Jogador Nº1 (Ready Player One) – Spielberg de volta ao jogo!

Quando vi os primeiros trailers de Jogador Número 1, temi assistir a um filme meio vazio, em que a “graça” seria apenas identificar as referências à cultura pop espalhadas aqui e ali pelas cenas – o que pode ser divertido, mas é longe de bastar para um bom filme. A boa surpresa é que, embora estejam lá easter eggs para fãs de diversos filmes, animes, séries de tv e quadrinhos (e, por que não, Kubrick!), o filme se segura tranquilamente sem elas, e mostra Steven Spielberg de volta à boa forma na direção de filmes de aventura.

Por falar em easter eggs, a trama do filme, (bem) livremente adaptada do livro homônimo escrito por Ernest Cline (em sua estreia na literatura) e lançado em 2011, trata de futuro distópico, em 2045 em que as pessoas passam boa parte de seus dias conectadas ao OASIS, um gigantesco universo de realidade virtual, em que podem escolher seus avatares e recolher moedas para incrementá-los. Ao falecer, seu gênio criador, James Halliday (Mark Rylance) deixou um desafio aos jogadores: quem encontrasse três chaves seria o herdeiro da fortuna e controlaria o OASIS.

Com essa trama quase simplória – mas que funciona, até por remeter à lógica dos videogames – o filme tem por protagonista Wade Watts (Tye Sheridan, o Ciclope de X-Men: Apocalipse), um garoto de 18 anos cujo avatar no OASIS chama-se Parzival. Ele tem como principal parceiro Aech, um gênio da eletrônica. Ambos conhecem outra jogadora destemida, Art3mis, que, junto a Sho e Daito, completam o time dos mocinhos (e de propósito não menciono aqui os atores que os interpretam fora do mundo virtual). Como antagonista do filme, a corporação toda poderosa IOI, liderada por Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, o Krennic de Rogue One), que move todos seus recursos para controlar o OASIS. No mundo real, ele tem como capanga F´nale (Hannah John-Kamen), enquanto no ambiente digital seu braço de ferro é I-R0k (T.J. Miller).

Possivelmente, o que Jogador Número 1 tem de melhor é seu ritmo. Boa parte do filme é constituído de cenas de ação, sem que isso torne a narrativa vazia. Os momentos de mais calmaria são relativamente curtos, e estão lá para que o espectador recupere o fôlego e para dar seguimento à trama. Igualmente competentes são os efeitos visuais e digitais do filme.  Aliás, a dinâmica movimentação de câmera nas cenas de ação, tanto dentro quanto fora do OASIS, levam o espectador para dentro do filme, sem que se perca jamais a noção do que está acontecendo (viu, sr.Bay?).

Sem a preocupação com hiper-realismo no ambiente virtual – o que combina com a ideia dos avatares modificados e de um mundo de infinitas possibilidades –, as cenas no OASIS são sempre grandiosas e coloridas – o que contrasta propositalmente com os containers sem graça empilhados nos bairros da vida real. A trilha sonora de Alan Silvestri (que, não por acaso, foi o autor do tema de De volta para o futuro) harmoniza com a energia do filme, embora sem um tema específico tão memorável quanto a de seu trabalho mais conhecido (empatado com Forrest Gump, talvez?).

Embora o grupo de protagonistas não conte com nenhum ator espetacular, Sheridan e os outros jovens têm carisma o suficiente para fazer com que torçamos para eles. Rylance interpreta um gênio nerd/geek em que a boa interpretação do ator contrasta com uma caracterização um pouco caricatural demais. De toda forma, a história e as decisões de seu personagem funcionam. Do lado dos malvados, a coisa é mais irregular: Sorrento oscila entre ser cruel e ser paspalho; I-R0k, que poderia ser uma figura assustadora, acaba estranhamente sendo usado como elemento cômico, e F´Nale… não faz muita diferença para o filme… Ah sim, temos o onipresente e bem-vindo Simon Pegg como Ogden Morrow, sócio do empreendimento inicial do OASIS.

Um ponto que poderia ter sido trabalhado de forma mais aguda seria a decadência do mundo real, que levou as pessoas à praticamente desistir de suas vidas em prol do OASIS. Intui-se que muita coisa está ruim, mas mesmo uma periferia mais perigosa ainda é mostrada como ascética demais, e, em determinada cena, temos a polícia trabalhando com competência e serenidade, algo que não combina muito com aquela distopia.  Por fim, uma determinada conveniência – digamos, geográfica – do roteiro força um pouco a descrença do espectador.

Ainda assim, o septuagenário Spielberg consegue, ao mesmo tempo, ter um olhar nostálgico, nas referências a filmes e games marcantes da cultura pop, como De volta para o futuro, Senhor dos Anéis e jogos do velho Atari, e um olhar mais contemporâneo, voltado para a geração dos games atuais e da vida na Internet. Não espere discussões elaboradas sobre cibercultura: o filme se propõe a ser diversão de primeira qualidade, e não muito além disso. Celebrando ao mesmo tempo tecnologia e contato humano, Spielberg mostra, em seu Jogador Número 1, ainda ter muitas vidas para gastar no mundo do entretenimento.

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Ready Player One: Jogador 1

20182 h 20 min
Overview

Ano de 2045, com o com o mundo à beira do caos e do colapso. As populações encontram salvação no OASIS, um expansivo universo virtual criado pelo brilhante e excêntrico James Halliday. Quando Halliday morre, deixa uma imensa fortuna à primeira pessoa que encontrar um "Ovo da Páscoa" digital que ele escondeu algures no OASIS, o que faz lançar um concurso que vai conquistar o mundo inteiro. Quando um improvável e jovem herói chamado Wade Watts decide participar, é arrastado para um perigosa caça ao tesouro virtual, através de um universo fantástico rodeado de mistério, descoberta e perigo.

Metadata
Director Steven Spielberg
Writer
Author
Runtime 2 h 20 min
Release Date 28 março 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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