Black Mirror Bandersnatch: Filme ou jogo?
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Uma das grandes novidades da Netflix este final de ano é a continuação da série Black Mirror. Mas desta vez tudo é bastante diferente. Ao invés de uma nova temporada, temos um longa metragem de, em média, 90 minutos.Isto mesmo, em média. Black Mirror Bandersnatch é um filme interativo. A medida que assistimos (ou seria melhor usar o termo jogamos?) a história, durante as cenas, e sem pausas, aparecem menus  de quais escolhas o personagem principal irá adotar. Estes menus são acessíveis tanto pelo computador quanto pelo controle remoto de sua SmartTv, ou pela tela do celular/tablet. Não é a primeira ficção interativa do cinema. Já tivemos isto na versão DVD de Premonição 3, mas em escala bem menor. E há alguns conteúdos interativos disponíveis na própria Netflix (todos infantis). Mas Bandersnatch leva isto para um nível acima de interação.

De início escolhemos coisas supérfluas, como qual cereal comer ou que música escutar, mas a medida que a história avança, escolhas mais dramáticas aparecem. A história se passa em 1984, quando acompanhamos Stefan Butler (Fionn Whitehead) criar um videogame baseado em um livro-jogo, e vendê-lo para uma recém criada empresa de jogos, Tuckersoft. Na empresa Butler tem a chance de conhecer seu ídolo, Colin Ritman (Will Poulter), um bem sucedido programador de jogos. A medida em que Butler vai desenvolvendo o videogame, vai tomando consciência de que suas decisões são controladas por alguém (no caso, nós), o que o leva a questionar suas concepções de realidade.

A grande sacada de David Slate é fazer com que o fato de ser um filme interativo e que possamos refazer nossos passos faça parte do próprio roteiro do filme. As autorreferências e o rompimento da quarta parede são convincentes e funcionais, gerando tanto humor quanto estranhamento. O fato de muitas decisões serem aparentes não incomoda. Primeiro por que há um conjunto de decisões chaves que alteram completamente a história, e segundo por que mesmo as decisões sem relevância levam a cenas de continuação bastante orgânicas. A transição entre as diversas linhas de tempo possíveis é feita de modo suave e continuo, dando uma experiência muito próxima a de um filme típico, sem prejuízo a interatividade.

O principal esforço criativo foi direcionado a interatividade. Não espere grandes méritos no tocante a fotografia, composição de imagens, edição, linguagem de câmera, etc. No que diz respeito a cinema propriamente dito, Bandersnatch é bem simples e nada inovador. Mas se pensarmos nos desafios de edição e de interpretação gerados pela necessidade de filmar cada decisão, cada consequência, e manter a continuidade, podemos entender a escolha. Lembremos que se trata de um filme com cinco finais e trilhões de caminhos possíveis.

Quanto a interpretação, Whitehead está muito, muito bem. A variação entre os níveis de paranóia e insanidade, dependendo do momento e das escolhas de Stefan é o essencial para narrativa. Sem isto não teríamos a tensão e suspense necessárias ao(s) clímax(s). Depois de passear por três vezes pelas escolhas do filme, passei a conhecer diversos Stefans Butler, todos muito convincentes.

Outro destaque vai para trilha sonora, que explora na medida certa o saudosismo dos anos 80, trazendo alguns clássicos da época de forma muito competente. O saudosismo vai além da trilha: a reconstituição do mundo nerd dos gamers de 30 anos atrás é também muito competente.

A experiência final de assistir/jogar Bandersnatch é bastante divertida e diferente. Esta mais próxima de um filme que de um videogame, mas a interatividade é o motor central aqui. Não vai entrar para a história do cinema, talvez sequer seja cinema propriamente dito. Mas merece elogios por explorar os limites desta arte narrativa, e até da interface que a Netflix representa.

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Black Mirror: Bandersnatch

20181 h 30 min
Overview

Metadata
Director David Slade
Writer Charlie Brooker
Author
Runtime 1 h 30 min
Country  United Kingdom
Release Date 28 dezembro 2018

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