It: A coisa (2017) – Razão : de : Aspecto – Crítica
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Que Stephen King é um escritor de grande sucesso ninguém tem dúvida. Sua bibliografia – vasta, bem vasta – já vendeu mais de 350 milhões de cópias e seu nome é praticamente sinônimo de literatura de terror na modernidade. Também não é novidade que o cinema e a TV bebem fartamente nas obras de King, sendo mais de 70 as adaptações de suas histórias. Uma dessas adaptações – Um sonho de liberdade, de 1994 – frequenta as listas dos melhores filmes de todos os tempos. Até mesmo o multigenial Stanley Kubrick se rendeu aos encantos de King ao levar aos cinemas O iluminado em 1980 (embora muitas das escolhas diretor tenham desagradado o escritor).

Ao lado de filmes muito bons, como Carrie (1976), Conta comigo (1986) e À espera de um milagre (1999), aparecem volta e meia umas assombrações bem ruins como Mangler (1995) e O apanhador de sonhos (2003). Em 2017, além da primeira transposição de A torre negra para as telonas (cuja crítica você pode ler aqui) e da presença das series O nevoeiro e Mr.Mercedes nas telinhas, o clássico It, livro de 1986, ganha nova versão com It: a coisa, do diretor Andy Muschietti (de Mama, terror de 2013).

It conta a história de sete jovens adolescentes em Derry, cidadezinha no Maine (onde mais?) em que diversos garotos e garotas têm desaparecido. Um desses garotos é Georgie, irmão mais novo de Bill (Jaeden Lerberher), que não desiste de encontrá-lo. Nas férias do colégio, ele é ajudado por uma turma que inclui um gordinho inteligente, um desbocado sacana mas leal, uma linda e carismática ruivinha, um hipocondríaco, um garoto negro e um jovem judeu às vésperas de seu Bar Mitzvah – o “Clube dos Perdedores”, como eles mesmos se batizam (traduzida toscamente como “Clube dos Otários” na legenda brasileira) . O mal é incorporado por uma entidade que tem por gosto se manifestar como o “palhaço dançarino” Pennywise (interpretado por Bill Skargard (mais um do clã Skargard no cinema, filho de Stellan, irmão de Alexander). Destaque para Sophia Lillis, uma versão juvenil de Amy Adams, que rouba todas as cenas em que aparece. Ao contrário do livro que o inspira, em que a narrativa alterna entre a infância e a vida adulta dos protagonistas, o filme concentra-se apenas na primeira parte da história e revela ser apenas o primeiro capítulo da adaptação (a segunda parte, com os adultos, está prevista para 2018).

Para os leitores mais novos ou menos afetos à obra de King, It parecerá uma espécie de spin off da série Stranger Things. Estão lá todos os elementos que fascinaram os espectadores: a cidadezinha aparentemente normal que tem segredos trágicos; a turma toda pedalando suas bicicletas pelas ruazinhas e bosques, em busca da solução dos mistérios, enquanto tentam escapar e⁄ou combater os valentões do colégio; a menina solitária na turma por quem vários nutrem atração; e adultos “normais” que são, em muitos casos, muito mais assustadores do que o suposto monstro da cidade. Claro que a lógica temporal é a oposta: foi a série de tv que incorporou elementos de King e de outros clássicos da década de 1980 (período que parece ser, no cinema recente, um oásis de nostalgia, uma espécie de época perdida, de última década em que as coisas podiam ser realmente divertidas). Ah sim… a presença de Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things, como um dos protagonistas, “oficializa” a ponte de influência… É nesse aspecto que It funciona melhor: a turma, a nostalgia, a união dos amigos contra o desconhecido; a descoberta das primeiras paixões e os processos de auto-afirmação. Aliás, os primórdios da erotização são tratados no filme com ternura e humor (ainda que eu consiga ouvir potenciais chatos de plantão reclamando…).

Quanto ao terror, há alguns pontos positivos. Entre eles – e talvez o mais importante – está a caracterização e a interpretação de Skagard como Pennywise. Ele consegue transmitir o misto de fascínio divertido, em um primeiro olhar, com uma esquisitisse ameaçadora que funciona, e bastante, quando ele aparece e ⁄ ou fala. Não deixa de ser uma grande vitória, uma vez que a caracterização atual competia com a icônica, de Tim Curry, na-adaptação-do-livro-para-série-de-tv-que-virou-filme de 1990. Um It em que Pennywise não funcione está fadado ao fracasso.

Dito isso, as escolhas relativas à movimentação física da entidade, seja manifestada como palhaço ou com outro avatar, podem gerar algum riso involuntário em vez de pavor. Além disso, determinadas tomadas de câmara, anguladas diagonalmente, lembram (propositalmente) a linguagem dos quadrinhos terror e de filmes que os homenageiam (como Creepshow, de 1982, escrito pelo próprio King). Como referência e homenagem é excelente – mas dá um ar mais cômico ao filme, que retira elementos mais poderosos de medo. O corte de partes mais ousadas do livro também faz o filme caminhar mais para a aventura do que para o terror. Outro problema, e esse relativamente sério, é que não se sente um clima real de ameaça à turma principal: com exceção da cena inicial, assustadora e que dava a impressão de iniciar um filme quase gore, Pennywise parece um monstro que tenta assustar (e às vezes até consegue), grita e esperneia, mas no fundo não faz muito além disso. It traz um tipo de terror que não economiza ao mostrar a fonte do medo na tela, o que retira muito do elemento de suspense da história.

It vai aquecer o coração dos mais nostálgicos, conquistar pelo carisma da gurizada e talvez dar um ou dois sustos em quem não tem costume de assistir a filmes de terror. Funciona muito mais como aventura juvenil do que como terror e, embora não seja uma obra prima, está mais próximo das boas adaptações do prolixo Stephen King do que das ruins – para compensar a fraqueza de A torre negra. Mas o grande palhaço do ano ainda é Bingo.

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It: A Coisa

20172 h 15 min
Overview

Numa pequena cidade no Maine, sete crianças conhecidas como O Clube dos Falhados enfrenta os problemas, os valentões e um monstro que toma a forma de um palhaço chamado Pennywise.

Metadata
Director Andy Muschietti
Writer Chase Palmer, Gary Dauberman, Cary Fukunaga
Author
Runtime 2 h 15 min
Release Date 17 agosto 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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