Corpo Elétrico (2017) – Crítica

Corpo Elétrico funciona mais como um retrato otimizado do seu tempo do que como obra cinematográfica. A questão é que ele funciona de modo excelente como esse retrato e tem belos acertos, principalmente na direção, como cinema – não é só um filme focado em uma mensagem, engolido por ela.

Acompanhamos o dia a dia de Elias (Kelner Macêdo) alternando entre o trabalho em uma fábrica que confecciona roupas e a vida pessoal, notadamente na confluência entre esses dois mundos. Em diversos momentos ele se relaciona, inclusive sexualmente, com os colegas. Durante ou após saídas para tomar umas e se divertir com eles.

A questão sexual é importante e pulsante. Não dá para dizer que Elias tem um marido ou namorado, mas podemos cravar que possui diversos amantes, o que dissipa o conceito de traição e reforça o de liberdade – um dos motes de Corpo Elétrico. A naturalidade como o roteiro e a câmera de Marcelo Caetano abordam o sexo é de se admirar. Mesmo sendo uma constante, com um nu quase frontal, não sentimos em momento algum uma apelação.

E a naturalidade também é vista na abordagem da temática LGBT. Este não é um filme denúncia, onde os personagens sofrem preconceitos e são oprimidos. O que temos aqui é uma visão de mundo, que infelizmente hoje ainda é utópica, onde o sexo de quem você se deita não importa para os outros. Havendo, portanto, uma integração plena entre gays, héteros e trans.

Caetano consegue levar para a tela um cotidiano tão cru que por vezes soa fantasioso, vide a bela cena da saída da fábrica onde a câmera dança entre os personagens em um plano sequência divertido. O efeito além de ressaltar a amizade entre eles, torna o público íntimos daquele grupo. Essa coreografia permite acreditarmos na sinceridade daquelas pessoas e deste projeto cinematográfico. Há uma organicidade rara.

Já a cena inicial, em um olhar mais desatento, pode soar como sobra ou vazia. Tal parecer é quase criminoso. Ali já marcamos o protagonista e algumas nuances dele. O enquadramento pegando basicamente a canela do parceiro enquanto Elias fala também é significativo. Além do próprio conteúdo do sonho por ele descrito.

E de fato Corpo Elétrico se constitui de vários desses momentos singelos e potentes. Você sairá da sala destacando uma cena, enquanto outra pessoa lembrará de outro momento. Quase soando de maneira episódica essa opção trabalha na fronteira. Por vezes, contudo, ultrapassa-a e o filme perde consistência.

Márcia Pantera é um ícone LGBT e famosa, dentre outras coisas, pelo bate cabelo. A presença dela é mais do que um fanservice, tem peso e se faz quase como uma obrigação aqui. Porém cai nessa conta dos momentos que se tirados do filme não há uma perda narrativa.

Tal pesar é ampliado por termos outros personagens coadjuvantes que mereciam maior destaque. Aliás, esse é um mérito inquestionável aqui: diversas figuras, para além de Elias, circulam a tela e permitem criarmos vínculos. Eu queria saber mais da história deles – esse gostinho de quero mais é um tanto agridoce.

Outro ponto é a bagunça sonora (totalmente intencional) nos diálogos com vários personagens. Não faria sentido um silêncio enquanto um fala ou então perderia a força do conjunto se tivéssemos apenas burburinhos genéricos. Por vezes a câmera “tenta” pegar o que um está falando e já trocamos o foco narrativo para outro. Um trabalho “poluído” que sabe o que quer e acaba tendo um produto funcional.

Mais curioso como essa dinâmica efervescente é equilibrada por alguma calmaria, como no momento que Elias folheia livros na casa do ex/atual/eterno. Ou ainda na repetição de alguns planos para marcar a rotina.

Alguns filmes nacionais recentes se apoiam nessa rotina, Comeback, Soundtrack, Rifle, Elon Não Acredita na Morte, O Filme da Minha Vida são exemplos. Todos bem diferentes entre si e explorando essa ferramenta também para fins distintos (e com resultados uns bem mais positivos que outros).

Em Corpo Elétrico temos uma condução de atores muito livre, de modo quase aleatório, e que exatamente por isso me faz crer que não foi ao acaso. Uma história que de tão banal soa quase sem história, ao mesmo tempo que é bem rica. A mensagem jogada de modo explícito e gritando o tempo inteiro que dá uma virada e acaba sutil. Tudo isso faz de Corpo Elétrico uma produção que brilha pela consciência. Cinema nacional indo além do fácil.

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Corpo Elétrico

Overview

Metadata
Director Marcelo Caetano
Writer
Author
Runtime
Country  Brazil
Release Date 28 janeiro 2017

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