Fome de Poder poderá causar sentimentos dúbios. O longa narra a origem da popularização de uma das marcas mais icônicas do mundo, o McDonald’s. Não espere aqui uma narrativa que trate da quantidade de gordura trans, Fome de Poder não é um documentário do Michael Moore. Se por um lado vemos o lado edificante do espírito empreendedor e uma história no mínimo curiosa; por outro, falta cinema em vários momentos.

Notadamente temos um exemplar típico do caso: o fato real é mais atrativo que a expressão cinematográfica (tal qual os exemplos de Lion, Pequeno Segredo e Dono do Jogo). Como arte, o filme não é ofensivo, mas passa pouco além do banal, dando passos confortáveis abusando de recursos simplórios . O que causa uma dicotomia com os personagens. Estes arriscam o tempo todo, de modo destacado o protagonista Ray Kroc (Michael Keaton).

Ora, como um filme sobre McDonald’s tem como protagonista Ray Kroc (o famoso “quem?”) e não os irmãos McDonald? Aí é que está a magia da coisa, e que retoma aquela dubiedade que eu mencionei. Os irmãos foram os que fundaram a lanchonete implementaram um ótimo modelo de restaurante. Porém foi Kroc o responsável por popularizar e transformar em franquia. Alguns podem o considerar um monstro aproveitador. Outros vão achar natural e admirar o ímpeto empresarial. O julgamento fica pela conta de cada um…

Nesse ponto o filme é muito feliz. Não pinta Ray como um vilão e tampouco amacia qualquer decisão. A realidade pode ter sido diferente? Sim, mas o que é apresentado satisfaz. Infelizmente foi um dos poucos acertos. Contudo, como é a história desse personagem, então é um grande acerto. Outro ponto positivo é em como o filme usa o conhecimento do público para plantar certas frases. Em um dado momento um dos fundadores diz: “não vamos nos envolver com esses comercialismos”, algo que soa irônico nos dias de hoje – e ver um trio custando 35 centavos é algo que doí mais o coração do que almoçar no McDonald’s todo dia…

Michael Keaton está quase canastrão. A tua boa vontade com Fome de Poder vai passar pela aceitação ou não dessa verve. A primeira cena, que reverbera posteriormente, já o mostra falando para a câmera. E em vários momentos há caras e bocas, raspando no limite do forçado. Quem transpõe essa linha, contudo, é a dupla que encarna os irmãos McDonald’s, Nick Offerman e John Carroll Lynch. Além de possuírem um arco raso, as atuações marcam certos caracteres, como o pensamento exageradamente matemático, a fidelidade até ingênua aos princípios e até o jeito ao telefone. Todos movimentos poucos naturais.

O roteiro falha ao ser preguiçoso. O didatismo que arranjou para mostrar o passado dos irmãos deixa muito a desejar. Faltou criatividade para a direção colocar tal arco em tela. Há também pinceladas cretinas para inserir certos personagens na história – um deles tem o nome repetido por Keaton, com o intuito que o público não esqueça, já que ele será retomado depois. Outro problema é a previsibilidade. Tudo que acontece é facilmente antecipado. E o arco é bem linear.

Fome de Poder tem méritos e pode até entreter, seria o chamado “filme descompromissado”. Vale pela curiosidade, mas peca pelo lado cinematográfico. Há momentos bem engraçados que são aproveitados de forma competente, mais do que um lanche feliz? Aí já não sei…

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Fome de Poder

20161 h 55 min
Overview

A adaptação ao cinema da biografia de Ray Kroc, o fundador da cadeia de alimentação de fast-food mais popular do planeta, a McDonald's. Retrata a figura do caixeiro-viajante do interior dos Estados Unidos que, em 1954, comprou um franchise do restaurante de hambúrgueres dos pouco ambiciosos irmãos Mac e Dick McDonald. O sucesso e as inovações introduzidas por Kroc permitiram-lhe adquirir a empresa aos irmãos McDonald, em 1961, por 2,7 milhões de dólares.

Metadata
Director John Lee Hancock
Writer Robert D. Siegel
Author
Runtime 1 h 55 min
Release Date 24 novembro 2016

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