Guardiões da Galáxia: Vol 2 – Crítica
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Quando Guardiões da Galáxia estreou em 2014, ninguém antecipava o tamanho de seu sucesso. A escolha por personagens desconhecidos do público médio foi bastante corajosa e  mostrou-se bem sucedida: embora a atratividade dos personagens fosse potencialmente menor – comparada à de Capitão América, por exemplo -, essa mesma condição dava liberdade aos roteiristas James Gunn (que também dirigiu o filme) e Nicole Perlman de estabelecerem um tom para o filme e uma dinâmica entre os personagens menos compromissada com o cânone dos quadrinhos. O resultado foi um filme extremamente divertido e com personagens carismáticos. Se o primeiro Guardiões tem algum defeito, é o de querer se provar cool a cada 30 segundos, com piadas ou canções que muitas vezes não era necessárias para o desenrolar da trama – mas que funcionavam 100% das vezes.

Escrito e dirigido novamente por James Gunn, Guardiões da Galáxia, vol.2   abusa das características do primeiro: temos cenas encantadoras com Groot (voz e captura de movimentos de Vin Diesel), agora em sua versão baby; temos Drax (Dave Bautista) como grande alívio cômico com sua total falta de tato para entender sutilezas dos humanos; temos Rocky Racoon (voz de Bradley Cooper), desbocado, pilantra e insuportavelmente chato – tudo para esconder seu bom coração; temos a tensão romântica mal resolvida entre Peter Quill/Starlord (Chris Pratt) e Gamora (Zoe Saldana); temos os questionamentos do protagonista a respeito de sua paternidade e os embates de Gamora com sua irmã Nebula (Karen Gillan). Yondu (Michael Rooker), saqueador e pai adotivo de Quill, também retorna.  Como adição à trama, surge um misterioso personagem chamado Ego (Kurt Russell), acompanhado sempre de Mantis (Pom Klementieff),  personagem clássica nos quadrinhos dos Guardiões.  Vale mencionar ainda Ayesha (Elizabeth Debicki), líder da raça dos Soberanos, que, de contratantes, passam a perseguidores dos Guardiões, depois que Rocky não consegue controlar seus impulsos cleptomaníacos. Por fim, Stakar, líder dos Saqueadores e ídolo de Yondu, é interpretado por… ah, vejam o filme!

Os realizadores já tinham noção precisa do que agradou a plateia anteriormente – só que isso oferece ao mesmo tempo uma bússola e uma casca de banana. Tudo que funcionou no filme anterior é aproveitado, mas flertando sempre com aquele exagerozinho desnecessário. Assim, se o primeiro filme é uma aventura espacial com altas doses de humor, aqui muitas vezes há cenas que se prestam exclusivamente a fazer rir. Isso é ótimo, porque as piadas são mesmo engraçadas (talvez com exceção de uma desnecessária piada envolvendo ameaças com as fezes de Drax. Mas, afinal de contas, existe piada necessária? Nem as fezes de Drax fazem o filme perder o brilhantismo).

O escorregão vem quando o filme, sentindo ter carta branca, alonga ou repete determinadas piadas, como na cena dos créditos iniciais, ou em uma determinada em que Drax acaba sendo colocado para dormir; ou quando o baby Groot tem dificuldades de seguir instruções; ou ainda no esperado cameo de Stan Lee. Sabe aquele amigo que sabe que vê que contou uma piada engraçada e fica esticando-a?  É um pouco isso. Há também a opção por um visual cartunesco-caricatural em determinada passagem do filme – em que certos personagens usam o hiperespaço por vezes seguidas – que destoa demais do Universo Cinematográfico da Marvel, e funcionaria melhor em um desenho do Bob Esponja.

Esses pequenos exageros não tiram os méritos do filme como entretenimento de alta qualidade. A parte visual é impressionante: se você achou incrível o rejuvenescimento de Robert Downey Jr. em Guerra Civil, prepare-se para segurar o queixo com Kurt Russel. A maquiagem das diversas raças usa efeitos práticos e está muito boa. As batalhas espaciais e nos planetas são ao mesmo tempo movimentadas e divertidas. Um ou outro momento/cena transparece um pouco de artificialidade (em especial na superfície do planeta…uhmmm… natal… de Ego), mas mesmo essa artificialidade é claramente proposital reforça a galhofa assumida de Guardiões da Galáxia. O filme realmente não se leva a sério e, para não ser sério, faz um trabalho cinematográfico sensacional. Guardiões da Galáxia se junta à Vigilante do Amanhã como candidato ao Oscar de melhores efeitos visuais ( e ainda teremos Star Wars em dezembro), além de ser um forte candidato à maquiagem e a design de produção.

Para além da qualidade técnica, a linguagem visual de Guardiões da Galáxia é muito inteligente, com referências estruturais a jogos on line combinados com a estrutura dos fliperamas da infância de Peter Quill. Assim, o filme mimetiza a violência pasteurizada dos jogos, em alguns momentos, para dar peso à violência real, em outros momentos.

A maior força do roteiro está na evolução dos arcos pessoais. Traços de personalidade e conflitos plantados no filme anterior são bem explorados, e o fato de o filme não ser “de origem” facilita seu desenvolvimento. Todos têm tempo suficiente de tela – o que é desafiador em um filme com tantos personagens. Mesmo Yondu e Nebula – antagonistas do filme anterior – ganham mais camadas (e a intensidade da interpretação de Gillian, perceptível mesmo por baixo de tanta maquiagem, é impressionante). Até coadjuvantes tem suas pequenas tramas, às vezes engraçadas, às vezes tocantes. Sem nenhuma dúvida, um roteiro que consegue desenvolver o arco dramático de um processo de redenção em meio à galhofa generalizada e que, com isso, consegue comover o público, merece todos os elogios.

A trilha sonora continua sendo praticamente um personagem extra do filme. Depois do enorme sucesso da seleção do primeiro filme, a fórmula de canções clássicas é repetida, com mais variedade, mas com um carisma que dependerá muito mais da empatia do espectador com as músicas escolhidas. A trilha rendeu, inclusive, alguns momentos de comédia dramática inteligente, quando Kurt Russel declama a letra de Brandy como um tratado existencial da condição de um deus. Isso sem contar a ótima piada com o Z.. vejam o filme!

Os fãs vão delirar com algumas aparições de personagens icônicos do Universo Marvel, em fan services que se, não acrescentam nada à trama, ao menos fazem o catálogo de referências da plateia especializada pirar. Seria ilógico, no mínimo, que uma base de fãs tão fiel e sedenta de  fan services não fosse atendida. E, vamos convir, não tem problema algum, e somente se torna problema quando o crítico é ou quer ser chato para achar defeitos inexistentes.

São cinco cenas ao longo da enorme sequência de créditos, das quais apenas uma é realmente relevante para a terceira parte da saga dos Guardiões (e que vontade que dá de assisti-la!). As outras são basicamente esquetes de humor, que combinam com piadinhas e gags visuais dos produtores. Porém, os créditos em si são um grande trabalho visual, que faz algumas brincadeiras cativantes para o público.

Guardiões da Galáxia, vol.2 é divertido, inteligente, engraçado e cativante. A galhofa é assumida, e o filme não se pretende mais do que realmente é. É o melhor blockbuster de 2017 até agora, melhor do que Logan. Uma aula de James Gunn de como se fazer um grande filme de super-heróis.

Por D.G. Ducci, Maurício Costa e Aniello Grecco.

 

 

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Guardiões da Galáxia 2

2017Duration unknown
Overview

Agora já conhecidos como os Guardiões da Galáxia, os guerreiros viajam ao longo do cosmos e lutam para manter sua nova família unida. Enquanto isso tentam desvendar os mistérios da verdadeira paternidade de Peter Quill (Chris Pratt).

Metadata
Director James Gunn
Writer James Gunn
Author
Runtime Duration unknown
Release Date 24 abril 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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