Lucky (2017) – O Canto do Cisne de Harry Dean Stanton
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A primeira cena de Lucky tem como movimento mais ágil um andar de um cágado – sim, literalmente falando. Aquela cena, que vai reverberar o longa como um todo, já diz muito a que veio este filme. Ritmo, fotografia, som e narrativa. Tínhamos quase tudo ali. O detalhe que faltava era Harry Dean Stanton – que entra logo na segunda cena.

O veterano ator, falecido este ano, que possui o primeiro trabalho em 1953, tem talvez um dos melhores trabalhos da carreira (não vi todos, então não me arrisco a rankear, o que seria até um desserviço). Não gosto de frases sensacionalistas como: “parece que ele sabia que ia morrer e fez um excelente trabalho”, acho inclusive de mau gosto. Contudo, posso afirmar com tranquilidade que Stanton fechou a carreira com chave de ouro, um verdadeiro canto do cisne. Premiações póstumas poderão vir, pena que o Oscar este ano está tão concorrido, mas com certeza a Academia vai homenageá-lo de um jeito ou de outro…

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A trama basicamente fala de nada e de tudo ao mesmo tempo. E tempo é uma das palavras-chaves aqui (as outras talvez sejam realismo e linguagem). Sentimos o peso de questões referentes ao ator/personagem nonagenário. A parte da saúde dele é posta de forma muito orgânica e sem ir por caminhos fáceis. É inacreditável que esse roteiro seja de dois estreantes na função, Logan Sparks e Drago Sumonja.

A rotina daquele senhor em uma cidade pequena é exaustivamente trabalhada em tela. Os pequenos rituais ao acordar, os mesmos caminhos, as pessoas com histórias já contadas inúmeras vezes… Contudo, dois pontos são fundamentais aqui: a não pressa, aliada a duração curta do filme, permite um sentir contemplativo, que reflexões como aquelas pedem.

O segundo fator é que mesmo em meio a pouca novidade na cidade, cada diálogo e movimento são engajantes e cada novo encontro se revela significativo e sim com atrativos variados. Ou seja, o “nada” aqui (que aliás tem função narrativa – até explícita) reverbera muito além de filmes com propostas mais verborrágicas.

Mas não se enganem: o filme é menos parado do que posso estar fazendo parecer. Mesmo algumas repetições são montadas de forma dinâmica. O tanto de tema que Lucky (o filme) propõe também encorpam muito o filme: preconceito, guerra, solidão, amizade, além, é claro, morte. Tudo passando pela figura de Lucky (o personagem) e por todos os outros que o cercam.

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E temos mais um mérito dessa obra prima: cada personagem, por menos tempo em tela que tenha, são significativos. Ninguém, além de Lucky, tem um arco muito complexo, mas as poucas linhas delineadas são suficientes para termos simpatia por cada figura e para tornar cada um distinguível do outro – meio que daria para fazer um filme para os habitantes da região.

Quando belos discursos e instigantes debates falam tanto quando o cenário ou até a bebida consumida temos o exemplo do que é um filme pensado. Novamente incredulidade minha por ser a direção de estreia do ator John Carroll Lynch. O controle do tempo de narrativa que esse homem tem é um absurdo. Eu queria ir ao cinema ver uns 10 filmes dele no ano. Por mais que eu tenha adorado o longa ter menos de 1h30, eu ficaria naquela cidade por dias….

Disse ali que linguagem é uma das palavras-chaves. A importância fica clara no uso de um dicionário por Lucky, no programa que ele assiste na TV, na concisão/formalidade/rituais, na emoção que cada palavra é dita entre amigos ou desafetos, além do silêncio. Os espaços sem palavras explícitas dizem muito em Lucky.

Para exemplificar melhor tudo isso, falemos mais de Harry Dean Stanton. Até quando o personagem tem atitudes erradas, um preconceito aqui, uma ideia ultrapassada acolá, ainda assim simpatizamos com ele. A expressão de desgosto com uma situação, um abraço infantil e desolador, a defesa de um amigo, o enfrentamento, um tombo, o regar de um cacto vestindo cueca, tudo transformado por Stanton em sentimento sincero. Não me entendam mal, mas parece que ele não está atuando. Torna tudo tão simples que não enxergamos aqueles passos com artificialidade e esquecemos que tinha um texto decorado ou câmeras filmando.

Algumas cenas serão marcantes e arrepiantes. O diálogo com o médico, o desabafo com o advogado, a canção arrepiante e contagiante e o melhor diálogo sobre cágados da história do cinema, talvez o único mas ainda assim o melhor, proferido por nada menos que David Lynch em uma participação curiosa.

Confesso que eu gostaria que o filme terminasse duas cenas antes. Em uma palavra que me causou exatamente aquilo que ela significa (obviamente não vou falar aqui pra não dar spoiler). Contudo, o final fecha um arco e rende um passeio necessário com a câmera. Além ser tão honroso quanto o que eu teria escolhido, alguns momentos antes.

Aqui no Brasil tivemos um filme semelhante em alguns aspectos, o Comeback. Que por uma infeliz coincidência também foi o último de um grande ator, Nelson Xavier. Nele também o tempo e outros temas são similares. Se o nacional já foi incrível, quase impecável, posso dizer que Lucky superou e tirou esse quase. Não tem uma vírgula que eu possa dizer contra este trabalho. Possível integrante do top 10 melhores do ano, não vou resistir ao trocadilho: sorte a nossa termos Lucky nos cinemas.

OBS: Hoje tenho 28 anos e fui muito impactado por Lucky. Fico imaginando vendo este filme aos 40,60,80…. não vou esperar, estou indo agora ver quando é a próxima sessão…

Not rated yet!

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Overview

Lucky (Harry Dean Stanton), o personagem, é um senhor quase centenário. Lucky, o filme, traz reflexões sobre a vida a parir do "nada". A rotina daquele homem sendo ressiginificada a cada novo encontro e a cada novo movimento. Até a fuga de um cágado se torna tema aqui...

Metadata
Writer Drago Sumonja, Logan Sparks
Author
Runtime
Country
Release Date 29 setembro 2017

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