Lady Bird: é hora de voar (2017) – Crítica

Ao contrário do Brasil, nos Estados Unidos não é incomum que a principal e maior cidade de um determinado estado não coincida com sua capital. Assim, enquanto Chicago passa dos dois milhões e meio de habitantes, a capital do estado de Illinois é a pequena Springfield, que com menos de 120 mil moradores. Em Maryland, a pequena Annapolis, que beira os 40 mil habitantes, é a capital de um estado onde Baltimore reúne mais de 600 mil pessoas. O mesmo acontece com a Califórnia: em um estado onde se localizam duas das mais importantes cidades dos Estados Unidos (São Francisco, com 870 mil habitantes e Los Angeles, com quase 4 milhões), a capital é Sacramento. Embora chegue a quase 500 mil moradores, perto das suas irmãs corregionais, a capital californiana parece uma cidade do interior, menos excitante.

É exatamente esse o sentimento que domina Christine – ou melhor, Lady Bird, como gosta de ser chamada a personagem principal do filme homônimo (que ganhou o desnecessário subtítulo “é hora de voar” no Brasil), interpretada pela atriz Saoirse Ronan. Prestes a terminar o ensino médio, Lady Bird tem como maior sonho sair de Sacramento para estudar em uma universidade maior e em uma cidade mais importante. Enquanto isso não acontece, ela passa pelos dilemas típicos da adolescência: a descoberta da própria identidade, as dificuldades na escola, idas e vindas com as amigas, os primeiros amores e, principalmente, uma relação conflituosa com sua mãe, Marion (Lauren Metcalf).

Conduzido pela também atriz Greta Gerwig, em sua estreia solo como diretora (ela já havia codirigido, com Joe Swanberg, Nights and weekends, de 2008), o filme tem grandes doses autobiográficas. Embora não traga grandes inovações ao tema da maturação adolescente, as qualidades de Lady Bird estão justamente na precisão de sua execução. Ademais das atuações excelentes, a construção de personagens, as situações vividas, os diálogos, tudo parece encaixado e harmônico com a vida real:  Christine/Lady Bird é uma adolescente, e, portanto, oscila momentos de ponderação com reações exacerbadas; empatia com momentos centrados em seu próprio mundo e interesses; tentativas de autoafirmação, às vezes desnecessárias, com aprendizados inusitados; expectativas doces, mas frustradas, com perseverança.  Em outras palavras, todo o estranhamento da adolescência é retratado com verossimilhança na tela.

O roteiro, também assinado por Gerwig, evita determinadas armadilhas, ao mostrar nuances ricos na construção dos personagens e nas relações da protagonista. Assim, a menina mais bonita da escola não é arrogante e tem sonhos bem simples. Julie, a melhor amiga gordinha (Bealnie Feldstein) tem arcos próprios, e não se limita à alívio cômico. A relação com o catolicismo do colégio onde estudou oscila entre a chacota e o desinteresse da adolescência e a busca por rumo em determinado momento em que a protagonista parece perdida.

Essa história talvez ficasse menos interessante se Ronan e Metcalf não entregassem excelentes atuações na tela. Mesmo sendo cerca de sete anos mais velha que a personagem que interpreta, Ronan convence como adolescente, tanto pelos trejeitos quanto pela caracterização que envolve o figurino, os cabelos coloridos e a acne. Metcalf traz a mãe de Lady Bird não como uma tirana incompreensiva, mas uma mulher pragmática, dura, mas de bom coração, que tenta criar os filhos da melhor maneira possível.

As cinco indicações ao Oscar (Filme, Roteiro, Direção, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante), somado ao fato de que o filme manteve cotação máxima no Rotten Tomatoes (site americano que compila as tendências da reação de crítica e público) por algum tempo, talvez sejam um exagero. O filme não chega a ser brilhante ou revolucionário, mas é executado com bastante competência. Há algum desnível de ritmo na segunda metade da projeção (talvez pela primeira metade ser tão boa) e o final poderia ser um pouco mais inspirado.  Dito isso, assim como uma cidade interiorana, Lady Bird: é hora de voar pode ser um filme menor (em tamanho, complexidade e ousadia), mas é capaz der trazer os encantos de sua simplicidade.

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 3    Média: 5/5]
  • Maurício Costa

    Acho este bem melhor que O Destino de Uma Nação e The Post, como conjunto de obra cinematográfica.

    • Pedro Piacesi

      Concordo! Gostei bastante da atuação do Gary Oldman em O Destino de Uma Nação, mas não acho que seja um filme ótimo. The Post achei um bom filme, mas minha impressão é de que foi “oscarizado” pela velha guarda que julga os filmes, à semelhança de “Ponte dos Espiões”, que não vejo como pode ter concorrido numa categoria de Melhor Filme com “O Quarto de Jack”, a meu ver muito superior.