Exteriores: Mulheres Brasileiras na Diplomacia (2018) – Crítica

O Ministério das Relações Exteriores – ou Itamaraty, como é popularmente conhecido, em função do nome do palácio que o sedia – é das instituições mais tradicionais na estrutura do governo brasileiro. Famoso por seu concurso de altíssima dificuldade e por seu quadro de pessoal altamente capacitado, o Itamaraty ainda é, para muitos, envolvido por uma aura glamorosa e intocável. Entretanto, como em todo agrupamento humano, há também ali problemas – e alguns gravíssimos. A boa notícia é que, paulatinamente, transparecem exemplos vindos ou da imprensa, ou da instituição ou dos próprios diplomatas no intuito de refletir sobre essas chagas – algumas históricas, outras bem presentes.

É assim que podemos ler sobre os bastidores do Itamaraty na época do regime militar, pelas páginas de “O Punho e a Renda”, do Embaixador Edgard Telles Ribeiro, livro de ficção repleto de realidade. Pudemos acompanhar, igualmente, denúncias de abuso moral ou sexual chegando às páginas dos veículos de comunicação, ou a demissão recente de um diplomata que agredia suas companheiras.

Mais um exemplo dessa bem-vinda reflexão sobre a Chancelaria brasileira é o documentário Exteriores: Mulheres na Diplomacia Brasileira, dirigido por Ivana Diniz, que também assina o roteiro junto com a diplomata Ana Beatriz Nogueira. O projeto é de iniciativa do Grupo de Mulheres Diplomatas, coletivo criado em 2013 e que hoje reúne mais de um terço das diplomatas brasileiras.  Diniz tem experiência na TV Cultura, TV Escola, Rede Globo e Jornal do Commercio de Pernambuco.

Inspirado pelo documentário Une Porte Entreouverte, produzido pela Chancelaria francesa sobre a presença das mulheres em sua diplomacia (e atualmente disponível no canal do Quai D’Orsay no youtube), Exteriores marca o centenário da aprovação de Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira diplomata brasileira.

As realizadoras optaram por uma organização tradicional e didática a respeito do tema, em seus curtos 53 minutos de duração – e entendam “curtos”, aqui, como um elogio. Na primeira parte, é apresentado um histórico da participação das mulheres na diplomacia brasileira, a pioneira Maria José, que precisou de parecer de Ruy Barbosa para ter aceito sua inscrição no concurso, passando pelos anos de proibição da entrada de mulheres na carreira de 1938 a 1954, pela aprovação, em 1978, de Mônica de Menezes Campos, a primeira diplomata negra, até chegar aos dias atuais. A partir daí, Exteriores se concentra em várias facetas dos desafios enfrentados pelas brasileiras que optam pela carreira diplomática.

Nesse momento, ganham força os depoimentos de mulheres diplomatas de diversas idades e níveis hierárquicos na estrutura do Itamaraty. Desde Embaixadoras, mulheres que já chegaram ao cargo mais alto da carreira, até jovens diplomatas que enfrentam o desafio de dar continuidade à luta por mais espaços na cadeia de comando do Ministério e na comunhão das atividades e relações profissionais e pessoais a que estão expostas.

Mais do que mera argumentação, o documentário embasa os depoimentos com fatos e números que, para quem não acompanha de perto a carreira diplomática, podem parecer surpreendentes. É relativamente fácil creditar à distância histórica e ao pensamento dominante da época a resistência do Barão do Rio Branco e de outros Chanceleres em permitir a entrada de mulheres (aliás, a troca de “olhares” entre uma diplomata da nova geração e uma estátua do Barão é um dos pontos mais divertidos do filme). Difícil é imaginar que, ainda há cerca de 20 anos, a absoluta maioria das mulheres casadas com colegas diplomatas passavam a receber 40% a menos dos salários ao partir para uma missão no exterior.

O Brasil tem hoje aproximadamente 1.500 diplomatas espalhados entre a sede do Ministério e os diversos Postos no exterior. Desse total, 23% são compostos por mulheres. Há, portanto, um primeiro desnível na entrada. Essa relação percentual tende a diminuir vertiginosamente, quanto mais alto o grau hierárquico observado – por exemplo, apenas um entre os 11 Subsecretários (os chefes maiores das áreas temáticas e geográficas) é mulher; não houve Secretário-Geral ou Ministro das Relações Exteriores do sexo feminino na história da instituição, e nenhuma das Embaixadas do Brasil em países estrategicamente mais importantes é chefiada por uma diplomata.

Mas Exteriores não se trata de um mero libelo em busca de mais poder decisório institucional – embora mostre claramente essa lacuna . O roteiro faz questão de tocar também nos desafios extras vivenciados por diplomatas negras e lésbicas, pelas diplomatas-mães e por aquelas que já sofreram assédio, moral ou sexual, na carreira – ainda que o tema seja tratado muito de passagem, talvez para não sequestrar a atenção do eixo principal do filme.

Do ponto de vista técnico, o documentário não propõe maiores inovações na linguagem. A experiência de televisão da diretora transparece, no que isso tem de positivo e de negativo. Se prevalece uma estrutura tradicional de montagem, de um lado, as imagens dos interiores do Palácio do Itamaraty e do Instituto Rio Branco são um presente aos espectadores que têm pouco acesso a esses ambientes de arquitetura moderna, repletos de obras belíssimas. Há, ainda, a bela trilha sonora original, em piano, composta por Cissa Forechi (não por acaso, também diplomata).  Como nota negativa, o som do documentário é um pouco irregular entre as entrevistas, o que, se não impede de forma alguma a compreensão, destoa da qualidade dos outros elementos.

Exteriores teve duas sessões de lançamento em Brasília e mais uma em São Paulo. A partir de 2019, a proposta das realizadoras é a de liberar o documentário para os interessados em fazer sessões, bem como torna-lo disponível na internet.

Aqueles (e aquelas!) que não trabalham no Itamaraty provavelmente não sabem deste detalhe: a cada despacho telegráfico (uma correspondência eletrônica criptografada) entre o Ministério e os diversos postos – Consulados, Delegações, etc – ao redor do mundo, assina-se “Exteriores”. Cada diplomata, ao expedir uma dessas comunicações, coloca-se no lugar do próprio Ministro de Estado, ou, em última análise, do próprio Itamaraty.  Ao escolher esse título para seu documentário, as mulheres diplomatas deixam uma forte assinatura sobre sua situação e sobre seus anseios.

 

por D.G.Ducci

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Exteriores - Mulheres Brasileiras na Diplomacia

20180 h 53 min
Overview

Mesmo depois de cem anos do ingresso da primeira mulher na carreira diplomática, as mulheres representam apenas 23% do corpo diplomático do Brasil. "Exteriores" resgata histórias como a de Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira diplomata brasileira, e de Mônica de Menezes Campos, a primeira diplomata negra, aprovada em 1978, além de trazer o depoimento de diplomatas brasileiras a respeito dos desafios para inserção na carreira diplomática.

Metadata
Director Ivana Diniz
Writer Ana Beatriz Nogueira
Author
Runtime 0 h 53 min
Country  Brazil
Release Date 6 dezembro 2018
Actors
Starring: Vitória Cleaver, Thereza Quintella, Edileuza Fontenelle, Maria Nazareth Farani, Ana Maria Sampaio, Eugenia Barthelmess, Irene Vida Gala, Sônia Gomes e Gisela Padovan, Marise Nogueira, Viviane Balbino, Amena Yassine, Laura Delamonica e Márcia de Menezes Campos.

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