As Duas Irenes tem uma premissa curiosa, mas escorrega em alguns pontos…

O tema do duplo é amplamente explorado na arte. O cinema, claro, tem vários ícones com premissas distintas. Clones “reais” ou apenas metafóricos advindo de um antagonista, por exemplo, são bem comuns. Mesmo com tanta abundância, parece que ainda há fôlego para o tema, vide o que nós vemos em As Duas Irenes.

O longa, com passagem por alguns festivais, como o Berlim e multipremiado em Gramado, traz Irene (Priscila Bittencourt ), uma garota de 13 anos que descobre que o pai tem uma outra filha da mesma idade também chamada Irene (Isabela Torres), advinda de um relacionamento extraconjugal. A “primeira” Irene fica com um natural pé atrás diante da descoberta. Mas o fato novo gera um impulso na menina e ela acaba se aproximando da meia irmã.

Vemos uma sensível abordagem sobre descoberta e crescimento. A Irene de Isabela é um tanto diferente da contraparte. Enquanto a Irene de Priscila é tímida, nunca se relacionou com um garoto e vive uma vida um pouco mais abastada, Isabela tem nas mãos uma personagem cheia de si, namoradeira e mais sociável – ainda que viva de modo mais modesto.

Todo esse choque cria uma tensão apaziguada pelo olhar de espelhamento. O relacionamento da dupla tem várias nuances. Algo na fronteira entre a inveja e a admiração é desenvolvido. Em suma: uma relação humana. Note como as atitudes de uma passam a integrar o rol da outra. Destaca-se uma cena onde Irene II está tomando banho e a Irene I a olha fixamente.

Aqui cabe uma nota sobre uma decisão corajosa do diretor Fábio Meira. Há momentos de nudez das atrizes, que possivelmente têm uma idade próxima ou igual às personagens que interpretam. Tal opção poderá ser condenada por alguns, mas o que vemos na tela é zero sexualização criminosa. O que aquele contexto evidencia é um olhar natural. Acho mais criticável colocar, em outro contexto (e essa palavra é fundamental aqui), uma mulher de calcinha apenas para deleite masculino, como foi em Amityville: o Despertar ou em um Transformers….

Voltando à programação normal, há um viés feminista no filme sem ser panfletário ou que pese mais que o texto. As atitudes que podemos encarar como machistas são colocadas também de forma natural, pois ainda é comum em cidades pequenas. A atitude das meninas em um certo ponto da narrativa encaro como muito mais eficaz que a mensagem vista em Como Nossos Pais, exatamente pela artificialidade vista naquele em contraponto à fluidez daqui.

O duplo aqui tem traçados múltiplos. Irene (a que seguimos como fio narrativo) olhando para a irmã mais velha e para a mais nova, além é claro da outro Irene… uma paquera com os garotos é bem marcada essa volta, o andar e olhar são tão expressivos que quase vemos o pensamento da menina, o jeito como a cena é finalizada é também preciso. O espelho, obviamente, também é explorado. Os reflexos ganham viço em uma busca que parte da posição etária, social e familiar da protagonista.

Para além das personagens principais, rebeldes com causa eu diria, o universo em volta é rico. Lógico que os coadjuvantes não têm o mesmo peso, porém o time encabeçado pelos veteranos Marco Ricca, Inês Peixoto e Teuda Bara. Uma lamentação, um ronco ou um jeito de se portar à mesa têm camadas possibilitadas por esse elenco. O premiado design de produção também ajuda na construção desse mundo de contrastes. Há uma certa leveza que expõe os objetos sem gritar.

Como pontos negativos, na parte técnica, saliento a montagem que apostou em algumas imagens bucólicas e no ritmo mais lento em alguns momentos. Com tanta grandeza daquelas personagens acabou soando como uma perda de tempo ir por esse outro caminho. Agora o que mais afetou a experiência foi a mixagem de som. Muitas transições ficaram desreguladas, quando a trilha entrava o fazia de modo muito mais alto e diversas falas estavam inaudíveis – problema que pode ter vindo desde a captação…

Esses descompassos tiram o brilho da gostosa e instigante narrativa e das boas opções da direção de Fábio – primeiro longa de ficção do diretor. Em entrevista ele afirmou que houve um extenso processo seletivo para a escolha das Irenes, esse suor fica refletido em tela. Elas afirmaram, também, que tiveram uma boa dose de improvisação, o que corrobora com a naturalidade desenhada.

Sem dúvidas que As Duas Irenes tem mais méritos que defeitos, principalmente nas atuações e roteiro. Contudo, o gostinho agridoce de que o filme poderia ter entregue mais se faz presente.

 

 

 

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As Duas Irenes

Overview

Irene (Priscila Bittencourt) é a filha do meio de uma família tradicional do interior, que um dia descobre que o pai (Marco Ricca) tem uma filha fora do casamento, também chamada Irene (Isabela Torres) e da mesma idade que ela. Revoltada com a descoberta, Irene passa a se aproximar de sua meio-irmã e da mãe dela, sem revelar sua identidade. É o início de uma cumplicidade entre elas, que passa também pela descoberta da sexualidade.

Metadata
Director Fabio Meira
Writer Fabio Meira
Author
Runtime
Country
Release Date 12 fevereiro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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