CAM (2018)- Crítica
Posters para "Cam"

CAM. Este texto está dividido em duas partes: a primeira, sem spoilers; a segunda, com spoilers e explicação do final.

Por motivos mais do que justificados, o público tem muita desconfiança dos longas-metragem de produção original Netflix. Ao contrário das séries e dos documentários, os filme de ficção da Netflix são, geralmente, de qualidade mais baixa, ainda que possam satisfazer o público menos exigente. Felizmente, nos últimos meses, tivemos algumas boas surpresas, entre elas e, talvez, a melhor de todas, o suspense/terror psicológico CAM, um filme que consegue unir as qualidades de narrativa e técnica ao alcance comercial. Não por acaso, CAM tem os mesmos produtores de outro filme de suspense/terror piscológico de muito sucesso, inclusive com reconhecimento do Oscar, o excelente Corra!.

CAM segue a tendência de alguns filmes mais recentes de incluir a linguagem da informática e das redes sociais na linguagem cinematográfica, para muito além da premissa do o mero tratamento temático. Nesses filmes, assim como em CAM, as redes sociais e a rede mundial de computadores são, também, personagens e ganham, em certa medida, personalidade. Nasce, assim, um subgênero do suspense e do terror, cujo maior exemplo de êxito é  Buscando… – filme premiado em Sundance 2018, lançado nos cinemas brasileiros em setembro do mesmo ano -, além do bom Amizade Desfeita e de alguns outros filmes de menor qualidade e/ou repercussão. Ao contrário do found footage, cuja fórmula se desgastou e que, muitas vezes, depende premissas pouco verossímeis, esse suspense/terror cibernético vincula-se ao nosso cotidiano e expande nosso entendimento da realidade, ao representar, cinemtograficamente, alguns dos nossos maiores medos, ao agirmos nas redes sociais.

A premissa de CAM – uma cam girl tem sua identidade roubada por uma sósia – coloca em debate vários temas: a necessidade de reconhecimento; a busca da fama; a  falta de respeito próprio;  a hipocrisia em relação à pornografia; o falso moralismo; os distúrbios psicológicos das pessoas que se envolvem com esse submundo; os abusos que essas pessoas sofrem e a sede de sangue das pessoas que se encondem atrás de seus perfis falsos.   CAM, portanto, tem forte componente de crítica social e comportamental, de entendimento relativamente fácil, mas sem simplificações excessivas. Se essa crítica fosse a única qualidade, CAM já valeria a pena, porém, felizmente, as qualidades da produção vão muito além da abordagem do tema.

Ao tornar real o grande medo de uma personalidade que depende de validação externa, CAM cria, ao mesmo tempo, um clima de paranóia e de curiosidade, que cresce a cada tentativa de entender o que está acontecendo. A interpretação visceral de Madeline Brewer, nos papéis de Alice e de sua sósia, nos faz imergir no seu desespero e nos entregar às suas dúvidas, tentando entender o que está se passando. A direção inteligente de Daniel Goldhaber, por sua vez, constrói algumas cenas profundamente assustadoras – especialmente a que se refere ao show conjunto de Lola e Baby -, enquanto o roteiro dá as pistas e as respostas, sem subestimar a audiência e sem se utilizar de exposições estúpidas (darei as explicações na segunda parte do texto, com spoilers).

Poucos são os filmes de suspense/terror psicológico tão originais e inteligentes quanto CAM, que moderniza a narrativa de suspense de Hitchcock, ao trazer para o nosso cotidiano a concretização de nossos medos mais profundos, se utilizando de recursos ao alcance das nossas mãos.  Perturbador, intrigante e deliciosamente bizarro, CAM é obrigatório para os fãs do gênero.

ALERTA DE SPOILER: A PARTIR DE AGORA, O TEXTO TRATARÁ DE ASPECtOS ESSENCIAIS À TRAMA. CONTINUE A LEITURA APENAS SE JÁ TIVER ASSISTIDO CAM.

No final, parte do público pode considerar que diversas perguntas não foram respondidas. Felizmente, todas as respostas estão no próprio filme, ainda que de forma indireta. Tentarei responder as principais questões.

1- Quem ou o que era a cópia de Alice?

Em sentido estrito, a cópia de Alice resulta de um vírus que manipula o algoritmo dos sites de webcam e cria uma personagem de realidade virtual. Ainda que não explique exatamente como esse vírus funciona, a sua existência fica clara no encontro entre Alice e Tinker, no quarto do hotel. Tinker – apresentando como um profissional de tecnologia da informação – parece ter identificado o padrão que leva o vírus a escolher as personagens a serem copiada. Por isso, ele era o principal amigo de todas aquelas personagens. Apesar de praticamente todas as garotas copiadas estarem mortas, por diferentes, motivos, há mais tempo, não há indicações de que Tinker seja o culpado pelas mortes. Trata-se apenas de um stalker pervertido.

2- O que o vírus faz?  

O vírus escolhe algumas garotas, aleatoriamente,  hakceia suas contas e as recria em realidade virtual. Ainda assim, a reprodução não é perfeita. Algumas pistas são dadas ao longo do filme: por exemplo, a cópia de Lola e a cópia de Babe se utilizam, em momentos diferentes, da mesma frase sobre o bombeiro. Além disso, as cópias interagem somente com outras cópias, por isso o show duplo de Lola e baby foi possível.

Resumindo, o vírus reúne diversas tecnologias já existentes no nosso mundo e as potencializa de forma nociva ao ser humano, no melhor estilo Black Mirror, sem nenhuma intenção de tratar CAM como se fosse uma imitação. Não é.

3- Como Babe não percebeu que estava sendo copiada?

A verdadeira Babe estava morta, em um acidente de carro, conforme Lola descobre, ao fazer uma pesquisa mais aprofundada na internet. Como ela foi copiada, nem o público e nem as colegas preocuparam-se em saber se ela estava viva ou não, afinal, moram em cidades diferentes, trabalham de casa, na maioria das vezes, e estavam constantemente on line – não havia razão para desconfiar. Assim, o vírus agiu por anos, sem ser notado, até que fosse feita a cópia de uma modelo viva. Além disso, no submundo da internet, não necessariamente as pessoas têm contato na vida real. Talvez alguns tarados loucos, como Tinker, tivessem a informação e não a revelassem, de forma a tentar manipular o vírus de algoritmo a seu favor.

4- Como posso ter certeza de que se trata de um cópia virutal?

Se todos os fatores anteriores não foram convincentes, não esqueça de que a cópia não se reconhece em Alice, quando são colocadas frente a frente. Essa falta de reconhecimento decorre da inexistência de autoconsciência e das próprias limitações algoritmo, já demonstradas em algumas repetições. Sim, essas repetições ainda poderiam parecer meros plágios de garotas disputando o mesmo público.

5- Por que Alice volta para o site depois de tudo que aconteceu?

Porque a ambição, a necessidade de fama e busca de dinheiro supostamente fácil superaram qualquer aprendizado com a experiência traumática. Além disso, ao ter conhecimento do vírus, ela acredita estar no controle da situação.

6- Há outras interpretações possíveis?

Em termos estritamente de roteiro, todas as explicações foram dadas. Por outro lado, como tratei na parte sem  spoilers desse texto, há varias críticas sociais tratadas de forma alegórica. Em termos gerais, a cópia pode ser entendida como um reflexo de Alice, que começa a se enxergar como uma pessoa que ultrapassa os limites que ela não quer ultrapassar, que quebra as regras que ela mesma se impôs, enfim, uma projeção da própria culpa – não por acaso, a conta é hackeada logo após Alice ultrapassar os próprios limites e realizar um show ao vivo com o Vibraton. . Além disso, poderia ser interpretada (apenas alegoricamente, uma vez que o filme, felizmente, não escolheu essa solução) como um fracionamento da sua personalidade, como forma de lidar com os distrúrbios causados pelas suas escolhas.

Além disso, há todas as referências diretas ao universo de Alice no País das Maravavilhas e Alice Através do Espelho, a começar pelo nome da protagonista, passando pelos diferentes nicknames dos usuários, como o coelho (rabitt) e o Mr. Teapot. Aqui, temos a alegoria mais evidente ao mundo ilusório da internet e ao pradoxo criado por essa ilusão.

O mais importante de tudo é compreender que CAM tem muitas camadas de interpretação, que se encaixam, perfeitamente, em uma narrativa de suspense e terror psicológico de altíssima qualidade.

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Cam

20181 h 34 min
Overview

Alice (Madeline Brewer) é uma ambiciosa jovem mulher que trabalha com pornografia de webcam. Quando uma misteriosa mulher idêntica a ela toma seu canal, ela se vê perdendo o controle sobre os limites que estabeleceu em relação a sua identidade online e os homens na sua vida.

Metadata
Director Daniel Goldhaber
Writer Isa Mazzei
Author
Runtime 1 h 34 min
Release Date 1 outubro 2018

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