Missão Impossível: Efeito Fallout (2018) – Crítica

Um franquia chegar ao sexto filme conseguindo manter – e, em certos pontos melhorar – a qualidade dos episódios parece mesmo uma missão impossível. Em geral, quanto mais uma série avança o número de suas continuações, mais tende a se repetir, esgotar a fórmula e acabar ganhando ares de quase-paródia de si mesma (vide as franquias de terror como Sexta-Feira 13, A hora do pesadelo ou Jogos Mortais). Séries como as de Harry Potter ou James Bond ultrapassaram a fronteira do sexto filme, mas ambas contavam, à época, com a base da literatura na qual foram inspiradas.

As duas exceções recentes são as séries Velozes e Furiosos e Missão Impossível, sendo que os filmes desta última superam em qualidade (ainda que não necessariamente em diversão, per si), os daquela. Nos dois casos, após inícios bons, mas irregulares, as franquias parecem ter encontrado um caminho e um tom (trocadilho duplo caploft!) mais certeiros e adequados.

Não que Missão Impossível: Efeito Fallout represente um primor de ineditismo. Ela também repete clichês e situações vistas em diversos filmes de ação – e, em alguns casos, dentro da própria série (aliás, não deixe de ler o especial do Razão de Aspecto sobre Missão Impossível). Você já viu tramas envolvendo artefatos nucleares que vão parar em mãos erradas, saltos de paraquedas e perseguições intermináveis envolvendo todo tipo de veículo. Nada de novo aqui. Você também já se acostumou com reviravoltas na trama, traições e identidades falsas (no caso de MI, com uso das máscaras espetaculares). Você também já viu Ethan Hunt ser considerado um agente culpado ou insubordinado, e ter de demonstrar seu valor e inocência. Você já o viu colocar a vida de pessoas que ama acima dos objetivos imediatos da missão, e conseguir sucesso em ambas as frentes. Fallout tem tudo isso.

Aliás, o filme parece feito justamente para homenagear os episódios anteriores da franquia, com referências a todos eles. Há menções a adversários de filmes anteriores, retomada de arcos afetivos pessoais de Hunt e cenas de ação que se encaixam quase como releituras de outras feitas anteriormente na série. O Razão fez, inclusive, uma lista de exemplos dessas referências.

O segredo da qualidade de Missão Impossível: Efeito Fallout não está na criatividade da trama – longe disso – mas na forma como ela é contada. Mesmo contando com Brian De Palma, John Woo e J.J. Abrams no currículo da série, pode-se afirmar sem muito erro que este episódio, comandado por Christopher McQuarrie (mesmo diretor de Nação Secreta), é o mais bem dirigido de toda a série. Ele consegue, em muitos momentos, inserir o espectador direto na ação, com um uso de câmera superdinâmico sem prejudicar o espaço cênico ou a compreensão do que está acontecendo (abraços para Michael “Epilepsia” Bay e Paul “Parkinson” Greengrass).

Assim, sem precisar usar a câmera subjetiva, o filme acompanha em tempo real um salto de paraquedas no qual é possível se sentir ao lado de Cruise, sobre Paris; durante uma perseguição pelas ruas da mesma cidade, é possível sentir o perigo de pilotar uma moto na contramão e desviar-se no último minuto dos carros; é possível, ainda, sentir o desespero de estar preso em um veículo, sem conseguir sair, em quanto outro veículo se aproxima para um choque inevitável. Colabora também para a intensidade das cenas de ação o vigor físico de Tom Cruise, que, aos 56 anos, faz questão de realizar praticamente todas as cenas de perigo.

Ainda no que se refere às cenas de ação (e o filme é basicamente uma costura de várias delas), a fotografia explora muito bem tanto as paisagens urbanas de metrópoles como Londres e Paris quanto a beleza natural e intensa da Noruega e da Nova Zelândia, (travestidas aqui como a região da Caxemira. Por fim, a trilha sonora do escocês Lorne Balfe faz releituras interessantes do tema original da série, composto por Lalo Schifrin, Mais do que isso, o uso da trilha sonora é até mais bem feito do que ela própria:  ela toma o lugar de sons ambientes e diálogos de algumas cenas, dando a elas um clima mais célebre, e silencia totalmente em outros momentos, deixando a agressividade da ação falar mais alto do que um eventual comentário musical poderia reforçar de forma redundante.

A permanência de boa parte do elenco dos filmes anteriores dá uma sensação mais fluida de continuidade e faz com que atores se estabeleçam como parte efetiva da franquia, além de Cruise, e com que personagens tenham mais chance de cativar o público – o que é importante em uma história na qual suas vidas estão sempre em perigo. Destaque para Rebecca Ferguson, que interpreta sua Ilsa Faust pela segunda vez e estabelece uma química excelente com os outros personagens. Faltou aqui Jeremy Renner, o agente Brandt dos dois últimos filmes, envolvido com os filmes do Universo Cinematográfico da Marvel – e sobre quem nenhuma linha é dita durante o filme, o que gera um pequeno vazio. As novidades do elenco são Henry Cavill (o Superman da DC nos cinemas), Vanessa Kirby (ótima no filme), Angela Basset e Wes Bentley.

Cavill interpreta Walker, um agente da CIA designado a acompanhar e monitorar as missões da Impossible Mission Force, que tendem a não sair de acordo com os parâmetros supostamente aceitáveis para uma agência secreta. Basset interpreta Erica Sloan, chefe de Walker na CIA. Vanessa Kirby é a Viúva Branca, uma intermediária por meio da qual Hunt e sua equipe tentam recuperar três esferas roubadas de plutônio. Wes Bentley interpreta um médico em um acampamento de vacinação, personagem que tem uma forte ligação com alguém do passado de Hunt.

Embora extremamente bem dirigido, o filme tem algumas imperfeiçoes, como a duração do segmento em Paris, que se estica em um momento em que a ação principal já se encerrou. Além disso, a trama, como dissemos, é razoavelmente previsível, em especial para quem já viu outros filmes da série. Embora grandioso e bem executado, o filme deixa novamente em segundo plano a sutileza de uma equipe secreta para focar-se na ação tomcruiseana. Por fim, embora tenha uma presença física considerável, Henry Cavill não é exatamente um grande ator, e empalidece durante boa parte do filme. Aliás, ser um ator limitado (Timothy Dalton à parte) mas bom em cenas de ação praticamente o credencia a ser o próximo James Bond.

Missão Impossível: Efeito Fallout consegue encerrar alguns arcos, funcionar como fechamento de um ciclo e homenagear o passado da série. Ao mesmo tempo, demonstra que há ainda bastante fôlego e possibilidades para o futuro, limitado apenas pelo eventual (mas aparentemente distante) declínio físico de Tom Cruise com a idade. Mesmo com uma trama batida, Fallout é um dos melhores filmes de ação dos últimos tempos, e deixa a vontade de vermos mais missões, caso Ethan Hunt decida aceitá-las…

por D.G.Ducci

Leia também: as referências de Missão Impossível: Efeito Fallout aos filmes anteriores!

Nota do Razão de Aspecto

 

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