Lolita (1962) – Testando os limites da comédia
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Cenas das críticas anteriores

Com 34 anos de idade Kubrick estabeleceu seu lugar na história do cinema. Sua filmografia em 1962 incluia 3 documentários curta metragem e 5 longas metragens. Seu primeiro longa, Fear and Desire foi um fracasso. Logo após Kubrick exercita seus músculos de cineasta no cinema noir, com o bom A morte passou por perto e o ótimo O grande Golpe.  Mas o que marcou de forma permanente o nome de Kubrick como um grande diretor foram os dois clássicos, Glória feita de sangue e Spartacus. Como o herói rebelde interpretado por Kirk Douglas, Kubrick agora está treinado para matar, e livre da escravidão. Sem amarras financeiras, ou conflitos criativos, Kubrick embarca em uma viagem sem volta para filmes polêmicos, inovadores e potencialmente revolucionários. Para ir aonde nenhum diretor ousou ir antes, Kubrick escolhe adaptar o controverso livro de Nabokov sobre pedofilia: Lolita.

Lolita

Em 1955 Nabokov publica seu maior sucesso literário, Lolita. É a história de um professor, Humbert Humbert, que casa com uma mulher fantasiando ter relações com a filha de 12 anos. E tendo sucesso. O livro é narrado em primeira pessoa, pelo própio Humbert . Carregado de temas sexuais, o livro foi o responsável por firmar o termo ninfeta no imaginário moderno. E o título do livro se tornou sinônimo de ninfeta. Ainda hoje o livro causa enorme controvérsia.

A escolha de Kubrick por filmar este romance demonstra no mínimo, coragem. Kubrick chamou ninguém menos que Nabokov para produzir o roteiro, em 1960. A primeira versão do roteiro escrita por Nabokov tinha mais de 400 páginas. Algo praticamente não filmável. Com isto Kubrick e James Harris (seu sócio na Harris-Kubrick Pictures Corporation) tiveram que fazer grandes alterações e cortes no texto original.

Mas não foi apenas o tamanho do roteiro o problema. Na época não existia o sistema de classificação indicativa de faixa etária da MPAA. Para definir que conteúdo era adequado para o cinema vigorava o Código Hays, bastante restritivo. Em 1962 Hollywood ainda não tinha independência artística para violar os valores da família tradicional americana, por assim dizer. Se um filme fosse condenado pela Liga Católica da Decência americana, provavelmente significaria completo fracasso comercial. Kubrick comentou, depois do lançamento do filme, que se soubesse das pressões que sofreria pela censura religiosa, provavelmente não faria o filme.

Kubrick teve que retirar boa parte da carga erótica do texto de Nabokov. E provavelmente por esta necessidade, acabou por optar por sair do drama puro, e flertar com a comédia. Com isto o filme perde um tanto do impacto e incômodo do livro, mas compensa com uma fina ironia, aumentando o tom de crítica social e de costumes. Para tanto Kubrick teve que aumentar o papel de Charlotte, mãe de Lolita, e de Clare Quilty.

As investidas românticas de Charlotte sobre Humbert, e sua não reciprocidade, servem não só como alívio cômico, mas também como aprofundamento da personalidade de ambos. O lado infantil, agressivo e confuso de Charlotte explica muito sobre a falta de ambiente familiar para Lolita. E a total falta de empatia de Humbert acrescenta uma camada extra de monstruosidade ao personagem. Os diálogos entre os dois, repletos de entrelinhas e segundas intenções, é um dos pontos fortes do filme.

Quilty tem aqui uma participação muito maior que no livro. E com Peter Sellers interpretando o personagem, temos um alívio cômico dos mais sombrios da história do cinema. Sellers aparece em várias roupagens, algumas bem cartunescas. Em especial Dr. Zempf, quase que um ensaio para o Dr. Strangelove.  Este lado quixotesco de Quilty incomoda muitos críticos, mas funciona muito bem no nível cômico. E em algumas cenas é tão fantasioso que serve para questionarmos a integridade do narrador, Humbert.

Além destas alterações nos personagens, Kubrick (com autorização de Nabokov) altera a cronologia narrativa, iniciando o filme com o assassinato de Quilty. Ao contar de início que Humbert assassina Quilty, Kubrick consegue nos manter preso na narrativa na transição do segundo para o terceiro ato. Um belo exemplo como a edição pode ajudar a resolver problemas de ritmo narrativo. A cena de assassinato é o momento máximo de Sellers no filme. Conseguimos rir sem perder a tensão, causando em nós um estranhamento único. Há dois momentos a se destacar aqui. A citação ao filme Spartacus inicia uma tradição de Kubrick, de usar as cenas iniciais de seus filmes para se referir ao filme anterior. E a bela solução visual para Kubrick conseguir filmar um tiro na cabeça sem miolos violarem o Código Hays.

Por fim, a última alteração necessária para o filme ser aprovado é a própria Lolita. No livro é uma criança de 12 anos de idade. Para o filme, ela é envelhecida em alguns anos, o suficiente para ter um corpo já com alguma (não muita) maturidade. Sue Lyndon, a atriz escolhida para o papel, tinha 14 anos à época. E uma aparência um tanto  mais madura que isto.

Apesar de todos estes poréns e contornos a censura, a história ainda é uma história de pedofilia e incesto. E Kubrick usa de muita sutileza para passar a mensagem sexual. A imagem mais icônica do filme é a de Humbert passando esmalte nas unhas dos pés de Lolita. O fetiche nítido, transformando a criança em objeto de fantasia. Além disto temos a cena no drive-in, onde sem diálogo algum, apenas com o colocar e tirar de mãos, percebemos a sexualidade da relação entre Charlotte, Humbert e Lolita. E a única cena onde sexo é claramente insinuado acontece entre Humbert e Charlotte… Com Humbert olhando para a foto da ninfeta.

Apesar de toda comicidade presente no filme, o que temos é uma história trágica de desamores. Charlotte ama a imagem de Humbert francês, culto e professor, sem perceber o predador que aceita em sua casa. Humbert ama a idéia de dominar e seduzir uma criança, que apenas por acaso é Lolita. Lolita ama a promessa de independência e maturidade aparente em Quilty. Que, como no poema de Drummond, não ama ninguém. Apesar de toda a narrativa aparente de romance, em especial na trilha sonora, o que temos é o anti-romance, as pessoas idealizadas ao ponto de se tornarem objetos. E com isto, todos os envolvidos tem suas vidas destruídas.

Rimos durante o filme de todas as emoções e manifestações similares ao amor. Rimos enquanto Kubrick enfia a faca na ferida, e torce. Rimos até o ponto da depressão. Rimos até vidas serem despedaçadas. Se há um momento ou outro de comédia desnecessária (como o humor corporal para montar a cama no quarto de hotel), a escolha de Kubrick pelo ridículo não retira o impacto dramático da história. É o substituto para a referência direta a pedofilia.

Se feito hoje, Kubrick provavelmente escolheria uma abordagem mais direta, assim como Nabokov fez no livro, e Adrian Lyne em sua refilmagem de 1997. Mas a necessidade é a mãe da invenção, e Kubrick teve que solucionar o dilema de como filmar Lolita em 1962 produzindo uma comédia-drama extremamente incômoda e ácida.

Uma pena que ainda hoje, mais de 50 anos depois, parte do público ainda acredite que certos temas nunca devem ser abordados. O filme de Lyne, em 1997, sofreu duras críticas moralistas. E se fizessem um novo Lolita hoje, não importando a qualidade, sofreria tentativas de censura semelhantes. Devido a fobia moral as pessoas não conseguem perceber que a história de Nabokov é um retrato contundente do poder destrutivo da violência sexual de adultos contra crianças.

Cenas das próximas críticas

Após testar os limites da comédia em Lolita, a parceria com Peter Sellers continua. Agora saímos de um tema explosivo para outro. No auge da Guerra Fria, dois anos após a Crise dos Mísseis de Cuba, Kubrick decide fazer uma sátira sobre a política de garantia de destruição mútua. Pois se aprendemos a rir da pedofilia, por que não rir da hecatombe nuclear iminente? Com Dr. Strangelove ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba Kubrick inicia sua trilogia de ficção científica. Em três filmes Kubrick deixará de ser apenas um excelente diretor e se tornará um mito.

 

 

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Lolita

19622 h 32 min
Overview

Humbert Humbert, um professor divorciado britânico de literatura francesa, viaja para a cidade pequena na América para uma trabalhar na área de ensino. Ele se permite ser arrastado para um relacionamento com Charlotte Haze, sua senhora viúva e sexualmente faminta, com quem ele se casa a fim de proteger a filha de 14 anos de idade da mulher namoradeira, Lolita, por quem ele ficou perdidamente apaixonado, mas cujas as intensões, deverão ser contrariadas por um malandro desonesto chamado Clare Quilty. A polêmica já esta sobre a mesa, porém a qualidade artística calou as vozes religiosas que se levantaram contra sua exibição. Excelente, mais uma obra prima do controvertido mestre Kubrick.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer
Author
Runtime 2 h 32 min
Release Date 13 junho 1962

Nota do Razão de Aspecto

 

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