Por vezes contido, outras com rompantes, o ator consegue ir no tom necessário cena a cena. O valor do trabalho dele é mais notório em momentos como no carro ou então na cena final, contudo, durante toda a projeção vale ficar de olho em cada gesto sutil, sendo portanto o exemplo perfeito de protagonista ao ser a metonímia para o filme como um todo. Repare na movimentação ao redor do personagem do Armie Hammer, todo o pé atrás e a descoberta sentimental ali presentes são transpostas com excelência pelo promissor ator.

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Roteiro rico, vigorosamente filmado, atuações cheias de nuances e questões de identidade sexual. Não há como deixar de lembrar de Moonlight: Sob a Luz do Luar, vencedor do Oscar de 2017. Talvez por se assemelharem tanto pode ser uma faca de dois gumes: a academia vai premiar novamente e seguir uma “fórmula” (apesar dos filmes terem diferenças significativas) ou vão por outro caminho este ano? A conferir…

No final de Me Chame Pelo Seu Nome (sem dar spoiler, obviamente), há um diálogo com o pai, um telefonema e a cena derradeira (esta não vou dizer como é) que são de uma potência sentimental rara. Aliás os últimos movimentos acontecem durantes os créditos. Então fique sentado na cadeira e sinta o que o diretor quis passar (torça para o cinema que você estiver não acender as luzes).

Certos filmes podem não ser tão atrativos para o grande público e se tornarem um desafio (cá entre nós não é todo mundo que aprecia 2h20 de muito diálogo). Aqui, contudo, há uma bela recompensa para quem chega vivo no final.



PS: não faça quem nem este jovem crítico desatento que confundiu os filmes e viu na Netflix Nunca diga seu nome achando que estava vendo o tão falado favorito ao Oscar. Sendo que se tratava de um terror de quinta categoria….

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Call Me by Your Name

Overview

O sensível e único filho da família americana com ascendência italiana e francesa Perlman, Elio (Timothée Chalamet), está enfrentando outro verão preguiçoso na casa de seus pais na bela e lânguida paisagem italiana. Mas tudo muda quando Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que veio ajudar a pesquisa de seu pai, chega.

Metadata
Director Luca Guadagnino
Writer
Author
Runtime
Country  Brazil France Italy United States of America
Release Date 27 outubro 2017

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