Full Metal Jacket (1987)- A dualidade do homem
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Cenas das críticas anteriores

E estamos chegando no final da carreira de Kubrick. Tudo começou com os três curta-metragens jornalísticos e com o irregular longa de estréia, Fear and desire. Depois kubrick se aventura pelo cinema noir com A morte passou por perto e O Grande Golpe.

Depois o diretor atinge os grandes estúdios com sua parceria com Kirk Douglas, em Glória Feita de Sangue e, em especial, Spartacus. Segue então para a comédia com Lolita e Dr. Strangelove. Com 2001 – Uma odisséia no espaço e Laranja Mecânica o cineasta entra definitivamente para a história do cinema. Em Barry Lyndon Kubrick explora os limites da cinematografia, e em O iluminado mergulha nos horrores da psique humana.

Sete anos depois Kubrick retorna ao cinema de guerra. Se em Glória Feita de Sangue temos um filme anti-guerra por excelência, em Full Metal Jacket temos um retrato quase documental dos horrores do Vietnã, mas sem tomar partidos, sem discursos morais ou políticos. Não é mais um retrato da perversidade dos oficiais e seu jogo político. O que vemos agora é um retrato mais próximo e íntimo de como um soldado se torna um assassino obediente, e o preço que se paga por isto.

 

Full Metal Jacket

De certa forma podemos dizer que todo filme de Stanley Kubrick fala sobre a dualidade jungiana do humano. Mas nenhum aborda isto de modo tão claro quanto Full Metal Jacket. Acompanhamos a guerra sob o olhar de Joker, um mariner que usa em seu capacete a frase Nasico para matar e em seu uniforme um símbolo da paz. E a história que acompanhamos não é apenas a Guerra do Vietnã, mas principalmente como um garoto humorista e jornalista se torna um assassino, e o preço que se paga por isto.

De início mal percebemos que Joker será nosso narrador/protagonista. A figura dominante é o Sargento Hartman. Como o próprio Kubrick definiu, Lee Ermey pode não ser o melhor ator do mundo, mas o melhor ator do mundo não interpretaria Hartman como Lee Ermey. O que vemos na tela é uma verdadeira “enciclopédia de insultos”. Cada personagem, a cada momento, é sufocado por uma torrente intimidadora de impropérios e bravatas vinda de Ermey.

Esta verborragia é a parte principal e mais impactante de um treinamento desumanizante a qual o pelotão de Joker tem de passar. Já na primeira cena temos o início da desumanização, com a tosa do cabelo dos recrutas. Temos também a perda dos nomes próprios, com o rebatismo para apelidos pejorativos, como Joker, Cowboy, Snowball, e principalmente, Gomer Pyle. O primeiro ato do filme gira ao redor de Gomer Pyle e Hartman. A inaptidão física e disciplinar de Pyle o leva a um confronto com o sargento e com todo o pelotão, a tal ponto que provoca um colapso mental completo. E logo após a formatura de todos como Mariners, Pyle assassina Hartman e suicida.

No segundo ato somos finalmente transportados ao Vietnã, e agora acompanhamos Joker em seu envolvimento cínico com a guerra. Correspondente de guerra para o jornal de propaganda do exército Stars and Stripes, Joker tem  lidar com prostitutas, ladrões e com a política de factoides de guerra da imprensa oficial. Mas não com combates. Isto dura até a Ofensiva do Tet, quando, devido a uma piada inoportuna, Joker e seu companheiro, Rafterman, são enviados a frente de combate. Com isto acabam se envolvendo na Batalha de Hue e, no terceiro ato, a um conflito contra uma sniper.

Este último confronto serve quase como uma miniatura do que significou a Guerra do Vietnã. O exercito americano, com vantagem numérica e tecnológica, enfrentando um em tese frágil, mas letal exército disposto a morrer mesmo que seja para simplesmente atrasar o inimigo e gerar o maior número de baixas possíveis. Assim, mesmo vencendo quase todas as batalhas, o impacto psicológico causado na opinião pública faz com que os americanos acabem por desistir da guerra. No conflito de Joker e seus compatriotas contra a sniper, aparentemente os americanos saem vitoriosos, mas as baixas causadas no pelotão cobram um alto preço. E Joker se torna finalmente um assassino.

O filme termina com Joker executando sua primeira vítima na Guerra. O protagonista afirma estar em um mundo de merda, mas tendo perdido o medo. Mas não é só o medo que ele perde, como também o humor e a inocência. O soldado que nunca tinha visto combate, que sempre tinha um trocadilho engatilhado e carrega o broche da paz em seu uniforme, junto com os dizeres Nascido para matar em seu capacete se tornara um assassino. Mas seu assassinato fora motivado pelo ódio e vingança, ou por misericórdia?

A dualidade é reforçada pela excelente cena final, onde todo o pelotão de Mariners marcha, em um cenário soturno, cantando o tema do Clube do Mickey. Com isto lembramos que Joker, Cowboy, Animal Mother e até Gomer Pyle são pouco mais que crianças, arrastados meio mundo, submetidos a uma verdadeira lavagem cerebral, para se sacrificarem em nome de uma causa que não os convence. Mas não há em Full Metal Jacket quase nenhum discurso político ou mensagem expressa. A Guerra é mostrada sem filtros, crua. É uma atividade ao mesmo tempo repugnante e heroica.  Mas sem heróis e sem vilões.

Devido a famosa aversão de Kubrick por viajar, a reconstrução do cenário de Hue foi feita a poucas milhas do centro de Londres. Um composto de prédios abandonados de uma empresa de gás londrina serviu de cenário perfeito para a cidade devastada. Kubrick pode demolir paredes e prédios, instalar explosivos, usar de bolas de demolição, etc. O elenco e a equipe de produção teve que lidar com várias dificuldades, pois o ambiente era contaminado quimicamente. Imagine o que foi refilmar dezenas de vezes as cenas de combate, esperando horas ou dias para recolocarem todos os explosivos de efeitos especiais (uma espoleta para cada tiro na parede, entre outros detalhes), em um ambiente envenenado. Mas o resultado visual é impressionante. Temos um verdadeiro cenário de guerra e devastação. E talvez o estresse acumulado sobre os atores tenham dado mais realismo as interpretações.

O grande ator do filme é sem dúvida Lee Ermey. Escalado inicialmente apenas como consultor, devido a ter sido um sargento de treinamento da Guerra do Vietnã na vida real, Ermey convenceu Kubrick de que seria o homem ideal para interpretar Hartman após submeter os candidatos ao elenco a uma chuva de impropérios durante os testes. Mesmo durante as filmagens, Kubrick fazia com que Ermey ensaiasse separado do elenco, para que os demais atores tivesse uma reação espontânea aos constantes gritos. E de fato o que vemos é tão pavoroso que beira o cômico.

Além de Erney temos que elogiar também Vicent D’Onofrio. Acompanhar a decadência de Gomer Pyle é angustiante. Seria fácil fazer da personagem um alivio cômico, mas em nenhum momento rimos das trapalhadas. E nos assustamos a medida em que chegamos ao confronto final entre Hartman e Pyle. O olhar de D’Onofrio na cena final foi comparado por muitos com o olhar de Nicholson em O Iluminado. Depois de Full Metal Jacket a expressão olhar kubricikano ganhou popularidade. O diretor disse que a inegável semelhança entre os olhares foi coincidência, mas tenho sinceras dúvidas se D’Onofio não se inspirou em Nicholson. Seja citação ou mera semelhança, os olhos de Pyle é um dos momentos mais emblemáticos do filme.

A música tem presença marcante, em especial o rock’n’roll. Literalmente da primeira a última cena temos diversas canções emblemáticas da época. Apesar de nem de longe ser novidade o uso do rock para a Guerra do Vietnã, em Full Metal Jacket  isto serve não apenas como ambientação. Por exemplo, a abertura do segundo ato com These boots are made for walking ilustra não apenas a prostituição em meio a guerra, como principalmente como a postura macho militar se colocou em meio ao cotidiano urbano do Vietnã. Surfin’ Bird entra como ilustração perfeita da euforia pós combate. Poderia continuar indefinidamente com mais exemplos.

Menos aparente, mas também genial, é a trilha sonora original. Composta por Abigail Mead, nome artístico de Vivian Kubrick (filha do diretor), a trilha se inspira nos ruídos metálicos, graves e lentos de equipamentos militares, para nos trazer a sensação de desconforto e estranheza. E na cena onde Joker mata a sniper o uso da trilha atinge a perfeição, prolongando a suspense e o conflito interno do personagem.

Todo este conjunto pode ser resumido em uma imagem, presente no poster do filme. Se tivéssemos que resumir visualmente Full Metal Jacket, e, por que não, a Guerra do Vietnã, em uma única imagem, seria a contraposição entre o símbolo do paz e os dizeres Nascido para matar. É do conflito entre a busca da paz e o instinto assassino que temos o colapso de Gomer Pyle, a violência de Animal Mother, a angústia de Joker e o fracasso do exército americano. Em Glória Feita de Sangue aprendemos a odiar a guerra. Em Full Metal Jacket aprendemos a nos identificar com quem vai a ela. Para o bem e para o mal.

Cenas da próxima crítica

E chegamos ao último filme de Stanley Kubrick. Saímos do Vietnã para as ruas de Nova York. Deixamos a guerra e entramos em um terreno tão violento quanto: o amor. De olhos bem fechados é tão polêmico como sexo. Estrelando duas das maiores estrelas de Hollywood à época, Tom Cruise e Nicole Kidman, este é o filme com maior período de filmagem contínua da história do cinema. 400 dias seguidos de filmagem. E seis dias após a edição final do filme, Stanley Kubrick sofre um ataque cardíaco fatal, durante seu sono, aos 70 anos. Talvez o estresse da longa filmagem tenha contribuído para sua morte, mas com certeza olendário diretor morreu fazendo o que mais sabia e gostava. Uma vida dedicada ao cinema.

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Full Metal Jacket - Nascido Para Matar

No Vietname, o vento não sopra. Mata.

19871 h 57 min

Nota do Razão de Aspecto

 

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