Dunkirk (2017) – Uma segunda guerra diferente – Crítica
Posters para "Dunkirk"

Hollywood ama a Segunda Guerra Mundial. E nós também. A dimensão do conflito, o drama humano, os extremos de heroísmo e vilania, e a terrível sensação de que se algo houvesse sido ligeiramente diferente o mundo poderia ser muito pior é apaixonante. E as lições sobre quão cruéis mesmo os humanos mais civilizados podem chegar a ser nos assombram. Mas Dunkirk não fala da Segunda Guerra que estamos acostumados.

Escolher a batalha de Dunquerque ao invés de momentos clichês como o Dia D, Stanlingrado ou Pearl  Harbor permite a Christopher Nolan dar outro enfoque a uma história tão filmada. Para quem não conhece este momento da Guerra, o cerco a Dunquerque acontece no auge do poderio da Alemanha  nazista. Pouco após a entrada alemã pela região das Ardenas e a queda da Bélgica, cerca de 400.000 soldados aliados, principalmente britânicos e franceses, ficaram cercados e indefesos em uma estreita faixa de terra costeira na cidade de Dunquerque. A batalha da França estaria perdida em semanas, e a questão não era mais defender Paris, mas sim tentar fazer com que o maior número possível de soldados conseguissem atravessar o Canal da Mancha e assim evitar o desmantelamento do exército britânico. Historicamente não há como negar: a Batalha de Dunquerque foi uma terrível derrota para França e Inglaterra. E só não foi pior devido a um grave erro estratégico alemão, até hoje não muito compreendido. As temidas divisões de blindados alemães receberam ordem de,  a 20 km do porto, parar e aguardar a chegada da infantaria. Esta espera permitiu a Inglaterra organizar uma desesperada retirada, por meio de pequenas embarcações civis, de 340.000 dos 400.000 soldados cercados.

Então não é exatamente a guerra que estamos acostumados a ver. Os aliados estão impotentes e incapazes, os alemães não são nem gênios militares nem tiranos cruéis. Não há enormes massacres, não há grandes heróis. O que há é apenas desespero, espanto e impotência. E no final, um enorme alívio por apenas ter conseguido sobreviver.

Por escolher este enfoque, Dunkirk não se parece muito com  um filme de guerra. Praticamente não vemos o inimigo. As forças alemãs são quase uma força da natureza, impessoal, onipresente e invisível. Tudo o que percebemos são tiros vindos de sabe-se lá onde, explosões de artilharia e torpedo, e a assustadora chegada dos bombardeiros de mergulho alemães sobre soldados indefesos. Nenhuma palavra em alemão, nenhum rosto nazista. Sem grandes vilões a odiar, a situação de desespero e futilidade diante das mortes aumenta. Quando não há alguém contra quem lutar, ou mesmo xingar, nos sentimos ainda mais indefesos.

Esta ausência de vilões também se reflete em uma ausência de um protagonista propriamente dito. Sim, há diversos personagens, em especial uma tripulação civil de um barco pesqueiro, que acompanhamos e torcemos a favor. Mas não há grandes líderes, grandes discursos. Há alguns momentos de ousadia e sacrifício, mas divididos entre personagens e narrativas diversas. Visto não haver uma narrativa linear, mas sim fragmentos de três histórias em paralelo (marinha, exército e aeronáutica), intercalados de maneira seca e talvez confusa para alguns, esta constante quebra narrativa gera dois efeitos. Primeiro não conseguimos nos apegar e torcer para muitos dos personagens, não nos importando com os destinos de cada um. Por outro lado, há uma maior sensação de vulnerabilidade e desespero. As vezes temos a vontade de gritar para os personagens desistirem e se renderem, pois não há o que ser feito.

O desamparo, o desespero e a claustrofobia, seja de dentro dos barcos ou prensados contra o mar, impera em 100% do filme. A experiência é um bloco único, e nos sentimos a beira do sufocamento o tempo todo. É algo forte, mas também cansativo. Isto faz com que os 106 minutos de filme (quase um curta para o padrão do Nolan) pareçam mais longos que são. Obviamente faz parte do conceito criado pelo diretor, mas talvez alguns momentos de anticlimax, algumas cenas para recuperar um pouco do fôlego melhorasse a experiência. Ou talvez diminuísse o impacto. Saímos impactados, mas cansados do filme.

Visualmente o filme é deslumbrante. A fotografia é sufocante. As diversas cenas de afogamento no interior de embarcações contrastam com cenas abertas onde soldados não tem para onde correr dos terríveis aviões inimigos.  Não importando se temos cenários fechados ou abertos, a sensação de vulnerabilidade é total. As cenas de combate aéreo são de extremo realismo, onde há pouca acrobacia e drama de sobra. A linguagem visual adotada por Nolan nas cenas mais militares relembram os documentários dirigidos por John Ford para o exército americano durante a Segunda Guerra (sem a narrativa em off). Isto junto com a escolha de Nolan de não usar CGI, e sim barcos reais e até um Spitfire (caça inglês da Segunda Guerra) dá ao filme um realismo visual impressionante.

A trilha de Hans Zimmer é onipresente, sendo um dos principais responsáveis pelo sucesso em deixar o público totalmente imerso em lutar para respirar. Já se faz presente no primeiro segundo de filme, e nos acompanha até o final. A mescla de efeitos sonoros com trilha faz muitas vezes não percebemos plenamente onde termina a música e onde começa os ruídos de tiros, ranger de metal e explosões. Não é apenas uma ótima trilha, mas um ótimo casamento de som e música.

Christopher Nolan sem dúvida é um dos melhores cineastas da atualidade, mas tinha ficado um tanto quanto aquém das expectativas com O cavaleiro das Trevas ressurge e principalmente com Interestelar. Ao tentar ser grandiloquente, filosófico e revolucionário demais perdeu-se um pouco nestes filmes. Mas em Dunkirk ele volta a fazer o que faz de melhor: uma narrativa profunda, complexa, e uma conjunção de fotografia e montagem primorosa.

E apesar de estarmos ainda em julho, Dunkirk surge como o primeiro filme candidato a colecionar Oscars em 2018. Quem sabe finalmente teremos Nolan com a estatueta de melhor diretor?

P.S.: Eu não comentei sobre a primeira atuação de Harry Styles por que, assim como o Nolan, não tinha a menor idéia de que ele é tão famoso. Na verdade nem conhecia o rosto do cantor, nem a voz. Mas, se é verdade que nenhuma atuação se destaca no filme, também é fato que sequer percebi que um dos personagens principais estava sendo interpretado por um cantor sem experiência de atuação.

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Dunkirk

20171 h 47 min
Overview

A Operação Dínamo, também conhecida como o Milagre de Dunquerque, foi uma notável operação militar da Segunda Guerra Mundial, onde mais de trezentos mil soldados aliados foram evacuados sob intenso bombardeio, entre 26 de maio e 4 de junho de 1940, devido à invasão de França pelas tropas nazis. Milagrosamente e devido a uma inexplicável reviravolta na estratégia alemã, os soldados conseguiram escapar por via marítima até a cidade inglesa de Dover.

Metadata
Writer Christopher Nolan
Author
Runtime 1 h 47 min
Release Date 19 julho 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 3    Média: 3.3/5]
  • Alexei Znamensky

    Para quem quer saber um pouco mais da história, recomendo o livro:

    https://www.penguin.co.uk/books/55581/dunkirk/

    Faz uns anos que o li, mas se não me falha a memória, os alemães não acreditavam que não tinha um exército gigante e super-poderoso do outro lado. Foi tão fácil avançar que eles acharam que era uma armadilha e tinham medo de perder os tanques todos de uma vez.

    O serviço de inteligência dos alemães era muito fraco, comparado com o dos ingleses.

    • Aniello Greco

      Bem por aí.

      Existem diversos caminhos para explicar porque da ordem de halt vinda de Hitler.

      Desde a dificuldade do terreno para tanques, a garantia (errada) que a Luftwaffe deu a Hitler que impediria sozinha o desembarque, o receio da inteligência alemã da eficácia de um ataque sem infantaria, e até a possibilidade de Hitler desejar negociar um armistício com a Inglaterra, garantindo o terreno invadido.