Barry Lyndon (1975) – Cinema é a sétima arte
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Cenas das Críticas Anteriores

Já analisamos 20 anos da odisséia de Kubrick. Conhecemos os 3 curtas jornalísticos feitos em 1951, e Fear and desire, seu longa de estréia, obras não muito bem-quistas pelo diretor. Depois vimos a jornada pelo cinema noir, com A morte passou por perto e O Grande golpe. Com Kirk Douglas, Kubrick produz Glória Feita de Sangue e Spartacus, e em 10 anos de carreira tem seu talento reconhecido. Com Peter Sellers produz duas comédias, Lolita e Dr. Strangelove. Apos isto produz o melhor filme de ficção científica de todos os tempos, 2001 – Uma odisséia no Espaço.  E em seguida, o polêmico e revolucionário Laranja Mecânica.

Apesar de, em 20 anos de carreira, ter dirigido apenas 8 filmes, os 3 primeiros sem muito impacto, Stanley Kubrick conseguiu estabelecer um nível de confiança e independência com os estúdios de Hollywood jamais visto no cinema. Era um diretor que demorava anos em seus projetos, e comumente estourava orçamentos. E mesmo assim sempre entregava um filme que conseguia ser sucesso financeiro, sucesso de crítica, e revolucionário para a sétima arte. Graças a este histórico Kubrick recebeu carta branca da Warner Studios para seu nono filme, sem nenhuma pressão de prazo ou orçamento, e com garantia de total controle da edição final.

Filmado em regime de total segredo, em 1975 o mundo do cinema foi chacoalhado mais uma vez com Barry Lyndon.

Barry Lyndon

A escolha de Barry Lyndon, baseado no livro The Luck of Barry Lyndon, de  William Makepeace Thackeray, provavelmente começa com o fracasso do projeto de Kubrick de filmar uma biografia de Napoleão. O século XVIII aparece em vários de seus outros filmes, seja no castelo francês de Glória Feita de Sangue, no quarto de hotel do final de 2001 ou no delírio final de Alex em Laranja Mecânica. E reaparecerá como referência estética para De olhos bem fechados.

Este é o século das luzes, a era da razão, o período histórico que lanças as bases dos conceitos atuais de Estado de Direito, Democracia, direitos humanos. E também é o fim da aristocracia como classe dominante. Mas também trouxe a barbárie das Guerras Napoleônicas, o Colonialismo, o tráfico negreiro. A Europa, em especial a Inglaterra, se firma como liderança mundial, com toda sua glória feita de sangue. Período perfeito para Kubrick nos presentar com a dualidade de razão e violência típicos de sua obra.

Barry Lyndon é um retrato desta era. Não uma reprodução, não uma fotografia jornalística, mas um retrato. Um quadro onde o pintor seleciona o que mostrar, de forma aparentemente realista, mas onde cada traço é pensado com um senso estético e uma mensagem. Não que ocorra em mentiras ou distorções, pelo contrário. Em termos de fidelidade histórica, tanto narrativa como visualmente, Barry Lyndon é quase um documentário. Mas toda vez que queremos narrar o passado, estamos comentando, e não o reconstruindo. E Barry Lyndon sabe disto, e se assume como um recorte do século XVIII para o século XX.

Lentes da Nasa fotografando o século XVIII

The Mall in St. James’s Park de Thomas Gainsborough

Kubrick inspirou-se nas artes plásticas do século XVIII, principalmente em pintores como Jean-Antoine Watteau, Thomas Gainsborough e Hogarth . As pinturas da época foram a principal inspiração para as locações, figurino e maquiagem. Kubrick deu muito pouca liberdade de criação para Milena Canonero e Ulla-Britt Söderlund para o figurino. Tudo se baseou em quadros da época e em roupas históricas, adquiridas por Kubrick pessoalmente, e copiadas pelas figurinistas ponto a ponto.

Mas uma boa fotografia não se resume a boas locações e figurinos precisos, mas principalmente iluminação e composição de imagens. E é exatamente aí que reside os méritos mais famosos da obra. Kubrick determinou que Barry Lyndon fosse filmado com o mínimo possível de luz artificial. Nas cenas externas usou-se apenas a luz natural, e nas internas, luz de velas nas cenas noturnas, e as luzes vindas das janelas dos castelos para as cenas diurnas. Nestas, um pouco de luz artificial era usada ocasionalmente, mas sempre pelas janelas e usando técnicas para emular a luz solar.

Mesmo com as câmeras mais modernas é praticamente impossível tirarmos boas fotos noturnas apenas com luz de velas. Imagine então filmar. Para conseguir a proeza Kubrick teve que se utilizar de lentes especiais Zeiss, nunca antes usadas no cinema. Foram as lentes usadas pela NASA para filmar os astronautas da missão Apolo na Lua. Somente com lentes de tecnologia espacial foi possível filmar cenas noturnas nos castelos da Irlanda da mesma forma como os castelos eram iluminados no século XVIII. Contradições temporais que só o cinema gera.

Mas isto não se fez sem custo. E não estou apenas falando do custo financeiro. Em fotografia, quanto mais sensível a luminosidade a lente é, menor sua profundidade de campo. Ou seja, apenas um espaço muito pequeno do cenário pode ficar em foco ao mesmo tempo, exigindo que os atores se locomovessem o mínimo necessário para a cena. Em muitas cenas, os extras permanecem praticamente estáticos.

O que com certeza foi um problema para atores e figurantes (image o que é fazer 30 ou 40 takes da mesma cena, sem quase se mover, em um cenário com luz insuficiente até para se ler) acabou por gerar um poderoso efeito estético. Temos um visual praticamente idêntico aos quadros da época, em especial com os rostos de maquiagem pesadíssima (incluindo as pintas de beleza, moda na época) e a luz quente e irregular das velas.

Combine isto com o uso de imagens diurnas com filtros gerando baixo contraste, e temos uma dualidade de tons. De dia, a luz branca solar a tudo ilumina, mas de forma a suavizar as cores, em tons mais pastéis e frios. A noite temos sombras e cores quentes, insinuantes. Isto combina com o jogo de aparências da sociedade da época. A vida pública diurna, com códigos rígidos de conduta, moral inquebrantável, honra, razão. A vida noturna, febril, erótica, clandestina.

Em parte devido a pouca profundidade de campo, Kubrick move pouco a câmera em Barry Lyndon. Conhecido pelo extenso uso de travelings, aqui o diretor move bem menos a câmera. Em compensação usa constantemente o zoom out. Em especial nas cenas externas, é comum que o diretor comece a cena em um plano médio, e vá abrindo de modo exibir todo o cenário, mas também nos afastar dos personagens, que se tornam figuras em um esquema mais abrangente.

A composição de imagens também é exemplar. Kubrick sempre foi obcecado por fotografia, e é conhecido pelo uso da simetria e do ponto de fuga como recurso para criar imagens imersivas. Isto se repete diversas vezes em Barry Lyndon.

 

Mas assim como nas quadros iluministas, outros recursos de composição aqui são usados com frequência. Em especial a regra dos terços e a proporção áurea. Sem entrar em detalhes técnicos desnecessários, são métodos de dispor os objetos e pessoas em cena de tal forma que a percepção estética não seja apenas agradável, como também nossos olhos passeiem pela tela percebendo a relação entre os detalhes.

Não é a toa que Barry Lyndon  não apenas levou o Oscar de melhor fotografia , design de produção e figurino, como além disto é conhecido por ser uma das melhores fotografias da história do cinema. É inegável, trata-se de um dos filmes mais belos e mais artísticos já feitos.

Sarabande

Alem dos Oscars acima citados, o filme ainda levou o Oscar de Melhor Trilha Sonora. Algo um tanto atípico, se lembrarmos que não há composições compostas originalmente para a obra. Kubrick escolheu apenas músicas eruditas dos séculos XVIII e algumas poucas do XIX. Mas muitas das músicas foram adaptadas para maior dramaticidade. O tema principal do filme, Sarabande, de Handel, serve tanto como tema romântico, de tensão, e até para momentos fúnebres. Alem de Handel temos Mozart, Vivaldi e Schubert, entre outros.

Combinando as imagens precisas da época, com músicas do mesmo período histórico (ou muito próximo), temos uma completa imersão temporal. E com os arranjos de Leonard Rosenman temos a construção narrativa de um constante clima de elegância melancólica e inevitabilidade.

Frieza e insensibilidade

Mas mesmo assim, este foi o maior fracasso de público de Kubrick desde o sucesso de Spartacus. Não apenas o público, mas muitos críticos da época acusaram o filme de merecer estar em paredes de museus, e não em salas de cinema.  Redmond Barry é um protagonista difícil de criarmos empatia. Um desertor de não apenas um, mas dois exércitos. Marido infiel, que casou por puro interesse. Padrasto violento. Trapaceiro, inconsequente, o herói de nosso filme não é o melhor que a humanidade nos oferece.

Mas também não conseguimos odiá-lo. Vemos de onde surge seu cinismo e frieza, vemos o amor inocente e pueril por sua prima, e por seu filho. Sua honra, mesmo que torpe, em seu último duelo. Seu desespero ao perceber seu fracasso.

E também não conseguimos simpatizar por nenhum de seus oponentes. O oficial inglês covarde e prepotente, a esposa passiva e distante, o enteado arrogante e irascível. E no final do filme, o próprio Kubrick reduz tudo a irrelevância, comentando textualmente que hoje, mais de dois séculos depois, todos os personagens, não importando sua natureza, estão em pé de igualdade. Mortos.

Combine isto com um narrador onisciente que antecipa as reviravoltas, quase que dando spoilers do roteiro, em tom distante e cínico. Aparentemente Barry Lyndon é uma longa sucessão de belas imagens e uma narrativa fria, distante e sem impacto. Eu mesmo, antes de começar esta série de críticas, não o tinha em grande apreço, exatamente por esta questão. Mas ao revê-lo com olhos mais maduros, tive que reformar minha opinião.

E mesmo hoje talvez boa parte do público ainda tenha esta reação. Mas, como toda obra de Kubrick, Barry Lyndon superou a rejeição inicial e foi ganhando respeito e notoriedade com o passar do tempo. Talvez de forma mais lenta que os demais.  Mas hoje muitos consideram como um dos melhores filmes do diretor. Martin Scorcese já declarou inclusive ser seu Kubrick favorito (assista 2001 até corrigir este erro, mestre!).


A frieza que encontramos em Barry Lyndon é apenas aparente. Temos composições quase estáticas dominando o filme. Personagens com grossas maquiagens e postura blasé. E um constante esforço em afastar o espectador do fluxo dramático. Não é apenas a câmera que se afasta das cenas, mas a própria narrativa. Temos diversas cenas que são desfiles ou espetáculos. E o próprio esforço de Redmond Barry em conquistar o status de aristocrata, e a furiosa rejeição dos homens bem nascidos de sua tentativa, tem tons de pantomina, de artificialidade. Mesmo os momentos mais repletos de fúria, a Guerra e os duelos, são ritualísticos, formatados em códigos de conduta supostamente racionais e corretos.

Mas a humanidade se recusa a ser emoldurada, e as emoções reprimidas se rompem não apenas em relações neuróticas e vazias, mas em catástrofes. A disposição de lutar pela amada até a morte acaba por afastar Redmond de sua prima de forma definitiva. A busca de sair do exército e da guerra o leva para um exército ainda mais brutal, e uma guerra ainda mais violenta. A luta para conseguir um título de nobreza apenas escancara a rejeição dos aristocratas ao novo rico. E a busca de agradar e proteger seu filho acaba por matá-lo.

Como uma tragédia grega, Barry Lyndon é uma história sobre destino e morte. Por detrás de toda a pompa e elegância, os animais humanos lutam por seus quinhões, sem perceber que no grande esquema das coisas, serão todos iguais no futuro. Cadáveres. E todas as conquistas e fracassos serão igualmente esquecidos. Então o que realmente importa não é o sucesso, ou a honra, ou as satisfações a serem tomadas, mas os amores conquistados ou destruídos. E a busca por não ter que dormir sozinho em sua casa em meio a guerra.

Barry Lyndon não nos afasta por ser frio, mas para que vejamos todo o quadro, entendamos o retrato. Não é uma história de um pequeno burguês tentando ser nobre. É a história de uma época. E também a história do gênero humano.

Cenas da próxima crítica

E chegamos ao filme que rendeu a indicação de Stanley Kubrick ao Framboesa de Ouro de 1980 como pior diretor. Isto mesmo, aquele que é tido por muitos como o melhor filme de terror já feito recebeu duas indicações ao Framboesa: pior diretor para Stanley Kubrick, e pior atriz para Shelley Duvall. Mas provavelmente quem mais odeia o filme é Stephen King, autor do livro no qual o filme se baseia. Ou seja, o padrão se mantêm. Como todos os filmes de Kubrick, a recepção de O iluminado foi no mínimo polêmica.

De forma similar a 2001, Kubrick se arrisca em um filme de gênero. Se é verdade que o terror já tinha mais filmes clássicos em 1980 que a ficção científica em 1968, ainda assim era considerado um gênero menor, menosprezado pelos grandes diretores e pela crítica. Até hoje ainda há este preconceito, em escala bem menor, e um dos responsáveis é exatamente O iluminado. Saimos do labirinto social e pomposo de Barry Lyndon para o labirinto literal do Hotel Overlook.

Nota do Razão de Aspecto

 

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