Dr. Strangelove (1964) – Explodindo os limites da comédia
Posters para "Doutor Estranhoamor"

Cenas das críticas anteriores

Tudo começou com três documentários curta-metragens, que serviram de aprendizado e trampolim para Stanley Kubrick. O primeiro longa, Fear and Desire, é uma amostra tanto do talento quanto da imaturidade cinematográfica do diretor. Kubrick começa a encontrar seu caminho no cinema noir, com A morte passou por perto e, principalmente, O grande golpe, seu primeiro filme magistral.

Com isto se inicia sua parceria com Kirk Douglas. Glória feita de sangue é um dos melhores exemplos de como fazer um filme anti-guerra. E Spartacus um dos maiores e mais diferentes épicos de sandálias e espadas já feito.

Após o desentendimento com Kirk Douglas, Kubrick inicia sua segunda parceria com um grande ator. Desta vez é o comediante britânico Peter Sellers. Lolita é a primeira comédia de Stanley Kubrick, e teve grande influência sobre o seu próximo filme. Em Lolita Peter Sellers interpreta um personagem, Clare Quilty, que, na história, aparece em várias personas. A Colombia Pictures viu nesta escolha a principal explicação do sucesso de Lolita. Por causa disto, o estúdio aceitou financiar o próximo projeto de Kubrick com uma estranha condição: Peter Sellers teria que interpretar múltiplos personagens. E assim nasce uma das mais perversamente engraçadas comédias da história do cinema.

Dr. Strangelove ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba

Parece que conseguir fazer o público rir com uma história de pedofilia não foi desafio suficiente. A bem da verdade, Kubrick não inicia o seu projeto pensando em uma comédia.  Ainda durante as filmagens de Lolita o diretor já pensava em seu próximo filme. Era apenas uma vaga ideia, de fazer um suspense sobre os riscos de uma guerra nuclear acidental. Para tal projeto o diretor leu aproximadamente 50 livros sobre o tema em alguns meses.

Ao final desta longa pesquisa, Kubrick comprou os direitos de filmagem do romance Red Alert (ou Two Hours to doom, como foi lançado na Inglaterra), de Peter George. Red Alert conta a história de como um general americano entra em um processo paranóico após ser diagnosticado com uma doença fatal, e decide realizar um ataque nuclear a União Soviética, sem autorização presidencial. Para tal o general se utiliza do Wing Attack Plan R, um plano de contingência que permitia oficiais de baixo escalão iniciar um contra-ataque, caso a cadeia de comando militar americana tivesse sido desmantelada por um ataque inimigo.

Quando o Pentágono descobre o ataque, devido aos protocolos do Wing Attack Plan R, não haveria mais como dar a contraordem e fazer os bombardeiros retornarem. Então não restaria outra opção para o alto comando além de colaborar com os soviéticos para abater seus próprios aviões. E, seguindo a lógica de destruição mútua da Guerra Fria, permitir a URSS a bombardear uma cidade americana caso um alvo soviético fosse atingido.

Kubrick começa a escrever o roteiro com a colaboração do próprio autor do livro. Mas a medida que as cenas vão sendo escritas, mais e mais Kubrick percebe que o tom sério e realista de Red Alert não seria a melhor forma de retratar a temática. A lógica interna da Guerra Fria é tão absurda, que a melhor forma de retratá-la seria através da paródia. Então o filme, inicialmente pensado como um thriller, se transforma em uma das melhores comédias de todos os tempos. Para tal Kubrick altera significativamente os personagens, suas motivações e o final da história.

Ao apresentar o projeto para a Columbia Pictures, o estúdio faz uma estranha exigência: Peter Sellers teria que ser o protagonista, ou melhor, os protagonistas. Seguindo a linha de Lolita, onde Sellers interpreta Quilty, mas com várias personificações, a Columbia Pictures aposta que ter o comediante britânico em múltiplos papeis faria do filme um novo sucesso.

Elenco e personagens

Inicialmente Sellers é escalado para 4 personagens: Capitão Mandrake, o Presidente Merkin Muffley, Dr. Strangelove e o Major T. J. “King” Kong. Sellers reclama com Kubrick.  Realizar estes 4 papéis seria muito exaustivo, e seria complicado para o ator dominar corretamente o sotaque texano do Major Kong. Após muita insistência, e depois de conseguir adquirir o sotaque correto, Sellers sofre um acidente nas filmagens. Enquanto interpretava o personagem texano, Sellers cai do set suspenso que simulava o interior de um B-52 e machuca a perna. Com o ator tendo que permanecer em uma cadeira de rodas pelo resto das filmagens, Kubrick tem que improvisar um novo ator no elenco. O substituto escolhido foi Slim Pickens, ator texano conhecido por seus papeis em produções Western.

No elenco também temos como nomes de peso Sterling Hayden (que já havia atuado com Kubrick em O Grande golpe), retornando de sua aposentadoria, e George C. Scott. Como curiosidade, este filme marca a estréia de James Earl Jones no cinema.

Uma coisa que não fica óbvia para nós, brasileiros, são as piadas presentes nos nomes dos personagens. O mais óbvio de todos é o Brigadeiro Jack D. Ripper, uma clara referência a Jack o estripador. Sterling Hayden usa de sua conhecida intensidade masculina para dar o tom certo de segurança e determinação paranóica a seu personagem. Ripper ordena sua frota de B-52 para o ataque por estar convencido que a fluoretação da água nos EUA é uma conspiração comunista para contaminar os fluidos vitais da população norte-americana. A conjunção da fala acelerada e firme, o charuto freudiano e a relação entre sua paranóia e o desempenho sexual faz com que o estripador seja uma presença apavorantemente cômica. Inspirado na figura do General Curtis Lemay, um dos principais responsáveis pelo Comando Aéreo Estratégico na década de 60, e conhecido por seu fanatismo anti-comunista.

Não esqueçamos do General Buck Turgidson, personagem de George C. Scott. Turgid, em inglês, pode se referir tanto a um estilo exagerado e pomposo, como principalmente a ereção masculina. E o General Turgidson é outro valentão, que tem uma sexualidade infantilizada, e uma clara excitação com o poderio de suas unidades. Seu anti-comunismo lembra também a personalidade do Gen. Curtis Lemay, mas muito de suas falas são quase que citações de Herman Khan, um dos maiores estrategistas militares americanos da época. Claro, uma versão de Khan depois de tomar uma dose exagerada de estimulantes. Kubrick pediu diversas vezes para George C. Scott refazer suas cenas de forma mais exagerada, a ponto do ator reclamar de que o que estava em tela não era sua interpretação do personagem, mas sim a de Kubrick. Posterioremnte Scott reconheceu ter sido este um de seus melhores trabalhos. O fato é que este tom histriônico de Turgidson garante alguns dos melhores momentos do filme. Como na cena abaixo:

Temos ainda um embaixador russo com nome sádico (Alexi de Sadesky), um piloto com nome de guerra “King” Kong, um Coronel com nome de excremento de morcego (“Bat” Guano), entre outros. Nem mesmo o presidente americano escapa nos nomes cômicos. Merkin Muffley é um nome que remete duas vezes a genitália feminina. Merkin é um tipo de peruca para disfarçar as genitálias depiladas de prostitutas, e muff é uma das várias gírias americanas para vagina.

Sellers consegue ser absolutamente hilário no papel do presidente. Sendo o único personagem com alguma sanidade na Sala de Guerra, Merkin Muffley é aquele que nós conseguimos ver como a voz da razão em um hospício. Kubrick deu plena liberdade a Sellers, e muito das falas do ator são improvisos criados em frente a câmera. Alguns dos cortes de edição no filme foram feitos para não mostrar os demais atores caindo na gargalhada enquanto a cena ocorria.

Mas não é só com o presidente que Sellers demonstra sua genialidade. Indicado para o Oscar de Melhor Ator, Sellers não ganhou o prêmio. Ao meu ver, de forma justa. Ele merecia três Oscars de ator coadjuvante, ao invés de um só como ator principal. O cachê do ator representou mais da metade do orçamento do filme. Questionado se o investimento valeu a pena, Kubrick respondeu que com Sellers ele conseguiu três atores pelo preço de seis.

E como não falar de Dr. Strangelove, personagem que dá nome ao filme? Inspirado na Operação Paperclip, que no final da Segunda Guerra alistou vários cientistas nazistas para trabalharem no exército americano, Dr. Strangelove parece ter saído diretamente de um filme de Fritz Lang ou Murnau para a Sala de Guerra de Kubrick. Cadeirante e portador de síndrome da mão alheia, o doutor é o estereótipo do cientista maluco, e ao mesmo tempo conselheiro científico do presidente americano. Nada mais adequado para retratar o pensamento da época. A base da estratégia americana à época era chamada de Garantia de Destruição Mútua, ou Mutual Assured Destruction. Ou simplesmente, MAD. Nada mais insano que pensar que a paz poderia ser garantida pelo poder destrutivo mútuo. E o Dr. Strangelove nos lembra de como este raciocínio se aproxima das racionalizações nazistas.

Conotações Sexuais

Além da sátira a (i)lógica estratégica da Guerra Fria, outro ponto que o filme aborda é a postura macho alpha presente no discurso militar. Como explica bem Dr. Strangelove, a política de dissuasão da Guerra Fria se baseava em instaurar no adversário o medo de atacar. É preciso mostrar aos soviéticos que qualquer ataque aos EUA representaria destruição completa. Isto implica em uma postura de bravata constante, de ambos os lados.

Kubrick traduz isto não apenas nas falas de Jack D. Ripper e Turgidson, como em diversas imagens com mensagens sexuais e fálicas. Já nos créditos de abertura, temos a cena de reabastecimento de um B-52 em pleno ar. Usando de imagens oficiais do exército americano, de uma trilha sonora inspirada, e muita criatividade, o que vemos não é um abastecimento, mas uma verdadeira relação sexual entre dois aviões. Os temas fálicos vão se repetindo, no charuto e na metralhadora de Jack. D. Ripper, e na sua inspiração para descobrir a conspiração comunista. Na forma como Turgidson lida com sua amante. Na famosa cena onde o Major “King” Kong cavalga na bomba. E nas implicações sexuais do plano final de Dr. Strangelove.

Este retrato das forças armadas americanas como machões dispostos a destruição do inimigo sem medir as consequências acontece muito antes do governo americano perder a confiabilidade da opinião pública com a Guerra do Vietnã. A opinião pública ainda estava enamorada da política externa americana, e Dr. Strangelove representa uma das primeiras críticas severas a guerra fria . Não a toa o filme foi muito mal recebido pelos militares. Arthur C. Clarke conta que, em uma das diversas noites que passaram juntos criando o roteiro de 2.001, eles viram uma luz no céu um tanto inexplicável. Clarke sugeriu que eles ligassem para a aeronáutica para relatar um OVNI. Kubrick responde que a força aérea americana não queria saber de nada vindo dele depois de Dr. Strangelove.

Sem lutas na Sala de Guerra

O filme acontece em apenas três cenários. A base aérea de Gen. Jack D. Ripper, o interior do B-52 de Major “King” Kong e a Sala de Guerra no Pentágono. A batalha pela base aérea revisita o tema da morte por fogo amigo, que já apareceu em Glória Feita de Sangue. Só que agora não é o ato de covardia e pavor de um tenente, mas sim a inabilidade do exército americano de lidar com as consequências de seus erros. O cartaz “A paz é nosso trabalho” que aparece na base não é uma ironia de Kubrick, mas sim uma ironia da vida real. Este era o lema do Comando Aéreo Estratégico.

O interior do B-52 foi um verdadeiro milagre. Sendo uma das armas mais modernas e estratégicas da época, praticamente todos os detalhes sobre a nave eram segredos militares. A equipe de Dr. Strangelove teve acesso apenas a uma foto parcial, da capa de um livro, para criar o cenário. Isto e o depoimento verbal de alguns membros da equipe que eram militares da aeronáutica. Resultado: uma reconstituição quase exata do interior do avião, a ponto de preocupar Kubrick sobre possíveis processos legais.

Mas o cenário mais impressionante do filme é a Sala de Guerra. Com visual inspirado no filme Metropolis, a Sala de Guerra é um gigantesco e sombrio bunker, dominado por duas telas gigantes, uma com o mapa dos EUA e outro da URSS, e a mesa de reuniões. O formato e a iluminação usados fazem com que a mesa se pareça com uma imensa mesa de poker, onde o destino do mundo é jogado.  Kubrick fez questão inclusive que a cor do feltro que cobre a mesa fosse verde, para aumentar a semelhança. Apesar disto não aparecer em um filme preto e branco, serviria para influenciar na interpretação dos atores.

A Sala de Guerra ficou tão presente no imaginário americano que, diz a lenda, um dos primeiros pedidos de Ronald Reagan ao tomar posse teria sido conhecer tal sala. E ficou decepcionado ao saber que ela havia sido totalmente inventada.

Sem tortas no final

Dr. Strangelove tem uma das cenas cortadas mais famosas do cinema. Após o evento final, haveria uma guerra de tortas de creme entre as pessoas na Sala de Guerra. A guerra de comida foi em tal escala que dizem que no final era impossível saber quem era quem, de tanto creme nos rostos dos atores. Durante as filmagens todos acharam a cena hilária, e o voar de tortas seria uma metáfora visual para a troca de bombas entre EUA e URSS.

Contudo, acertadamente, Kubrick percebe que o tom pastelão de uma guerra de tortas não combinaria com o tom de sátira política do filme. Nem sempre o que é engraçado é bom. O final que prevaleceu tem um impacto dramático terrível. A primeira vez que vi lembro de estar chorando de tanto rir, e ao mesmo tempo me sentir profundamente incomodado pelo meu próprio riso. A frase final de Peter Sellers, e as cenas de explosões ao som de We’ll meet again explodiram definitivamente os limites da comédia. Celebremos a estupidez, a crueldade e o fim da civilização com uma bela gargalhada.

Mais real do que parece

Praticamente tudo o que você precisa saber para entender a mentalidade da Guerra Fria está em Dr. Strangelove. O tom de paródia pode levar algumas pessoas a pensar que Dr. Strangelove é um enorme exagero. Em especial para aqueles que não vivenciaram a Guerra Fria, parece absurdo pensar que algo tão sério quanto uma guerra nuclear poderia acontecer por motivos tão estúpidos. Mas, tirando alguns exageros e licenças poéticas, quase tudo em Dr. Strangelove  é perturbadoramente realista.

O jogo político que as duas superpotências praticavam na Guerra Fria se baseava na dissuasão pela capacidade de destruição mútua. A ideia era muito simples: se você sabe que seu inimigo tem capacidade de responder com força destruidora a qualquer ataque, você nunca irá atacar. A forma de se obter a garantia de paz então era o do equilíbrio do terror. Cada avanço militar de um dos lados deveria ser correspondido por um avanço oposto. Se um dos lados acreditasse que poderia fazer um ataque preemptivo que inutilizasse a capacidade de resposta inimiga, o mais provável é que tentasse atacar. Mesmo com milhões de mortos de cada lado como efeito colateral. Era preciso fazer com que ambos os lados acreditassem que atacar implicava em ser derrotado.

Em 1964, para manter a garantia de destruição mútua os Estados Unidos mantinham a Operação Domo de Cobre. A operação consistia em deixar no mínimo 12 B-52 sobrevoando os limites do espaço aéreo soviético, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Todos carregados de ogivas nucleares. A única forma de impedir um ataque nuclear, segundo a mentalidade da época, era ter sempre um ataque nuclear disponível.

Mas assustador ainda  é saber que, apesar oficialmente apenas o presidente americano ter a autorização de ordenar um ataque nuclear, de fato havia um pequeno número de generais que o presidente Eisenhower teria delegado a autorização para este ataque. E isto permaneceu na gestão Kenedy, e sabe-se lá em quais outras. Pior ainda, os arsenais nucleares em bases da OTAN na Europa poderiam ser usados sem sequer conhecimento do exército americano. Sem esta capacidade de reação rápida e independente, o poder de dissuasão dos arsenais nucleares deixaria de existir. Este era o estado da rede de comando em épocas como a Crise dos Mísseis de Cuba.

Se era possível que um general perdesse a cabeça e criasse um incidente nuclear? Segundo muitos especialistas, entre eles Robert Mcnamara, era altamente improvável, mas possível. Muito mais provável seria um erro de comunicações, ou atitudes impensadas em episódios especialmente tensos. Isto sem falar em erros de equipamentos.

A máquina do juízo final

A parte mais fantasiosa de Dr. Strangelove é a Máquina do Juízo Final. Mas mesmo ela não é tão irreal assim. Me desculpem, mas terei que falar de física. As bombas termonucleares de maior potência são um dispositivo de fissão-fusão-fissão. O que diabos isto significa?

Uma bomba atômica de primeira geração é uma bomba de fissão. A explosão ocorre pela quebra de elementos radioativos pesados (urânio ou plutônio). Este processo gera, alem da enorme bola de fogo e onda de choque, uma dispersão de vários elementos radioativos, que contaminam o ambiente em uma área enorme. É o chamado fallout.

A bomba de hidrogênio, ou bomba termonuclear, segue um outro processo, o da fusão de isótopos de hidrogênio em elementos mais pesados. É o mesmo processo que ocorre no interior do Sol. A liberação de energia é muito maior, e não temos a criação de elementos radioativos. O problema? Somente com a explosão de uma bomba de fissão conseguimos produzir as condições necessárias para uma bomba de fusão. Ou seja, uma bomba de hidrogênio precisa de uma bomba similar a de Hiroshima como espoleta para iniciar o processo.

Mas se você quiser uma explosão realmente de larga escala, você irá adicionar um terceiro estágio de deutério, que geraria um processo de fusão ainda maior, mais energético. E você ainda pode “salgar” a bomba, envolvendo-a em uma jaqueta de urânio empobrecido e outros materiais. Com isto você terá a energia de uma bomba de hidrogênio alimentando novamente um processo de fissão atômica, só que em escala muito maior. Estas são as bombas termonucleares de maior potência. E geram um fallout imenso.

A maior bomba nuclear já testada, a Bomba Tzar, foi um artefato soviético projetado para atingir 100 megatons. Mas devido ao enorme fallout que ela geraria (e também ao fato que o bombardeiro não conseguiria se afastar a tempo da explosão para sobreviver), a jaqueta de urânio não foi construída, e tivemos uma explosão de “apenas” 50 megatons. Estima-se que, se feita com a jaqueta de urânio, a Bomba Tzar aumentaria em 25% o total de fallout radioativo de todos os demais testes juntos.

Ainda assim,  nem mesmo uma explosão desta magnitude poderia extinguir toda a vida na Terra em um único ato. Contudo, como não há limite teórico para o tamanho da jaqueta, é possível revestir uma bomba nuclear de materiais radioativos suficiente para gerar um fallout global. E se o material radioativo tiver o decaimento suficientemente lento, poderia em tese extinguir a vida na Terra. No livro On thermonuclear war, de Herman Khan, o estrategista americano propõe o Cobalto 59 como o material adequado para este propósito. Com a explosão o Cobalto 59, não radioativo, se transformaria em Cobalto 60, radioativo. E o Cobalto 60 tornaria o fallout muito mais letal. Khan ainda define a criação de um mecanismo igual ao usado no filme como forma de dissuasão atômica. Sim, Kubrick leu este livro diversas vezes. Felizmente a quantidade de cobalto necessária para produzir tal bomba é impraticável.

Mas a criatividade humana se supera, e os soviéticos construíram algo muito similar a Máquina do Juízo Final. É o Perímetro, também conhecido como a Mão Morta. Trata-se nada mais, nada menos,  de um sistema que analisaria registros sismológicos e usaria sensores radioativos para detectar um ataque nuclear a Rússia. E, através de um comando pré-autorizado, acionaria os mísseis inter-continentais com seus alvos pré-programados. Sem interferência humana. E, curiosamente, igual ao filme, os soviéticos “esqueceram” de avisar o mundo da existência do sistema. Por anos! Coisa maluca de soviéticos? Pena que os EUA construíram um sistema bem similar, não totalmente automático, mas com a mesma função. O Emergency Rocket Communications System.

Apesar de não serem mecanismos que, com uma única explosão, extinguiriam a vida na Terra, são mecanismos que poderiam causar um holocausto nuclear sem decisão humana. No final da Guerra Fria tivemos não apenas uma, mas duas Máquinas do Juízo Final. Além disto, podemos interpretar que o conceito da Máquina do Juízo Final é também uma excelente metáfora para a Guerra Fria em si. A mentalidade de garantia de destruição mútua é próxima o suficiente para ter os mesmos efeitos.

E hoje? Primeiro não sabemos se os dois sistemas, russo e americano, foram realmente desativados. Temos os “confiáveis” Trump e Putin sentados diante dos botões. E cada vez mais nações se tornam potências atômicas. Apesar de todo o desarmamento ocorrido no fim da Guerra Fria, hoje temos um número ainda maior de ogivas nucleares ativas. E pior, sem a Guerra Fria na agenda política, muitos consideram esta ameaça como coisa do passado. Mas segundo especialistas como a equipe do Relógio do Juízo Final, estamos tão perto de um holocausto nuclear quanto estávamos nos piores momentos da Guerra Fria.

E o que foi mesmo que gerou estes parágrafos sombrios no final de meu texto? Uma comédia. Mas não apenas uma comédia, e sim a minha comédia favorita, e o segundo melhor filme de Stanley Kubrick. Mais um destes que a nota 5 é uma injustiça, mas o site não me permite dar 10 estrelas. Exatamente por ser uma comédia capaz de fazer você chorar de rir com o tema mais sombrio possível, abordando-o de forma realista, Dr. Strangelove ou como eu aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba é a melhor e mais incômoda comédia de todos os tempos.

E advinhe? O próximo filme de Kubrick é ainda melhor.

Cenas da próxima crítica

Após Dr. Strangelove temos o fim da parceria entre Peter Sellers e Stanley Kubrick. E também se encerra os filmes em preto e branco do diretor.

Durante as filmagens de Dr. Strangelove, Kubrick chegou a pensar em incluir no roteiro um grupo de extraterrestres, que observariam a Terra em seu jogo insano. Após o filme, Kubrick seguiu fascinado pela idéia de vida fora da Terra.

Seu próximo projeto começa com a simples vontade de fazer o “proverbial bom filme de ficção científica”. Em 1968 a ficção científica era um gênero menor, onde praticamente todas as produções eram juvenis e ingênuas. Mesmo as melhores produções de sci-fi ainda eram filmes de baixo orçamento e pouca pretensão. Kubrick busca a colaboração de Arthur C. Clarke para produzir seu próximo filme, o primeiro sci-fi de respeito.

E a partir desta colaboração, o gênero de ficção científica, e o cinema, jamais seriam os mesmos.

Uma confissão: assistir 2001 Uma odisseia no espaço em tela grande foi a experiência artística mais intensa de minha vida. Por causa disto sempre tive medo de tentar fazer a crítica deste filme. Hora de encarar o Monolito.

Not rated yet!

Doutor Estranhoamor

19641 h 35 min
Overview

Um general meio louco, Jack D. Ripper, obcecado pelo medo de que os comunistas estejam a controlar as reservas de água potável americanas, lançará a sua esquadrilha de bombeiros atómicos contra a Rússia. O Presidente dos Estados Unidos, os chefes do Estado Maior no Pentágono e mesmo o sinistro Dr. Estranho Amor, percebem que é tarde demais para cancelar o ataque, restando-lhes apenas esperar pelas terríveis consequências... Esta controversa comédia negra apresenta Peter Sellers em três papéis diferentes e é interpretada também por George C. Scott, Sterling Hayden e Slim Pickens. Hilariante, satírico e mesmo aterrador, Dr. Estranho Amor é um manual de 'Como Deixar de se Preocupar e Amar a Bomba'.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer
Author
Runtime 1 h 35 min
Release Date 29 janeiro 1964

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 1    Média: 4/5]