Bingo: O Rei das Manhãs (2017) – Crítica

Primeiro comentário (talvez seja desnecessário, mas vai que…): Bingo: O Rei das Manhãs NÃO é um filme infantil sobre um palhaço. Não sei se é uma boa ideia levar o filhão para ver o ícone que você acompanhava na infância… terão cenas de sexo, consumo de drogas e palavrões. A classificação de 16 anos não é à toa… mas claro, cada responsável sabe o que é melhor… só fica o aviso…



Bozo já era um palhaço famoso nos EUA em um programa líder de audiência (o Krusty dos Simpsons é uma paródia dele, por exemplo). Quando chegou ao Brasil a marca lá fora já estava bem estabelecida. Mas teve que ter adaptações para funcionar bem em terras tupiniquins. Afinal, como diria Tom Jobim (em um frase citada no filme), “Brasil não é para principiantes”.

Em Bingo: O Rei das Manhãs, pra valer, temos a história de Arlindo Barreto, o primeiro intérprete do palhaço Bozo no Brasil. Por questões de direitos autorais os nomes são trocados para Augusto Mendes e Bingo (interpretados, brilhantemente, por Vladimir Brichta). Da mesma maneira que as emissoras Globo e SBT tem equivalentes bem explícitos. Vou aqui adotar os nomes visto na obra.

O foco não está só na criação do personagem Bingo e nos conturbados bastidores do programa de televisão. Para além de um filme sobre palhaço ou até sobre TV, temos o drama de um homem. Todas as relações: ex-esposa, filho, mãe, interesse amoroso, chefe, amigos estão lá. Augusto Mendes começou a carreira como ator de pornochanchada e levou uma vida regada a festas, bebedeira e sexo – algo um tanto torto para um animador infantil. Há também o rosto oculto por debaixo da maquiagem que, por contrato, não podia ser revelado, o que causava um descontentamento em Mendes – e que geram cenas bem emocionantes.

Um dos grandes destaques do longa é a ambientação oitentista. O design de produção é dos mais cuidadosos. Já na abertura somos convidados a entrar naquele mundo. Para os que viveram a época é um soro de nostalgia. Várias referências seguem aparecendo ao longo do filme, em um fanservice para os trintões e quarentões.

Alguns podem estranhar ver a figura da Gretchen (uma das poucas que manteve o nome) rebolando, com pouca roupa, na frente de crianças – algo normal para a época. E a briga pela audiência é bem retratada e chega ao ápice em uma provocação explícita feita pelo Bingo, ao vivo, algo também comum.

Outro ponto muito positivo é a atuação, em especial de Vladimir Brichta. A tal “verdade” que os atores buscam é plenamente alcançada aqui. Sem esforço aparente, mas com certeza com muita dedicação, talento e estudo prévio, Brichta entrega um dos melhores trabalhos da carreira. A fisicalidade necessária e as transformações, por vezes assustadoramente sutis, de Mendes para Bingo, elevam esse quesito. Por mais que ele carregue o filme nas costas, vale o destaque para a atuação mirim de Cauã Martins. O jovem transita bem pelos sentimentos exigidos e tem mais de uma cena destacável.

Todos os méritos não maquiam alguns problemas: fica nítido que havia um material filmado que, talvez por questões de direitos ou pudor, não foi para o ar. Para preencher essa lacuna, muitas cenas de transição ou momentos desnecessários são vistos. Dando, na virada do segundo para o terceiro ato uma arrastada em Bingo: O Rei das Manhãs. Esses momentos ficam ainda mais desequilibrados se comparar com a graciosidade do começo e o bom peso do final.

Uma pena a montagem não ser algo elogiável aqui. O Diretor Daniel Rezende faz a estreia nesta função, porém ele é um montador consagrado por filmes como Árvore da Vida, Robocop e uma das melhores montagens do nosso cinema: Cidade de Deus. Mas a direção em si é bem positiva, ainda mais para um primeiro trabalho. Rezende consegue extrair o melhor das relações entre os personagens e dizer muito em cenas curtas.

A conversa dele com a direção de fotografia foi essencial. Os planos não são preguiçosos e há um caos condizente com o biografado. O uso da luz e sombra em mais de um momento diz muito sobre os personagens. A cena de Augusto com a mãe é tão linda que pode arrancar inesperadas lágrimas. Por outro lado falta sutileza como na ausência de animação das crianças nas primeiras exibições dos programas ou nos diálogos com os chefes da rede Mundial (a emissora que seria a Globo). E parece que ele não acredita no próprio texto ao inserir um apresentador de telejornal que explica por três vezes o que está acontecendo (se ficasse só na primeira aparição estaria perfeito).

Bingo: O Rei das Manhãs tem uma carga dramática forte. O público será facilmente cativado pelas desventuras desse anti-herói em um retrato que extrapola o uso comum do palhaço triste. Contudo, temos um exemplar de um personagem que é maior que o filme que o abraçou.

Not rated yet!

Bingo - O Rei das Manhãs

Overview

Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo exibido pelo SBT durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa.

Metadata
Director Daniel Rezende
Writer Luiz Bolognesi
Author
Runtime
Country  Brazil
Release Date 24 agosto 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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