Ao cair da Noite (It Comes at Night, 2017) – Crítica – Medo à moda antiga

Tem muita gente que defende que parte da arte de se fazer um  bom filme de terror está se perdendo com o tempo. Com o avanço da tecnologia cinematográfica, cada vez mais podemos mostrar na tela todo tipo de criatura, monstro, doenças, deformações e o que mais o roteiro demandar, de modo direto e convincente. E isto, que poderia parecer uma vantagem, acaba por dificultar a capacidade de instigar  medo no telespectador. H. P. Lovecraft já dizia que A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido. E aquilo que vemos, conhecemos.

Muitas vezes ao se mostrar uma imagem se atenua o terror. E ao se sugerir aquilo que não vemos, mas que sabemos estar presente, somos obrigados a lidar com o desconhecido. Filmes como TubarãoAlien, o oitavo passageiro usam disto com muita sabedoria. O tubarão de Spielberg e o alien de Scott aparecem muito pouco na câmera, e quando aparecem é de modo cortado, rápido, incompleto. E isto os torna muito mais terríveis e ameaçadores. Se um efeito especial de qualidade pode ganhar em termos  de causar choque, nojo e asco, sugerir nos causa um medo muito mais profundo e incômodo.

Ao cair da noite segue esta linha de uma forma ainda mais radical. Aqui o inimigo não apenas é pouco mostrado, como sequer é uma criatura ou algo exatamente visível ou tangível. É um raro caso de filme de terror em que não há um antagonista propriamente dito. Há um fator externo que cria uma completa e justificada paranóia nas duas famílias do filme, mas é algo impessoal, onipresente e intangível.

Na primeira cena já somos arremessados neste ambiente, sem aviso e preparação. Nos primeiros segundos de filme nos vemos em uma situação sem retorno, de desespero inescapável. Mas o que seria do inferno se os condenados não sonhassem em escapar? O segundo ato do filme cria uma fresta de não exatamente esperança, mas conforto mínimo em meio a catástrofe, uma calmaria que sabemos que anuncia a tempestade. E quando ela chega, apesar de esperada, nos arremessa de tal forma em direção ao precipício que nos deixa completamente atônitos.

Um dos principais méritos do filme é a fotografia. Há apenas dois ambientes, a floresta e a casa. A floresta nada tem de idílica. É um ambiente escuro, hostil, onde sabemos que não conseguiríamos ver o perigo até que seja tarde demais. O uso visual da floresta lembra muito A Bruxa. A trilha nas cenas de floresta piora a questão, é tribal e incômoda. Já a casa é um labirinto claustrofóbico de paredes improvisadas, janelas fechadas por tábuas e escadas estreitas. Mas é a noite que o visual do filme atinge o primor. O constante uso de sombras e luzes parciais nos mostra apenas a fronteira do terror que está a penumbra.

Nada disto funcionaria sem um elenco que desse profundidade aos personagens. 90% do conflito dramático é a relação entre as duas famílias que desejam a amizade entre si mas não estão apavorados demais para confiarem uns nos outros. Apesar de não contar com nenhuma grande celebridade de Hollywood, todos atores estão em ótimas atuações. O destaque vai para Kelvin Harrison Jr. (O nascimento de uma nação), que interpreta Travis, um jovem que ainda não foi sufocado plenamente pelo ambiente paranóico, e que atravessa conflitos para conciliar suas emoções com as regras de sobrevivência.

Ao cair da noite conseguiu trazer o medo do desconhecido de uma maneira rara nos cinemas de hoje. E faz isto sem apelo ao fantástico ou monstruoso. A história é uma situação plausível, nos fazendo acreditar que entraríamos na mesma paranóia se estivéssemos no lugar dos personagens. Terror psicológico de primeira, que talvez não agrade ao público que ama filmes de jump scare, ou os torture porn, mas totalmente recomendável para os fãs do terror a moda antiga.

Ninguém pode reclamar dos filmes de terror dos últimos meses. Quando filmes como Life ou Alien Covenant chegam a parecer medianos graças a Corra! ou Ao cair da noite, sabemos que estamos em uma safra de qualidade. Deu vontade de aplaudir de pé.

Not rated yet!

It Comes at Night

Overview

Paul (Joel Edgerton) mora com sua esposa e o filho numa casa solitária e misteriosa, mas segura, até que chega uma família desesperada procurando refúgio. Aos poucos a paranóia e desconfiança vão aumentando e Paul vai fazer de tudo para proteger sua família contra algo que vem aterrorizando todos.

Metadata
Writer Trey Edward Shults
Author
Runtime
Release Date 9 junho 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 3    Média: 4.7/5]
  • Maurício Costa

    Algo me diz que vou adorar esse filme.

    • Aniello Greco

      Vai. Vejo com você no domingo.

  • Lucas Albuquerque

    Aniello, a pergunta cretina: este ou A Bruxa?

    • Aniello Greco

      Difícil escolha. Mas dá Black Phillip por um chifre de vantagem.

      • Lucas Albuquerque

        eu fico com uma praga de vantagem pra este