Corra! (Get Out, 2017) – Crítica
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Se você chegou até este texto, provavelmente já leu muitas outras críticas e/ou viu alguns vídeos sobre Corra! nas últimas semanas, tamanha a impressão positiva que o filme tem causado na crítica brasileira, que corresponde ao sucesso de crítica e de público nos EUA. Assim, seria apenas chato ler um texto que se restringisse a repetir as mesmas coisas que lemos e ouvimos por aí; “melhor filme do ano até agora”, “Jordan Peele é uma comediante que estreia na direção com filme de terror”, “lembra Adivinhe Quem Vem para Jantar“. Sim, é tudo verdade, mas eu tentarei ser um pouco mais original. Por outro lado, se esta é a primeira crítica que você está lendo sobre o filme, seja bem-vindo e aproveite meu esforço para não ser repetitivo.

Corra! teve sua première no Festival de Sundance 2017, mas, infelizmente, não consegui comentá-lo para a cobertura do Conexão Sundance. Estou arrependido de não ter brigado por um ingresso durante o festival, mas, felizmente, o sucesso do filme garantiu seu lançamento rápido no Brasil. Desde então, Corra! arrecadou US$ 170 milhões e chegou a liderar as bilheterias estadunidenses em fevereiro,  até o lançamento de Logan, no início de março. Não se trata de um filme qualquer, já que produções independentes de baixo orçamento raramente se tornam filmes de massa.

Corra! tem uma premissa simples, mas muito bem executada, que resulta em uma narrativa original, intensa, tensa e complexa. O resultado é excelente pelo trabalho de direção e, principalmente, pelo roteiro. Diálogos bem elaborados, situações verossímeis dentro do universo narrativo, viradas espetaculares e eficientes – ponto muito importante, porque, apesar de espetaculares, não são viradas no estilo Shyamalan -, atuações perfeitas em cada papel e um desfecho surpreendente e e cheio de significados. Todos esses elementos são temperados por um trilha sonora que oscila entre algo de terror sobrenatural e de suspense psicológico, em um trabalho excelente de Michael Abels.

Corra! trata do tema do racismo de forma, digamos, surpreendente. Os racistas não são brancos do sul, mas, sim, a elite branca democrata que vota em Obama e que “tem um amigo negro”. Ao contrário de outras obras sobre o tema, como O Nascimento de uma Naçãoo racismo não é discutido pelo ângulo da violência e da dominação explícita, mas, sim, subliminarmente, reproduzindo na narrativa a  tensão subjacente à divisão racial nos EUA.  Com sutileza e com clareza, quando necessárias, Corra! é mais eficiente na entrega da mensagem do que outras produções recentes, como Cara Gente Branca. Além disso, o tipo de racismo retratado na maior parte da narrativa – silencioso, subliminar – é muito mais parecido com aquele que conhecemos no Brasil, o que facilita – e muito – a empatia do público brasileiro.

Corra!  escolheu um gênero atípico para tratar desse tema – o terror -, muito diferente do drama em Moonlight, por exemplo. Seria fácil delizar para a comédia involuntária, se as atuações ou a direção errassem minimamente no tom. Seria fácil, também, perder o controle da narrativa e entregar um filme menos interessante, mas Jordan Peele mostrou saber controlar a produção do início ao fim.

O quarteto principal de atores, formado por Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford e Catherine Keener, entrega interpretações competentes, com destaque para Kaluuya. O protagonista tem uma naturalidade ímpar no papel e consegue expressar a confusão, as emoções e, de certa forma, representar o espectador no processo de descoberta do que está acontecendo naquela linda casa de campo no interior o estado de Nova Iorque. O restante do elenco tem participação incidentais, mas interessantes, com ápice na cena da festival no festival de absurdos verossímeis que se abre na nossa frente.

Corra! é, ao mesmo tempo, um filme de terror, uma comédia ácida e um drama de crítica social inteligente e indecifrável até o momento que o diretor escolheu para que o mistério fosse revelado. E… não, nem eu, nem você, nem ninguém, conseguiríamos antecipar os acontecimentos. Mesmo quando achamos que isso aconteceu, somos surpreendidos por uma mudança de rumos inesperada, mas precisa e coerente com a proposta narrativa.

Corra! se junta a Logan e a Guardiões da Galáxia: Vol 2 no pódio dos melhores filmes norte-americanos de 2017 até agora. Corra (sem exclamação) para o cinema!

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Corra!

20171 h 44 min
Overview

Agora que Chris e a sua namorada Rose chegaram ao ponto da relação em que se apresenta a família, ela convida-o a passar o fim de semana em casa dos seus pais, Missy e Dean. À primeira vista, Chris vê o comportamento excessivamente condescendente da família como tentativas nervosas de lidar com o relacionamento inter-racial da filha, mas com o avançar do fim de semana, uma série de descobertas, cada vez mais perturbadoras, levam-no a uma verdade que ele nunca poderia imaginar...

Metadata
Director Jordan Peele
Writer Jordan Peele
Author
Runtime 1 h 44 min
Release Date 24 fevereiro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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