Glória Feita de Sangue (Paths of Glory – 1957) – Sim, existem filmes anti-guerra!
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Cenas das críticas anteriores

Nas críticas anteriores vimos que Kubrick iniciou sua carreira de forma irregular, com três curtas e um longa metragem de qualidade questionáveis. Depois investiu no cinema noir, com A morte passou por perto e O grande golpe. O primeiro serviu para Kubrick finalmente ter lucro com sua obra, e o segundo para criar uma reputação de diretor de talento entre a crítica especializada. Mas ainda faltava ao diretor um filme que o colocasse definitivamente com um dos principais nomes do cinema de sua época. E apenas  4 anos após seu primeiro curta longa metragem Kubrick consegue se estabelecer de forma definitiva como um dos grandes nomes do cinema.

 

 

Glória feita de sangue

Há uma máxima, normalmente atribuída a Truffaut, de que não existiriam filmes anti-guerra. A ideia é que, por mais pacifista que seja o discurso, ou por mais detalhista que seja o retrato dos horrores da guerra, quando o cinema coloca o tema  na tela grande, acabaria por glorificá-lo. O cinema não conseguiria deixar de exibir a tensão do conflito, o heroísmo e a camaradagem dos soldados, etc. Se eu tivesse que mostrar um único filme para contestar esta bobagem, este seria Glória feita de sangue.

Inspirado no livro Paths of Glory (mesmo título original do filme) de Humphrey Coob, Glória feita de sangue conta a história de um grupo de soldados franceses da Primeira Guerra Mundial que recebem a ordem de um ataque impossível. Boa parte da tropa sequer conseguiu sair das trincheiras. O General Mireau, responsável pelo ataque, frustrado pelo resultado, cria uma corte marcial para condenar a morte 3 dos soldados, escolhidos de forma arbitrária, por covardia. E o Coronel Dax, líder em campo do ataque, se revolta contra a execução de inocentes e se torna o advogado de defesa.

O retrato cru, insensível e direto da forma  como os líderes militares tratavam seus soldados é tão impactante que o filme teve recepção polêmica na Europa. Por pressão dos militares, Glória feita de sangue foi lançado na França apenas em 1975. Na Espanha de Franco e na Suíça, por motivos similares, o filme só estreou em 1980 e 1970, respectivamente. Isto demonstra o quão longe da glorificação do companheirismo militar este filme se encontra.

Há apenas duas cenas de batalhas. Uma patrulha noturna e um ataque campal ao Formigueiro. No ataque campal temos uma longa sequência em travelling de pessoas correndo pela terra de ninguém, com tiros e explosões de artilharia por todo lado. O que não vemos? Não vemos o inimigo, não vemos atos heroicos. Vemos centenas de figurantes correndo atordoados, caindo como moscas, e um oficial tentando dar sentido a isto. E, importante dizer, mesmo feita em 1957, sem grandes efeitos e sem sanguinolência, é uma cena que não deixa a desejar a nenhuma batalha do cinema moderno. A crueza da fotografia em preto e branco, a movimentação de câmera que torna a terra de ninguém um espaço infindável, e o caos fazem desta pequena batalha um momento verdadeiramente angustiante.

A segunda cena militar é ainda menos gloriosa. Nela temos um tenente alcoólatra coordenando de modo claudicante dois de seus soldados. Após alguns erros, o tenente se apavora e foge, jogando uma granada de forma atrapalhada, e com isto matando um de seus próprios subordinados. Morte por fogo amigo não é exatamente glorificação da guerra. Pior ainda é perceber que este pequeno episódio não é corrigido, mas agravado. O tenente escapa incólume e seu soldado sobrevivente é punido por ter sido testemunha… da pior forma.

Esta pequena cena de patrulha noturna é um retrato em pequena escala da história maior do filme. O Estado-Maior e os generais franceses, bêbados pela política e por seus preconceitos e manias de aristocratas, agem de modo covarde e fútil. E assim matam milhares de soldados. E punem os que sobrevivem por seus próprios erros. Este distanciamento do alto escalão daquilo que acontece nas trincheiras é reforçado visualmente. Temos dois mundos bem nítidos: o palacete dos generais e as trincheiras e alojamentos dos soldados.

Nos palacetes temos salas com enormes pés-direito, mobiliário de luxo, vinho em garrafas barrocas, e até um baile de gala.  Os espaços são amplos, belos, e um tanto inumanos. Já as trincheiras são mostradas em uma famosa cena com travelling para trás. O passeio da câmera pelas trincheiras é um reforço visual do labirinto de túneis estreitos, abarrotados de soldados, macas, destroços e sujeira.

Mas não é apenas no sucesso em ser um filme anti-guerra que Glória feita de sangue desafia alguns lugares comuns e conceitos da crítica de cinema. Muitos críticos, eu incluso, torcem o nariz para filmes que se iniciam com uma narrativa em voz over explicativa. Kubrick usa narradores em quase todos seus filmes, e neste não é diferente. E aqui temos exatamente o que me faria contorcer na cadeira: logo no início, uma narrativa explicando o cenário da Primeira Guerra Mundial. Erro? De forma alguma.

Lembremos que o filme foi feito em 1957, pouco após a Guerra da Coréia. Todos os que estavam no cinema ainda tinham lembranças bem fortes da Segunda Guerra Mundial. Para este público dificilmente seria necessário explicar a Primeira Guerra. O que este pequeno trecho narrado nos faz não é uma explicação, mas um destaque para a imobilidade dos fronts à época. É o reforço dos milhares de mortos para avanços de metros de terreno que faz do texto necessário. É Kubrick nos dizendo: lembre-se! No front da Primeira Guerra, milhares morriam para conquistar menos que um campo de futebol.

Outro dos pontos que normalmente me fazem torcer o nariz, mas que aqui é positivo, são as cenas “desnecessárias”. Como crítico de cinema prezo pela economia narrativa. Para mim cada cena deve acrescentar a trama, contribuir para a história. E em Glória feita de sangue as duas cenas mais geniais poderiam ser retiradas do filme sem atrapalhar em nada a narrativa. São essenciais não para contar a trama, mas para impactar o espectador. E principalmente nos fazer identificar com o soldado comum, anônimo. Ir além dos personagens principais.

Na noite anterior ao ataque ao Formigueiro temos um diálogo entre dois soldados genéricos. Um deles questiona ao outro sobre o medo da morte. Um soldado em campo de batalha, segundo ele, não teria medo da morte, e sim de ser morto. O diálogo é ao mesmo tempo filosófico e visceral, e nos faz vestir a pele daqueles que sabem estar indo para um ataque suicida na manhã seguinte.

Mas o verdadeiramente genial é a cena final do filme. Ela é tão deslocada da trama que alguns envolvidos com o filme acusaram Kubrick de criar o final apenas para incluir Christiane Harlan no elenco. O diretor e a atriz iniciaram um romance durante o filme, e Christiane Harlan se tornou Christiane Suzanne Kubrick. Foi a última esposa de Kubrick, casada com o diretor até a sua morte. Mas apesar da cena não ter relação nenhuma com a trama, e ser a única cena onde Christiane aparece no filme, ela é essencial para o fecho emocional. E é por mim uma das cenas mais marcantes de todo o cinema.

Não irei descrever o final do filme. Apenas dizer que é a pá de cal no ideário nacionalista da guerra, uma dura e emocionante lição de que somos apenas humanos. O uso dos closes em figurantes dá uma dramaticidade única. O fotógrafo Kubrick sempre soube captar muito bem rostos humanos expressivos. Se percebia isto em suas fotos, bem como em Flying Padre . Também será um recurso muito bem usado em Spartacus. Mas é em Glória Feita de sangue que vemos isto sendo levado a perfeição. A sucessão de rostos comuns, refletindo o impacto emocional da cena, nos coloca junto com os soldados, naquela taverna. Em lágrimas.

Glória feita de sangue não é apenas o melhor filme de Primeira Guerra Mundial já feito. Também é meu filme de guerra favorito, e o terceiro favorito entre os filmes do Kubrick. Apesar de não ter a complexidade de elementos de um Laranja Mecânica ou a riqueza visual de um Barry Lyndon, o poder narrativo e o impacto emocional faz com que a nota de 5 estrelas seja pouco, muito pouco para ele.

Cenas da próxima crítica

Após o sucesso da parceria com Kirk Douglas em Glória feita de sangue, Kubrick é convidado pelo ator para substituir Anthony Mann na direção de Spartacus. Douglas, protagonista e produtor do filme, demitiu Mann já na primeira semana de filmagem. Kubrick aceita o convite, pois percebe a enorme oportunidade para sua carreira. É o primeiro e último filme que Kubrick dirige sem ter participado da criação do projeto. É também a maior produção que Kubrick participou em toda a sua carreira. Apesar das tensões entre Kubrick e Douglas pelo controle criativo do filme, o épico é um enorme sucesso de crítica e público. Se o renome do diretor foi consolidado em Glória feita de sangue, agora em Spartacus o diretor demonstrou saber lidar com megaproduções. Além disto é a partir de Spartacus que Kubrick passou a ser obcecado por ter total controle sobre seus filmes. É a partir deste épico, o menos kubrickiano de seus filmes, que o diretor encontra definitivamente seu estilo.

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Glória Feita de Sangue

19571 h 27 min
Overview

Quando soldados franceses nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial recusam-se a continuar um ataque aparentemente impossível de se vencer, seus superiores resolvem levá-los à corte marcial, onde poderão ser julgados à morte.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer
Author
Runtime 1 h 27 min
Release Date 18 setembro 1957

Nota do Razão de Aspecto

 

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