De olhos bem fechados (1999) – Sonho e realidade
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Cenas das críticas anteriores

E estamos chegando ao fim da carreira de Stanley Kubrick. Já percorremos todos seus filmes, desde os três curtas-metragem de início de carreira, até 12 longas-metragem, a saber:

Fear and desire

A morte passou por perto

O grande Golpe

Glória feita de sangue

Spartacus

Lolita

Dr. Strangelove

2001 – Uma odisséia no espaço

Laranja mecânica

Barry Lyndon

O iluminado

Full Metal Jacket

E com isto chegamos ao derradeiro filme kubrickiano, De olhos bem fechados. Seis dias após finalizar a pós-produção do filme, Kubrick veio a falecer de ataque cardíaco. 13 longas-metragem com certeza é pouco para 46 anos de carreira, em especial se compararmos com grandes diretores como Woddy Allen (55 filmes), Steven Spielberg (58 filmes) ou Alfred Hitchcook (70 filmes). Mas destes 13 filmes, de 7 a 8 podem ser citados entre os melhores da história sem grandes polêmicas. Se a maioria dos grandes diretores costumam a soltar um filme por ano ou dois, mantendo-se presentes e influentes na mídia, Kubrick optou por se dar o tempo necessário para produzir as obras que queria, como queria, quando queria.

De olhos bem fechados foi o extremo desta postura. Não apenas os 12 anos que separam Full Metal JacketDe olhos bem fechados que chamam atenção. O interesse de Kubrick em adaptar o romance Traumnovelle, de Arthur Schnitzler, vem desde a década de 60, pelo menos. O diretor exigiu que os dois atores principais, Tom Cruise e Nicole Kidman, assinasse um contrato de prazo indeterminado, deixando-os a disposição exclusiva do filme pelo tempo que durasse as filmagens. O que se revelou sábio, pois De olhos bem fechados detêm o recorde de filmagem contínua mais longa: 400 dias.  O resultado: o melhor filme de sua autoria, segundo o diretor.

De olhos bem fechados

No início, nudez completa de Nicole Kidman. No final, a atriz dizendo para Tom Cruise: Fuck. E no meio uma cena de orgia. De olhos bem fechados é o filme mais sexualizado de Stanley Kubrick. E isto em uma obra onde sexo e violência são quase onipresentes. Junte isto ao fato do longa ser protagonizado pelo casal mais sexy de Hollywood à época, e temos a receita pronta para o escândalo e a incompreensão. Ainda hoje parte da crítica e do público não reconhecem o valor deste filme, por não irem além do lado sexual. De olhos bem fechados não é um thriller erótico, e sim um complexo drama psicológico sobre casamento, fidelidade, fantasia e (medo de?) sexo.

A trama se desenvolve a partir das fantasias e sonhos de Alice, e o impacto destas em Bill. Tudo começa com uma festa de fim de ano, onde Alice e Bill demonstram o potencial para o flerte e traição. Ambos são expostos a tentação do sexo oposto, e parecem se divertir dançando a beira do abismo. A espoleta que detona a bomba é uma discussão após a festa em que Alice, revoltada com seu marido ter como garantida a sua fidelidade, confessa que no passado teria sido capaz de abandonar marido e família se um certo marinheiro tivesse tentado seduzi-la.

Após esta revelação, Bill parte em uma peregrinação pela noite de Nova York, na qual, progressivamente, se expõe a oportunidades cada vez mais estranhas de trair sua esposa. Mas, de forma muito similar ao que é comum nos sonhos, cada vez que ele fica próximo de cometer o ato, algo interrompe o processo. Propositalmente Kubrick dá um clima onírico para as aventuras de Bill, com o auge na segunda festa do filme, uma espécie de missa negra/orgia ritualística, completamente simbólica e surreal.

Na manhã seguinte a noite fatídica Bill parte em uma jornada inversa, tentando encontrar os personagens de sua jornada, e fracassando. E pior, acaba por perceber que sua presença na orgia noturna deixou em risco sua vida, de sua família, e pode ter sido motivo para um homicídio. Após tudo desmoronar, Bill confessa a esposa, e em uma catarse final eles decidem que uma noite não pode determinar mais que toda uma vida, e que um sonho nunca é apenas um sonho. E como cicatrizar as feridas das traições desejadas e não cometidas? Fuck.

A contraposição entre masculino e feminino, e a justaposição entre sonho e realidade é ressaltada pelas interpretações em tons diametralmente opostos. Tom Cruise é estável, comedido e controlado. Mesmo diante de uma agressão homofóbica, ou de uma bizarra cena de prostituição juvenil com consetimento do pai, Bill mantem a fleuma e a compostura. Já Nicole Kidman é um vulcão emotivo, com ataques de riso, estouros de raiva, etc. Alice está consciente de sua sexualidade, de sua tempestividade. E por isto sonha de olhos abertos. Bill, mesmo quando esfregam a realidade em sua face, permanece de olhos bem fechados. Até temer pela sua própria vida.

Kubrick não poupa ferramentas para dar um tom onírico ao filme. Para começar, opta por uma iluminação “prática”, baseada em fontes de luz presentes no próprio cenário, como abajures e luzes de natal. Para compensar a falta de luz que isto gera, ele aumenta a sensibilidade da película durante a revelação (push-develop) , o que dá uma paleta de cores atípica, bem como aumenta a profundidade e o contraste das imagens. Junte isto com o uso constante do vermelho, azul e amarelo para dar o tom de paixão, medo e traição, respectivamente, e temos um visual belíssimo e dramático. A reconstrução das ruas de Nova York foi feita em estúdio, e muitas das cenas onde Tom Cruise passeia ao ar livre foram filmadas com projeção de imagens e uma esteira, também para dar tons de artificialidade e fantasia.

A trilha também participa da narrativa. Temos a valsa para o baile de sedução, e principalmente a incomoda música de Ligeti nos momentos mais insólitos. O piano se faz presente a todo instante, não apenas nas participações de Nick Nightingale, mas principalmente no ritual/orgia, onde nos entorpecemos com sexo e música até a beira do pânico.

De olhos bem fechados é o filme mais maduro psicologicamente de Stanley Kubrick, com nuances muito além do sexo. Uma complexa fábula acerca do que seria fidelidade e traição. Com ele perguntamos se o desejo é mais ou menos significativo que o ato. Mas muitos se perdem nas covinhas de Nicole Kidman, e perdem o filme.

Cenas do próximo texto

Encerramos os filmes dirigidos por Kubrick, mas não terminamos a análise de sua obra. Foram muitos os projetos inacabados, onde meses ou anos de pesquisa acabaram por não se transformar em filmes. Vamos então analisar o roteiro de Napoleão, as idéias sobre Arian Papers, bem como o filme de Steven Spielberg Inteligência Artificial, baseado em um projeto iniciado por Kubrick,.

 

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De Olhos Bem Fechados

19992 h 39 min
Overview

Bill Harford (Tom Cruise) casado com a curadora de arte Alice (Nicole Kidman). Ambos vivem o casamento perfeito até que, logo após uma festa, Alice confessa que sentiu atração por outro homem no passado e que seria capaz de largar Bill e sua filha por ele. A confissão desnorteia Bill, que sai pelas ruas de Nova York assombrado com a imagem da mulher nos braços de outro.

Metadata
Director Stanley Kubrick
Writer Arthur Schnitzler
Author
Runtime 2 h 39 min
Release Date 16 julho 1999

Nota do Razão de Aspecto

 

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