Assassinato no Expresso do Oriente (2017) – Crítica
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De acordo com o Livro Guinness, Agatha Christie é a autora mais vendida de todos os tempos. Seus 66 romances e 14 livros de contos, somados, só perdem para a Bíblia e para Shakespeare entre as obras mais lidas no planeta.  Entre as criações da autora, destacam-se as estreladas pela simpática Miss Marple e pelo nem sempre tão simpático detetive belga Hercule Poirot. Dentre os livros mais famosos com Poirot como protagonista, encontra-se “O assassinato no Expresso do Oriente”, publicado em 1934, que ganhou uma excelente adaptação para o cinema em 1974, nas mãos do diretor Sidney Lumet.

Diante disso, fica a pergunta: seria uma ousadia do ator e diretor inglês Kenneth Brannagh adaptar novamente uma obra tão conhecida?  Ficaria seu filme a mercê da comparação com a versão de 1974?   A resposta é que Assassinato no Expresso do Oriente, lançamento desta semana nos cinemas brasileiros, sobrevive aos desafios. Para os que já conhecem a história – e, por consequência, seu inusitado desfecho -, Brannagh entrega um filme com um ritmo bom e uma construção de Poirot (vivido pelo próprio diretor) competentíssima.

Para nunca leu o filme ou viu o filme anterior, temos uma história de detetive com tons de drama e comédia aqui e ali, que vale à pena a ida ao cinema. A trama é focada em um assassinato (…) em um trem (…) vindo do oriente (hurray!). Presos no trem por causa de uma avalanche, os passageiros serão interrogados pelo detetive Poirot, que tentará montar o quebra-cabeças da morte de um empresário estadunidense.

A parte visual do filme, em virtude das possibilidades tecnológicas, é obviamente muito mais grandiosa que na década de 1970. Temos uma Istambul de tirar o fôlego e uma paisagem do local onde o trem fica retido de proporções igualmente gigantescas – e que criam uma interessante metáfora bíblica (não é a única!) expressa por uma das personagens.

Se o elenco de 1974 era estelar, com Albert Finney, Lauren Bacall, Sean Connery, Ingrid Bergman, Michael York e companhia, o filme atual não fica muito atrás: além de Brannagh, temos Michelle Pfeiffer, a dama Judi Dench, Johnny Depp (finalmente sem fazer careta!), Penelope Cruz, Daisy Ridley (a Rey de Star Wars: o despertar da Força), Sir Derek Jacobi, Willen Dafoe e Josh Gad entre os nomes mais famosos.  Leslie Odom Jr. , Lucy Boynton, Tom Bateman, Manuel Garcia-Rulfo, Marwan Kenzari, Sergei Polunin e Olivia Colman completam o elenco principal.

É claro que, com tantos personagens relevantes envolvidos na trama, nem todos podem brilhar com a mesma intensidade. O destaques positivo fica para Pfeiffer, cada dia melhor, e aqui ajudada pelas diversas camadas de sua personagem, a milionária norte-americana falastrona Mrs.Hubbard. Os destaques negativos vão para Lucy Boynton e Sergei Polunin, como Condessa e Conde Andrenyi. Talvez o problema nem seja a atuação dos dois, mas a adaptação de seus personagens, bastante diferentes do livro.

Aliás, há sim diversas alterações em relação ao livro no roteiro escrito por Michael Green (que emplacou “apenas” Logan e Blade Runner 2049 este ano). A mais clara delas é fusão de dois personagens, o Coronel Arbuthnot e o Doutor Constantine, no livro, tornaram-se Arbuthnot, o médico, no filme. Ademais disso, há algumas mudanças de nacionalidade, criações sobre o backgrounds dos personagens e uma pequena subtrama a mais envolvendo um deles.  O roteirista consegue inclusive encaixar críticas ao preconceito de etnia e de origem geográfica não existentes no livro.

Essas mudanças, entretanto, preservam totalmente o espírito geral do livro – exceção, reitere-se, em relação aos Andrenyi. Foram incluídos, ainda, um prólogo inexistente na obra original – que explica porque a polícia estava tão agradecida a Poirot no início do livro – e um epílogo que cria uma camada a mais no arco emocional do detetive e aponta para a continuação (sim, Morte no Nilo já tem luz verde pra acontecer!).  O cenário onde Poirot reúne os passageiros para relevar quem é o culpado também muda em relação ao livro, e a rima visual criada é sensacional. Para os que estão sendo apresentados à história pela primeira vez, a investigação pode parecer um pouco confusa e os saltos de raciocínio de Poirot um pouco forçados. Mas não culpe o filme – no livro o detetive também faz algumas ilações nem sempre baseadas em provas tão evidentes.

O que nos traz a Kenneth Brannagh: seu Poirot é fisicamente bem distinto do homem baixo e com a cabeça “em formato exato de um ovo”, descrito por Christie. Por outro lado, o ator-diretor respeita o espírito do personagem, e fica mais explícito do que no filme de 1974 que um dos grandes segredos para resolver os crimes é seu traço de transtorno obsessivo compulsivo. Poirot é tão obcecado pela ordem que o que dela escapa salta a seus olhos. Do tamanho dos ovos de seu café da manhã até gravatas tortas ao longo do filme, o Poirot de Brannagh vive em um mundo atormentado pela imperfeição.  Seu bigode – maior e mais espalhafatoso que em outras adaptações do personagem – provavelmente agradaria a autora do livro, que reclamou do bigodinho de Albert Finney no filme de 1974. Este Poirot é um homem ligeiramente mais de ação do que seu contraparte literário, mas o filme usa esses momentos com uma enorme economia e ponderação. Sobra apenas um par de cenas em que o detetive chora um amor do passado, que – ajudem-me, fãs, se eu estiver enganado – não existe nas histórias de Christie.

Assassinato no Expresso do Oriente altera um pouco, mas respeita muito o material original, e diverte tanto os que já sabem quanto os que não conhecem seu final. A nota fora do tom é a trilha sonora de Patrick Doyle – por vezes extremamente indicativa e piegas. De resto, é uma releitura bastante digna do clássico livro, e deixa um gosto de “quero mais” do Poirot de Brannagh.

 

 

 

 

 

 

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Assassinato no Expresso do Oriente

20171 h 54 min
Overview

O que começa como uma luxuosa viagem de comboio pela Europa rapidamente se torna num dos mais elegantes e emocionantes mistérios alguma vez contado. Baseado no best-seller de Agatha Christie, "Um Crime no Expresso do Oriente" conta a história de treze estranhos presos num comboio e onde todos são suspeitos. Um homem a correr contra o tempo para resolver o enigma antes que o assassino ataque novamente. Kenneth Branagh realiza e lidera um elenco repleto de estrelas como Penelope Cruz, Willem Dafoe, Judi Dench, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Daisy Ridley e Josh Gad

Metadata
Director Kenneth Branagh
Writer
Author
Runtime 1 h 54 min
Release Date 3 novembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 6    Média: 3.7/5]
  • Leonardo Neves

    Excelente filme, excelente crítica!