Blade Runner 2049 (2017) – Crítica
  • 08
  • 10

O desafio

Todo crítico de cinema deveria fazer um minuto de reflexão sobre a crítica em si antes de falar de Blade Runner. Hoje é fácil esquecer que, em 1982, o filme que muitos consideram a obra-prima de Ridley Scott foi mal recebido pela crítica. Entre os motivos, muitos falavam que a história era uma desculpa para mostrar efeitos especiais. Ou que a trama era complexa e confusa. Em especial o ritmo compassado e psicológico foi considerado inadequado para um filme de ação. O Los Angeles Times chegou a chamar o filme de Blade Crawler.

O filme teve bilheteria mediana, e só se tornou o gigante que é hoje quando foi lançado em VHS. Hoje  em dia, ao falarmos de ficção científica ciberpunk, Blade Runner talvez seja a primeira obra de referência, comparável apenas a Neuromancer ou Ghost in the Shell (o anime de 1995).

                        Spoiler! A japinha não volta pra continuação!

Denis Villeneuve tinha, assim, uma tarefa bastante perigosa ao assumir o projeto de Blade Runner 2049. Não apenas o filme de 1982 tem uma história fechada e coerente, como fazer uma continuação de uma das obras mais cultuadas da história do cinema poderia parecer algo desnecessário ou até herético para fãs e para o público. Para que remexer em uma obra mais que perfeita? E como conseguir atingir o nível de exigência para que Blade Runner 2049 parecesse pelo menos uma continuação aceitável?

Como agravante, são raras as continuações que  conseguem a proeza  de ao menos se igualarem aos originais (O Poderoso Chefão 2, Aliens, Highlander 2 (não!) e O Senhor dos Anéis – As duas torres são alguns exemplos que me ocorrem). Além disso, quando um filme é lançado em meio a um hype altíssimo e não decepciona, fica uma impressão mais positiva do que uma análise mais atenta pode revelar. Seria o novo filme uma obra-prima? Estaríamos diante de um novo clássico instantâneo do cinema?

Mas Villeneuve já se tornou garantia qualidade. Para mencionar apenas seus últimos dois filmes ,o o diretor canadense comandou Sicário A chegada. Desde que seu nome foi anunciado como responsável pela continuação de um dos maiores clássicos de ficção científica de todos os tempos, ficou no ar a questão: seria ele capaz de entregar uma sequência à altura do filme de 1982 ou veríamos a primeira derrapada de Villeneuve nas telas?

A trama

Apesar de ser quase impossível avaliar se um filme que está estreando nos cinemas agora terá a mesma dimensão histórica de um clássico do cinema, e sabendo que um raio raramente cai no mesmo lugar uma segunda vez, podemos afirmar com tranquilidade que Blade Runner 2049 cumpre a tarefa de entregar não apenas uma continuação digna como também um filme forte e independente. Villeneuve não se limitou a repetir a fórmula de sucesso, como buscou trazer outros enfoques e outras nuances. Blade Runner 2049 não é um mero replicante, mas um filme com mérito por si próprio, sem deixar de ser uma continuação coerente e adequada a história original.

Blade Runner 2049 se passa 30 anos após o filme original. Nesse intervalo, as versões anteriores dos Replicantes – androides biorrobóticos indistinguíveis dos seres humanos por olhos não treinados – foram proibidas. Anos depois, Niander Wallace (Jared Leto) consegue autorização para voltar a fabricar os Replicantes, desta vez em versão totalmente obediente aos criadores.  Algo em seu design impede ou dificulta que ele se torne um rebelde contra os humanos.

Um desses novos modelos é o oficial KD9-3.7 (Ryan Gosling), um dos caçadores de androides (os blade runners do título) responsáveis por localizar e exterminar exemplares remanescentes dos modelos antigos. K se envolve em uma investigação sobre o passado de um determinado replicante, que o levará a refletir sobre o que torna uma memória real e sobre sua própria posição perante à vida.

Se no filme de 1982 tinhamos Deckard, um Blade Runner rebelde que não deseja mais seguir em seu trabalho,  KD9-3.7, ou K, é um Blade Runner exemplar. Aceita perfeitamente seu papel de cidadão de segunda classe (por não ser humano) e seu papel de executor da própria espécie. Sua busca de se distanciar da humanidade é tamanha que o que há de mais próximo de um relacionamento amoroso é com Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial holográfica. Contudo, K acidentalmente acaba por entrar em um caso que o faz questionar se ele realmente é um replicante típico, ou algo mais.

E assim Villeneuve aborda as mesmas temáticas do filme original, sobre o papel das memórias na identidade de uma pessoa, o uso de mão-de-obra escrava por grandes corporações,  o direito a vida, a identidade. Em última instância, sobre o que faz com que sejamos indivíduos e qual nosso papel na sociedade. Mas ao trocar o protagonista de um humano que talvez não seja humano por um replicante que talvez seja mais que isto, Villeneuve consegue jogar novo enfoque às mesmas questões.

Os trinta anos entre os dois filmes geraram mudanças nítidas, que já vemos nos primeiros segundos de filme. Saem os combustíveis fósseis, entra a energia solar, mas tarde demais para impedir um desastre ecológico e radioativo. Com isto novos ambientes se abrem, e o filme vai além da Los Angeles de Ridley Scott. Temos os espaços sombrios, chuvosos e claustrofóbicos da megalópole, mas também espaços abertos e devastados.

O resultado

O maior mérito do filme foi ousar ser uma obra que não se limita a emular o filme original. Ao contrário de apostas menos corajosas recentes (olá, O Despertar da Força), Blade Runner 2049 é um filme com uma proposta própria, sem deixar de ser uma continuação clara e orgânica. Essa opção traz diversas vantagens para o produto final, embora alguns elementos positivos do primeiro filme acabem ficando mais dispersos.

A montagem do filme, sob responsabilidade de Joe Walker (de A Chegada e Sicário, além de 12 Anos de Escravidão) garante que o filme consiga ter um rimo desacelerado sem ser tedioso. O ritmo relativamente lento dos primeiros dois atos pode incomodar quem desconheça o espírito do original e espere por uma aventura futurista na linha de A Vigilante do Amanhã. Embora tenha algumas cenas de ação (que, curiosamente, talvez sejam os trechos menos interessantes do filme) Blade Runner 2049, assim como seu predecessor, é um filme muito mais sobre ambientação e reflexão do que sobre socos e tiros.

Aliás, sobre a ambientação, o espírito de filme noir, um dos grandes achados do primeiro filme, ainda está presente, mas bem mais diluído. Temos referências de cenários e objetos que dialogam mais diretamente com o cyberpunk mais tradicional do que com o retrofuturismo do original. Um exemplo bastante claro é o escritório da chefia de polícia, que parecia saído dos anos 1930 no filme de 1982, e aqui é um ambiente bem mais clean e tecnológico.

Outra diferença entre os filmes é um erotismo muito mais presente na obra de Villeneuve. No original já havia traços nas figuras das replicantes Pris e, principalmente, Zhora. No filme de 2017, são diversas cenas com nudez, um threesome bastante inusitado e um holograma gigantesco – e erótico – pairando sobre a cidade.

Visualmente, o filme é inquestionável. Roger Deakins, diretor de fotografia indicado 13 vezes aos Oscar (passou da hora de premiá-lo, dona Hollywood!) já trabalhara com Villeneuve em Sicário e em Os suspeitos. O veterano cinematógrafo inglês vem apresentando há muitos anos trabalhos que elevam a qualidade dos filmes com os quais se envolve.  Responsável, entre outros, pela fotografia de Operação Skyfall, Bravura Indômita (em sua refilmagem de 2010), O Leitor,   O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford  e Onde os Fracos não Têm Vez, Deakins tem em Blade Runner um espaço de criação ampliado e espetacular. Ele transita dos ambientes escuros e chuvosos da Los Angeles futurista, estabelecidos em 1982, para novos cenários desolados, fora da cidade. Dos ambientes mais clean e quase sagrados, representados pela sede da Wallace Corporation, até a iluminação mais quente e quase aconchegante de uma cidade grande cidade norte-americana abandonada, a fotografia trabalha com maestria, alternado sombras e chuva com cores quentes e secas, espaços fechados e espaços negativos. Isto combinado com um figurino rico e criativo, e uma cenografia que beira a obsessão por detalhes, com cada objeto, roupa ou acessório em cena contando uma história, faz de Blade Runner 2049 uma experiência visual única. Deakins, junto com os responsáveis pelo design de produção e pela direção de arte, faz de Blade Runner um espetáculo visual a cada tomada do filme, em suas quase três horas de duração. O roteiro propiciou um verdadeiro playground para a criatividade visual, e esse espaço foi muito bem aproveitado.

A trilha sonora de Hans Zimmer é ao mesmo tempo similar e muito diversa da icônica trilha de Vangelis. A atmosfera onírica e intensa está presente. Menos romance, mais música ambiental. As músicas diegéticas também fazem referência ao neo-noir, ao jazz, mas de forma menos aconchegante, um tanto destoante, fragmentada. Não há mais nostalgia musical, e sim melancolia e desconexão. Absolutamente adequada ao filme, falta à trilha apenas temas que se perpetuem na memória. Não é por acaso que o auge dramático do filme coincide com o momento em que Zimmer cita claramente a  trilha de Vangelis.

As atuações estão bastante dignas. Gosling e Harrisson Ford (de volta ao papel de Rick Deckard) têm, provavelmente, as atuações mais densas de suas carreiras. Jared Leto e o surpreendente Dave Bautista (o Drax de Guardiões da Galáxia), embora tenham pouco tempo de tela, demonstram terem sido escolhas acertadas para o papel. Entre as atrizes, Robin Wright interpreta a chefe de K e mostra camadas que vão da autoridade à empatia, passando até pelo flerte. Os dois maiores encantos do filme são a atriz cubana Ana de Armas, que vive uma companheira holográfica e amante de K, e Carla Juri, no papel da Doutora Ana Stelline, responsável pela criação das memórias artificiais dos Replicantes. A única nota um pouco fora do tom é a da atriz neerlandesa Sylvia Hoeks, intérprete de Luv, uma Replicante-braço-direito de Wallace.

Gosling nos apresenta um K (ou devo chama-lo de Joe?) minimalista, sempre buscando manter-se preso a seus parâmetros base e manter-se obediente, adequado, mas que acaba sendo carregado em um turbilhão. Sua postura blasé traz uma corrente subterrânea de emoções que não necessitamos de um teste Voigt-Kampff para percebermos. Ana de Armas consegue ser ao mesmo tempo mecânica, impessoal, sensual, romântica e inumana. Dave Bautista nos traz um Sapper Morton intenso, dramático, trágico. Mas o destaque entre os atores vai para Harrison Ford. Em uma das suas melhores atuações dos últimos anos, Ford traz um Deckard não apenas envelhecido, mas traumatizado, abatido, mas ainda capaz de ser quem era há 30 anos. Deckard é um personagem tão forte que mesmo entrando em cena apenas no terceiro ato do filme, se faz presente desde o início.

Além de todas estas qualidades, os fãs de Blade Runner ainda serão premiados com diversas referências visuais e narrativas ao primeiro filme, presentes a todo momento. É possível assistir Blade Runner 2049 sem ter visto o primeiro filme, mas é mais que recomendável que você assista o clássico antes da continuação. Não apenas por que é um dos melhores filmes da história, mas também o ajudará e muito para você apreciar a qualidade do filme em cartaz.

É perfeito?

Blade Runner 2049 tem algumas sobras no roteiro, como, por exemplo, pelo menos uma subtrama que parece estar ali apenas para deixar espaço para eventuais continuações. Há a aparição de um personagem do filme original logo no primeiro ato do filme que serve exclusivamente de fan service. No terceiro ato, o filme traz suas melhores e piores partes: há uma sequência na Wallace Corporation que é ao mesmo tempo surpreendente e previsível (sim, isso mesmo: você toma um susto, mas sabe o que vai acontecer em seguida).  Jared Leto repentinamente tem um diálogo de vilão de filme comum e Luv protagoniza cenas dignas de uma capanga caricaturesca de filmes do 007. Tudo isso é compensado por uma sequência final muito bem escolhida e executada.

Mas é bom?

Não. É muito bom, é ótimo. Longe de entrar na discussão sobre se é ou não uma obra-prima,  Blade Runner 2049 mostra cinema em altíssimo nível. Villeneuve passa em mais um teste dificílimo com nota alta. Dificilmente o filme terá o mesmo impacto e importância que seu predecessor, mas mesmo assim, não apenas uma continuação, mas um filme capaz de lançar novas luzes em uma obra tão conhecida.

Para Mais, leia o texto: Entendendo o Universo Blade Runner

E assista a nossa Mesa Quadrada Sobre Blade Runner:

 

por Aniello Greco e D.G.Ducci

Not rated yet!

Blade Runner 2049

20172 h 43 min
Overview

Trinta anos após os eventos do primeiro filme, K, um novo blade runner, oficial da LAPD, desvenda um segredo há muito enterrado que pode potencialmente mergulhar no caos o que resta da sociedade. A descoberta de K leva-o numa missão para localizar Rick Deckard, um antigo blade runner da LAPD, desaparecido há 30 anos.

Metadata
Director Denis Villeneuve
Writer
Author
Runtime 2 h 43 min
Release Date 4 outubro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 18    Média: 3.9/5]
  • Maurício Costa

    A critica que este filme merecia!

  • Lucas Albuquerque

    A crítica é quase maior que o filme, em tamanho e em qualidade

  • Celso Timoteo

    Parabéns pela crítica

  • Chico Lopes

    É realmente bom. Fiquei muito ligado em Ana de Armas, que me parece uma estrela pintando. Senti que a procura da mesma atmosfera de melancolia do primeiro funcionou bem: a desolação daqueles conjuntos habitacionais na periferia de LA foi um achado, pois a acentuou. Gostei da Las Vegas em ruína, e ainda cafona em seu hologramas, onde Deckard foi se esconder. Gostei, na verdade, de muita coisa, e acho que há uma brecha para continuidade na história de Joe e suas memórias implantadas.