Corpo e Alma provavelmente causará reações opostas, mas dificilmente passará indiferente.

Dois personagens dos mais instigantes em um ambiente controverso, além de uma premissa inventiva, compõem a fórmula de Corpo e Alma. A trama tem como cenário principal um abatedouro onde Maria (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi) trabalham.

A direção de Ildikó Enyedi não nos poupa de imagens cruas (com todo o trocadilho possível) dos animais sendo abatidos e das vísceras pulando na tela. Os mais sensíveis poderão ter problemas. Cogitei que o longa fosse enveredar para um tema mais panfletário como em um Okja, mas felizmente o caminho foi outro. Muito mais delicado (e ao mesmo brutal) e consistente (e ao mesmo tempo fluido).

Corpo e Alma

O foco fica mesmo na dupla principal. Ele tentando estabelecer contato e entender a nova funcionária. Ela com movimentos estranhos e metódicos virando chacota na empresa. Sem entrar em detalhes para evitar spoilers (apesar do trailer entregar muita coisa), posso dizer que eles têm uma relação exótica em um ambiente pouco convencional – para além daquele abatedouro. Há toques lúdicos, oníricos e metafóricos que dão diversas camadas – o que no começo parece à toa, ou capricho da diretora, não tarda para vermos que não é.

Maria tem algum tipo de autismo, talvez asperger, e isso dá à personagem várias possibilidades narrativas. A partir de uma inabilidade de se relacionar e de romper com algo que fuja do costume dela (por exemplo ela se consulta com um psicólogo infantil) cria um universo muito rico para a obra explorar. Vemos cenas que tem até um toque de humor, mas sem descambar para ofensa a quem tem aquela condição. A reação dos demais personagens é variada, um misto de espanto, desprezo, curiosidade.

Aliás, apesar do filme ter um direcionamento para a dupla Endre e Maria, há personagens secundários com bastante vida. Desde tipos bem machistas – o filme expõe atitudes machistas, aqueles típicos comentários que são comuns em empresas (ou na sociedade como um todo), mas novamente não é panfletário.  Enyedi prefere usar o ridículo das situações por elas mesmo, sem a necessidade de aumentar ou vilanizar ainda mais. Estratégia muito eficaz. Há também uma psicóloga/investigadora que faz perguntas capciosas e tem uma função importante na história.

Corpo e Alma

Mas se o personagens menores interessam, eles perdem força principalmente no terceiro ato. Eu fiquei com um sentimento dúbio: ao mesmo tempo que eu queria ver mais daquelas personalidades, principalmente interagindo com Endre, sinto que o filme se alongou e se tornou repetitivo. Fico pensando se esse filme com enxugada entre 15-20 minutos será que não se sairia melhor…

Voltando aos aspectos positivos, muito forte a construção sexual da trama. Indo por caminhos raros em uma abordagem múltipla dentro da história. Eu confesso que não conhecia o trabalho da diretora e vou caçar os filmes anteriores, pois o olhar dela e a forma como ela repercute o tema são estruturalmente inventivos. Ah, vale ressaltar que a censura de 18 anos não é à toa.

Outros elementos que merecem a nota são a trilha e a fotografia. A música tem função narrativa e é usada de forma diegética. Isso enriquece ainda mais esse quesito. Sempre é bom lembrar que uma boa trilha não é um conjunto de músicas boas ou canções que você gosta, uma boa trilha vai além.

O visual também tem destaque. A alternância da posição da câmera faz todo sentido para nos percebermos na pele daqueles personagens. Novamente: para além de imagens bonitas (que sim, estão presentes), uma boa fotografia cumpre uma função não só estética.

Forçando um pouco, é possível fazer um paralelo com outro filme bem criativo, lançado este ano: Colossal. Mas um paralelo em forma de antítese: lá os personagens queriam destruir, aqui construir. Lá era lidar com os monstros passados. Aqui a coisa obscura é mais presente e até futura. Lá o relacionamento abusivo era o mote, aqui vejo mais afeto e amor.

Por todos essas qualidades é bem fácil de entender porque Corpo e Alma levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim. E ele está entre os nove finalistas para o Oscar de filme estrangeiro, como representante da Hungria, ao lado de Uma Mulher Fantástica do Chile que também já estrou no Brasil (você pode ler a crítica aqui).  Se tivesse justiça no Oscar o nome da Alexandra Borbély poderia estar sendo cogitada.

Not rated yet!

Testről és lélekről

Overview

Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, dois jovens que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação se mostra ainda mais complexa.

Metadata
Director Ildikó Enyedi
Writer Ildikó Enyedi
Author
Runtime
Country  Hungary
Release Date 2 março 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 3    Média: 4.3/5]
  • Maurício Costa

    Eu realmente adorei este filme. Sensibilidade e originalidade ímpares!

    • Lucas Albuquerque

      ele causa uma estranheza boa