A forma da água (The shape of water) – Crítica

Lao Tzu, filósofo chinês da antiguidade e fundador do taoísmo, percebia ser a água fluida e macia, mas capaz de desgastar a rocha rígida. Seria esse o exemplo de um paradoxo: o que é suave é forte. Séculos depois o famoso artista e filósofo das artes marcais Bruce Lee, ao desenvolver seu próprio estilo de luta, o Jeet Kune Do, revisitou esse pensamento, ao aconselhar seus discípulos a serem como a água: se você colocá-la em um recipiente, ela toma a forma desse recipiente; além disso, a água pode fluir ou pode destruir.

Esse é o caso de A forma da água, novo filme do diretor Guillermo del Toro: sua força está exatamente em sua suavidade. Colocada nas mãos de um diretor menos habilidoso, a história poderia ser apenas um amontoado de clichês já vistos em obras como A Bela e a Fera, O Corcunda de Notre-Dame ou O Fantasma da Ópera (ou em O Monstro do Pântano, para os fãs de quadrinhos). Nas mãos do diretor mexicano, entretanto, os clichês e a previsibilidade acabam funcionando como ferramentas para uma obra doce, poética, e sobretudo bela em vários sentidos.

O roteiro, escrito por Del Toro em parceria com Vanessa Taylor (que também coescreveu Divergente e episódios para a TV de diversas séries), apresenta Elisa Esposito (Sally Hawkings), servente muda de uma base do governo norte-americano na década de 1960. Ela e sua colega e amiga Zelda (Octavia Spencer) presenciam a chegada de uma estranha criatura anfíbia (Doug Jones) capturada na América do Sul pelo novo chefe da segurança do local, Strickland (Michael Shannon). Logo Elisa e a criatura estabelecem uma conexão afetiva.  Enquanto o Dr.Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) quer manter a criatura viva e estudá-la, Strickland defende que ela seja dissecada. Há ainda Giles (Richard Jenkins), vizinho e melhor amigo de Elisa, que vive seus próprios desafios de encaixe no mundo.

Como é tradição nos filmes de Del Toro (algo que pode ser dito também sobre Tim Burton), o visual é encantador e foge propositalmente do realismo, lembrando uma mistura de ficção científica da década de 1960 (na base do governo) com ambientes altamente familiares, acolhedores e cheios de humanidade (nos apartamentos de Elisa e Giles). O combinado desenho de produção (Paul D. Austerberry), direção de arte (Nigel Churcher) e decoração dos cenários Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau) ajuda, desde a primeira cena, a transportar o espectador para um ambiente que, claramente, não é o da vida real, e sim o da fantasia. O mesmo efeito é criado pela trilha sonora de Alexandre Desplat (indicado nove vezes ao Oscar, e vencedor pela trilha de Grande Hotel Budapeste em 2015): a música do filme mergulha o espectador em um clima quase onírico desde o início do filme.

Não por acaso, a primeira cena, com uma narração em off (que, se em muitos filmes, é uma ferramenta de roteiro supérflua e preguiçosa, aqui encaixa com o tom de conto de fadas), já evolve o espectador em dois elementos que estarão presentes ao longo de todo o filme: a água e a cor verde. As rimas visuais envolvendo a água, que passam do cozimento de ovos ao tanque onde a criatura está presa, da chuva que é ao mesmo tempo redenção e ameaça à felicidade da protagonista, são um show particular de Del Toro. A cor, tradicionalmente associada à ciência no cinema, aqui evoca também a origem tropical da criatura e até a simplicidade da guloseima preferida por um dos personagens. O resultado final é um filme que, do ponto de vista visual, reflete um esforço meticuloso.

Por trás de todo esse apelo aos olhos, está uma defesa à tolerância, que não passa apenas pela questão mais óbvia, a da aproximação proibida entre uma humana e uma criatura anfíbia. Del Toro escolhe uma protagonista muda (o que dá chance de Sally Hawkings brilhar ainda mais no papel), com uma amiga negra e um amigo gay em plena década de 1960 nos Estados Unidos. As rimas das intolerâncias diversas vividas por esses personagens são tão ou mais interessantes do que as rimas visuais da obra. Nesse contexto, a figura do personagem de Michael Shannon, propositalmente caricatural, é a do homem branco e viril, que tem como arma um fálico cassetete elétrico, e que está mais interessado em um carro novo do que na própria família. Em qualquer outro filme, a obviedade dessa figura soaria como peça de um discurso panfletário de inclusão social. Em A forma da água, entretanto, Del Toro consegue inserir organicamente – ainda que de forma bastante superficial – a temática.

Por fim, há ainda uma declarada homenagem ao cinema clássico de Hollywood, que vai desde a semelhança do design da criatura com o do Mostro da Lagoa Negra, até, e em especial, as referências aos musicais das décadas de 1930 e 1940 – sim, Del Toro consegue, em meio a tudo o que acontece, prestar referência a musicais antigos, sobrando até para pequena notável luso-brasileira Carmen Miranda. Elisa e Giles, cujos apartamentos se localizam acima de um grande cinema em Baltimore, escapam de sua solidão assistindo à películas clássicas, que, é claro, serão usadas por Del Toro para criar sequências em que os fatos do filme dialogarão com cenas do passado hollywoodiano. Os espectadores mais velhos reconhecerão a canção principal do filme, “You´ll never know, originalmente cantada por Alice Faye no filme Aquilo sim era vida, de 1943, e popularizada no Brasil na voz de Antonio Marcos como “Eu vou ter sempre você”.

Como ressalvas, pode-se apontar a previsibilidade do roteiro – o que não se torna tão grave em razão de sua abordagem de fantasia – e uma certa inconsistência de ritmo entre a rapidez com que as coisas acontecem na primeira metade do filme e uma certa diminuição, talvez exagerada, no passo, antes do ato final. Tudo funciona muito bem e rápido na aproximação do casal protagonista – e, aqui, o roteiro ganharia mais se construísse com mais vagar esse encantamento mútuo.

A forma da água já levou dois Globos de Outro (Diretor e Trilha Sonora) e foi indicado a 13 prêmios Oscar, incluindo categorias de Melhor Filme, Diretor, Atriz e Roteiro Original. Embora de alta qualidade, o filme não merece receber tantos prêmios. Para começar, Octavia Spencer está indicada a Melhor Atriz Coadjuvante, em um papel no qual apenas repete os trejeitos de outros papeis. Funciona pelo carisma, mas não apresenta nada de especial. Além disso, a indicação a Melhor Roteiro Original tem sido questionada pela família de Paul Zindel, ganhador do Pulitzer, que aponta uma semelhança… exagerada… com a peça de 1969 “Let me hear you whisper”, em que uma servente se apaixona por um golfinho preso em cativeiro.

Mestre em misturar doçura com estranhamento, como já visto em obras anteriores (em especial em O labirinto do fauno), Del Toro consegue a proeza de fazer um filme ao mesmo tempo erótico, violento e pueril. Um conto de fadas, sim, mas para adultos, capaz de, como a água, preencher os espaços vazios de quem o assiste e de vencer até resistências mais fortes.

 

por D.G.Ducci

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A Forma da Água

20172 h 03 min
Overview

Em 1963, durante o auge da Guerra Fria, Elisa (Sally Hawkins), uma solitária empregada de limpeza muda que trabalha num laboratório governamental, vê a sua vida mudar para sempre quando, com a sua colega Zelda (Otavia Spencer), descobre o resultado de uma experiência ultrasecreta: um estranho ser aquático que vive num tanque.

Metadata
Writer
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Runtime 2 h 03 min
Release Date 8 dezembro 2017

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