Aniquilação (Annihilation, 2018) – Crítica
Posters para "Aniquilação"

Aniquilação é o segundo trabalho de direção de Alex Garland, depois do excelente e premiado Ex Machina – filme que o Razão de Aspecto elegeu como o melhor de 2015. Já reconhecido como roteirista, com currículo que inclui filmes do nível de Extermínio, Garland tem uma ponto de vista pessimista sobre a humanidade, trabalhado sempre com narrativas densas,  que combinam uma trama concreta e relativamente simples com significados profundos, baseados em alegorias e simbolismos os mais variados. Em Aniquilação, o diretor dá mais um passo em direção ao debate sobre a natureza da humanidade e sua relação com o mundo e consigo mesma. Aniquilação é repleto de simbologias e enigmas, por isso merece uma análise aprofundada de seus significados. Assim, este texto se dividirá em duas partes. Primeiro, sem spoilers e, logo após o trailer do filme,  uma análise com spoilers, explicações e teorias.

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Poucos são  os lançamentos que, já no final do filme, provocam a imediata impressão de termos assistido a um clássico.  Para que um filme impressione dessa forma, não basta ser excelente, mas também deve causar a sensação de mind blowing, de assombro, fascinação e dúvidas. Aniquilação gerou este assombro imediato.

Aniquilação é uma mistura de horror cósmico lovecraftiano e pessimismo Kubrickiano, contada usando de uma exuberância visual e bucólica digna de um Jardim do Éden. Em termos técnicos, trata-se de uma obra impecável. Direção de arte, de fotografia e os efeitos visuais não deixam nada a dever para Blade Ruuner 2049,  e os efeitos sonoros não deixam nada a dever para A Chegada, por exemplo – e estamos comparando, sem hesitação, com vencedores de Oscar técnico nessas categorias. Aniquilação certamente foi produzido para a tela grande e merecia ser exibido em salas IMAX e XD. De certa forma, a distribuição em streaming pode diminuir o impacto da técnica no espectador. Em declarações públicas, O próprio diretor Alex Garland, inclusive, mostrou-se contrariado com essa decisão . Por outro lado, a decisão da Netflix possibilita que Aniquilação encontre seu público com muito mais facilidade, economizando numa campanha de marketing que poderia resultar em fracasso de bilheteira – ao menos relativo -, como foi o caso de Blade Ruuner 2049.  Afinal de contas, trata-se de uma narrativa lenta, compassada e complexa, que resultaria em muitas queixas e reclamações do público médio por ser “chato” e “difícil”. Futuramente, Alex Garland vai mudar de ideia.

Narrativamente, tudo começa com uma cena de interrogatório que nos causa suspense e estranheza. Lena (Natalie Portman) está cercada por uma multidão de pessoas em trajes de proteção biológica e responde, de forma completamente não esclarecedora, a seus interrogadores. Nessa cena curta, aprendemos, rapidamente, que ela é a única sobrevivente de um grupo e que não sabe descrever exatamente o que aconteceu e como aconteceu.

À medida que a trama se desenrola, em um longo flashback, cada pergunta respondida gera mais e mais dúvidas. Aprendemos que Lena fez parte de um grupo de exploração científica/militar de um fenômeno descrito como O Brilho, uma distorção bizarra, originada da queda de um meteoro em um farol, que se expande ao longo da Área X. Vários grupos exploratórios já adentraram n’O Brilho, mas apenas uma pessoa retornou com vida: Kane (Oscar Isaac), marido de Lena, cujo estado físico e mental apenas aumentou as dúvidas sobre o que teria ocorrido.

O cenário em que o filme se desenrola é uma mistura de Jardim do Éden com um mundo pós apocalíptico. A beleza e a exuberância natural, unidas ao lado ameaçador e destruidor da natureza. Para a natureza, morte e vida são apenas parte de um ciclo, do qual o homem gosta de se iludir achando não fazer parte. Em Aniquilação, vemos a natureza bela, exuberante, destruidora e indiferente. Como contraponto, temos o diálogo entre Lena, bióloga, e Dra. Ventress (Jennifer Jason Leigh), psicóloga, que servem como interlocutoras entre o absurdo d’O Brilho e o mundo humano, sem didatismo ou diálogos expositivos. Pelo contrário, muitas vezes, são a perplexidade e a incompreensão delas diante do impossível, mas real, que constroem a personalidade daqueles personagens, com seus dilemas, medos, com seu passado e seus traumas.

A ficção científica é verossímil, embora não realista, e introduzida de forma palatável e orgânica. Aniquilação discute biologia, física e psicologia, sem condescendência com o público, muito diferente de filmes de Cristopher Nolan como Interestelar e sua maravilhosa explicação sobre o buraco de minhoca entre dois astronautas treinados. Em Aniquilação, não há nem tecnicismos, nem didatismos. A natureza d’O Brilho é explicada pelas imagens, o que deveria ser óbvio ululante em uma obra audiovisual, mas que, infelizmente, é ignorado por uma quantidade absurda de roteiros ruins. O terror, por sua vez, é desenvolvido com equilíbrio entre os temas: temos um pouco de violência, um pouco de sangue e vísceras, no melhor estilo gore,  e muito terror psicológico e corporal. A insanidade e a insalubridade são as grandes ameaças diretas às personagens, mas, por trás disso tudo, existe algo muito mais estranho e além da compreensão das personagens.

Natalie Portman, mais uma vez, demonstra enorme capacidade dramática tanto nos diálogos filosóficos com Jennifer Jason Leigh quanto nos estranhos momentos com Oscar Isaac, mas principalmente, com seu olhar. O cansaço, o assombro, a culpa, o desespero e a determinação de retornar se manifestam sem confusão e sem descanso. Oscar Isaac, por sua vez consegue nos assustar e nos incomodar o tempo todo com seu personagem, que oscila entre a loucura e o vazio.

Muitos dos responsáveis por Aniquilação (Alex Garland (diretor e roteirista), Rob Hardy (fotografia), Geoff Barrow (trilha), entre outros) já trabalharam juntos em Ex Machina. Esperamos que a colaboração entre eles permaneça. Em Ex Machina já notamos não só a extrema competência técnica e entrosamento da equipe, mas, principalmente, a capacidade de usar da ficção cientifica como instrumento de falar da humanidade em tons quase bíblicos. Em Aniquilação, o terror entra forte e nos leva a questionar não apenas quem somos, mas sobre o quão pouco, quão frágeis e quão mesquinhos somos.

O final mais que aberto, entre o alegórico e o psicodélico, pode incomodar algumas pessoas. Chega a lembrar o final de 2001 em alguns aspectos, mas sem tanto hermetismo. Quem gosta de fechos lineares e definidos vai gemer, mas quem gosta de enigmas, múltiplas interpretações e subjetividade, vai amar. Para o Razão de Aspecto, Aniquilação  entra, com folga, em qualquer lista de melhores filmes de sci fi horror de todos os tempos, juntamente como filmes como Alien: o Oitavo Passageiro, O Enigma de Outro Mundo, A Mosca e Invasores de Corpos, por exemplo.

ALERTA DE SPOILER: A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM CONTEÚDO FUNDAMENTAL SOBRE A TRAMA

Decifrando Aniquilação

Sobre o que exatamente Aniquilação trata? Na camada mais superficial, Aniquilação conta a história de uma invasão alienígena. Um ser poderoso tenta dominar o ambiente -e não dominar o mundo – e se adaptar, aumentando, crescentemente, sua área de influência. Nas camadas mais profundas, o filme conta uma história sobre autodestruição – seja física, seja psicológica, seja consciente, seja inconsciente,  e criação de vida. As primeiras grande pistas estão no título e em alguns diálogos, em especial entre Lena e a Dra. Ventress. O Brilho é descrito, muitas vezes como uma força destruidora, mas, ao mesmo tempo,  nunca é retratado de tal forma. O ser humano, por sua vez, é descrito como dono de um impulso autodestruidor – nos relacionamentos amoroso, no trabalho e fisicamente. O câncer da Dra. Ventres é a materialização dessa autodestruição, pela própria natureza da doença: células destruindo o próprio organismo a que pertecem. Simbolicamente, a própria formação do grupo representa a autodestruição, visto que pessoas com vidas estáveis não se alistariam para missões suicidas. Cada personagem tem seu dilema: luto, doença, vício e, no caso específico de Lena, culpa. Assim, a morte seria um erro genético impresso em nosso DNA, em nível molecular, que nos daria impulso de nos autodestruir. A vida, por outro lado, seria imortal. Essa explicação aparece no flashback do diálogo entre Lena e Kane na cama, em uma manhã normal de casal.

O Brilho, por sua vez, é um ambiente nada similar a um cemitério. Lá, toda forma de vida se multiplica, prospera, e se renova em uma evolução turbinada. Mesmo na morte, a vida prospera. Essa característica se deve à refração, descoberta – ou talvez apenas compreendida – pela PhD em física que integra ao grupo. Aniquilação dá indícios sutis com dois planos detalhe da luz refratada do copo d’água; primeiro, na cena do reencontro entre Lena e Kane; depois, no interrogatório de Lena, já na sequêccia final do filme. Entretanto, a refração d’O Brilho não se resume aos aspectos físicos, mas inclui também os biológicos: O Brilho provoca a refração de DNA, gerando nas espécies e modificando tudo que o adentra, incluindo, é claro, os seres humanos.

A refração de DNA é retratada de forma às vezes assustadora, como na cena do crocodilo com dentes de tubarão, às vezes poética, como na cena em que a personagem se entrega ao ambiente, para se transformar em flor, às vezes de forma muito perturbadora, como na apavorante cena do urso que carrega a voz de Sheppard, resultando da consciência refratada transferida no momento de sua morte. Esta é uma sequência ímpar na criatividade, na execução e capacidade de explicação do que se passa dentro d’O Brilho.  Além disso, a casa na qual são atacadas pelo urso é a mesma casa de Lena, mas deteriorada, em ruínas, exatamente como a sua relação com o marido – temos a mesma sala, a mesma escada, mas tudo está escuro, vazio, e a fachada está tomada plantas. Assim, O Brilho  materializa a consciência refratada dos seres de que está se apossando. A refração que O Brilho provoca, portanto, não é uma distorção, mas uma recombinação, que transforma o velho em novo, o abstrato em concreto. A aniquilação da vida gera uma nova vida, num ciclo infinito de destruição e recriação.

No centro de tudo, ao redor do farol, a morte prospera. Temos árvores cristalizadas, esqueletos, e desolação. No epicentro, uma espécie de útero. Na porta de entrada do útero, descobrimos o destino final de Kane. Diante da insanidade, do horror cósmico e do deslumbre, Kane decide se matar e enviar a sua cópia para reencontrar sua esposa. E se mata não com um final horrendo, mas em uma explosão luminosa. Não é um ato de destruição, e sim de renovação. Kane envia à esposa seu novo eu, o que rima com o primeiro encontro entre o novo Kane e Lena. A cópia nada sabe, nada sente, mas reconhece a sua missão. Reconhece Lena e  dispara a cadeia inevitável de eventos que leva a protagonista ao final do filme.

Neste ponto, temos os pontos de vista complementares de Lena e Dra. Ventress. Sem saber do sacrifício de Kane e da existência do duplo, Dra. Ventress  consegue ver apenas a morte, tema do último diálogo entre as personagens. Dra. Ventress está quase totalmente integrada aO Brilho, mas, mesmo assim, não consegue enxergar sua essência -por isso, está sem olhos – E afirma ter entendido o objetivo da coisa: o brilho quer destruir toda a forma de vida na Terra. A resposta de Lena é curta: não, O Brilho quer criar algo novo, mudar tudo, e não destruir tudo. Chegamos, então, à destruição da Dra. Ventress, e a combinação de suas células e do sangue de Lena, em uma espécie de embrião gigante. Desse embrião gigante, surge o segundo duplo, a futura cópia de Lena. O duelo final entre a criatura e Lena é quase uma dança, e não uma luta, em uma cena lindamente filmada.  Há mais medo e assombro que raiva e ódio. O que resolve o duelo? O mesmo instrumento que foi usado para a morte de Kane. A criatura e Lena sabem o que a granada de fósforo branco causa. A granada é passada em um gesto amigável, e não destrutivo. Porém, esse gesto amigável tem de considerar a refração: Lena sabia da transferência de consciência refratada, devido à perturbadora experiência com o urso, e, naquele momento, transfere o sentimento de autodestruição para o duplo. A criatura, então, usa do fogo da granada para destruir a si mesma, ao útero, e em última instância, aO Brilho, com o mesmo objetivo do suicídio de Kane: sair de dentro daquela área. Como? Como Lena transformada.De lá, Lena sai com a tatuagem, que começa a surgir ainda no início da jornada dentro d’O Brilho, como um pequeno hematoma, e a tatuagem, por sua vez, representa tanto o número 8 -símbolo do infinito – quanto o ouroboros – que representa o eterno retorno -, aqui representando um cilo eterno de destruição e criação de vida. Esse símbolo aparece tatuado no braço de mais dois personagens, e, em todos os casos, esses personagens foram modificados e aniquilados pelo Brilho.

O diálogo final entre a cópia de Kane e Lena é a chave final. A cópia sabe que não é Kane. E Lena não consegue dizer se ela é a mesma pessoa que começou a jornada. Os últimos grupos a entrarem no brilho foram um grupo masculino e um grupo feminino. O primeiro, viril, guerreiro, se destrói como humano e renasce diferente, mas incompleto e doente. O segundo, feminino, supostamente mata O Brilho traz o elixir da vida, não a mesma vida, e sim uma vida refratada. Uma nova geração. Não humana. Não alienígena. Algo refratado, recombinado. E finalizado como casal, pronto para gerar mais vida – simbolicamente, seriam Adão e Eva do mundo a ser criado. Assim, O Brilho não foi destruído por Lena, ele se autodestruiu para que pudesse se integrar ao ambiente humano e continuar a saga de aniquilação. O Brilho, portanto, planejou a própria autodestruição para sobreviver aos mais recorrentes e intensos ataques dos humanos.

Por Maurício Costa e Aniello Greco

Quer saber ainda mais veja a nossa Mesa Quadrada sobre Aniquilação:

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Aniquilação

20181 h 55 min
Overview

Uma bióloga (Natalie Portman) se junta a uma expedição secreta com outras três mulheres em uma região conhecida como Área X, um local isolado da civilização onde as leis da natureza não se aplicam. Lá, ela precisa lidar com uma misteriosa contaminação, um animal mortal e ainda procura por pistas de colegas que desaparecem, incluindo seu marido (Oscar Isaac).

Metadata
Director Alex Garland
Writer
Author
Runtime 1 h 55 min
Release Date 22 fevereiro 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 139    Média: 3.8/5]
  • Domicio Ribon

    Muito boa o resumo. A sua interpretação me ajudou a entender o significado das coisas que aconteceram no filme. Só uma sugestão pra corrigir no texto, colocar no Dr. Ventress o Dra pra identificar que é mulher.

    • Maurício Costa

      Tem toda razão sobre a correção! Obrigado pelo aviso! Acabamos reproduzindo no texto o título em inglês!

  • Gui

    Não tinha sacado o final do filme sendo como adão e Eva, muito bom, obrigado pela explicação

    • Maurício Costa

      De nada. Nos esforçamos muito nesse texto.!

  • Vitor Gomes

    Acho a questão da tatuagem mais complexa, ela aparece tanto naquele soldado “espalhado” na piscina e na personagem Anya. Nos três casos, tatuado no braço esquerdo, no mesmo lugar. Como interpretar isso?

    • Maurício Costa

      A explicação é a própria refração de DNA, de quando as pessoas começam a se tornar parte do brilho ou o próprio brilho.

  • Marília Maciel

    Foi impressão minha, ou aquela casa, em que o urso ataca, seria a mesma casa de Lena?

    • Maurício Costa

      Sim, é a mesma casa, mas, digamos, em estado de deterioração, exatamente como o relacionamento deles e a motivação que os leva a aceitar a missão, um após o outro. isso foi algo que percebi somente na segunda vez que vi, já depois do texto, mas vale uma edição!

      • Maria Angélica Matos

        Mas ela não percebe que é a própria casa. Pq isso? Ela não deveria reconhecer?

        • Maurício Costa

          Não necessariamente. Não esqueça que, dentro do brilho, elas têm percepção totalmente distorcida de tempo e de espaço. Além disso, naquele ponto da jornada, ela já estava modificada, ainda que não totalmente, mas estava (a tatuagem, por exemplo, já tinha começado a aparecer).

          • Leonardo Valesi Valente

            Sim… Mas ela demonstra que percebeu sim. Ela se debruça a olhar um detalhe na parede, como se fosse um quadro, dando indicação de que algo no mínimo chamou sua atenção, pareceu familiar talvez.

  • André Rodrigues

    Uma dúvida, essa interpretação toda aparece só vendo o filme ?
    hahaha

    • Maurício Costa

      Em grande parte, sim. Claro, tem de pensar muito, pesquisar simbologia e, principalmente, REVER o filme, o que já fiz 3 vezes. rsrs
      Tanto que levamos 2 dias pra publicar o texto. Já faz uma semana que vi o filme pela primeira vez, e ainda to pensando nele. Os primeiros 3 dias foram intensos!

      • Leonardo Valesi Valente

        Olá! Muito obrigado pela excelente crítica. Mas o detalhe da tatuagem no braço esquerdo da Lena que me deixou intrigado. Ao rever valorizei os aspectos da transmutação, o destaque que é dado à mesma tatuagem no braço da paramédica. Aí no seu texto comenta que o símbolo apareceu tatuado no braço de mais dois personagens. Quem seria? Por favor, aguardo seu comentário. Abraços, Leonardo.

        • Maurício Costa

          Na paramédica e no homem que se integrou (ou explodiu) na parede.

          • Leonardo Valesi Valente

            Ah, ok! Muito obrigado então… Valeu!

  • Raphael Gonçalves

    Sabem se tera continuação, o filme foi baseado em apenas um livro ou resumiu a serie toda?

    • Maurício Costa

      Somente no primeiro da série. Não há notícias sobre possível continuação, pelo menos por enquanto.

  • Júlio César Gonçalves

    Filme maravilhoso! Lendo as sequências.

    • Maurício Costa

      Maravilhoso, sem dúvidas!

  • Barbarella

    Tem um pessoal pirando nas explicações, mas o que eu entendi do filme bateu bem com essa daqui. Precisei dar uma pesquisada pra garantir que captei bem a mensagem haha Mas caramba, filmão. Vou ter que ler o livro agora porque fiquei curiosa.

    • Maurício Costa

      Também lerei o livro. E que bom que concordamos. Nossa crítica foi muito bem pensada e refletida antes de ser publicada!

  • Lucas Dourado

    Muuuuito boa explicação Mauricio, tudo se encaixa mesmo, pirei quando vi que o livro que a Lena estava vendo era A vida imortal de Henrietta Lacks. Resumindo a jornada dos personagens daria para traçar um paralelo com o “Navio de Teseu”.

    • Maurício Costa

      Muito bem pensado. Taí mais um debate interessante a se fazer sobre os personagens, para além do próprio filme.

  • Silvana Schiavo

    Eu só fiquei com algumas dúvidas: 1) Como foi que o clone do Kane chegou na casa da Lena, afinal ele mesmo não sabe, apenas disse que estava parado na porta do quarto e a reconheceu (a refratação explica quase tudo no filme mas teletransporte seria forçar a barra, né);
    2) Porque a destruição do Shimmer curou o clone do Kane que estava morrendo;
    3) Qual é a da perda de memória das personagens no começo do filme e as distorções do tempo (o interrogador no começo do filme pergunta o que ela comeu “voces tinham comida para duas semanas, voce ficou la 4 meses!”)

    • Maurício Costa

      1) Não se teletransportou. Ele saiu do Brilho, exatamente como Lena saiu. E tinha saído com as instrução de procurar lena dada pelo próprio kane. Não esqueça que o exército sabia que ele tinha saído. Basicamente, ele saiu e voltou pra casa. Não precisa de muita coisa pra entender essa elipse de tempo/espaço.
      2) Esta é uma boa pergunta. E eu acho que a sobrevivência da duplicata dependia da destruição do Brilho. Além disso, a duplicata deve ter levado consigo o “defeito genético” de autodestruição do kane original. Quando o brilho é destruído, temos suas versões integradas aos seres humanos, sem dependerem do crescimento em torno do farol.
      3) Aqui eu creio que a explicação é relativamente simples. O Brilho refrata tudo, tempo, espaço, memórias e DNA. Afalta de memória tá mais relacionada ao fato de se ruma duplicata, cuja confusão é natural, ainda mais fora do brilho.. A falta de noção de tempo tem relação com o processo de refração dentro do brilho mesmo.

      • Auri Freire

        Não ficou muito claro no filme, mas nos livros, a falta de percepção da memória foi causada por alguns truques mentais utilizados pela psicóloga.

        • Aniello Greco

          Sem ler o livro, só pelo filme, dá para pensar apenas que o tempo e a memória também são refratados pelo Bright.

  • Excelente texto! Mas, sinceramente, ao meu ver você superestima o filme. Eu havia sacado vários desses temas e até certo ponto o filme ia bem. Mas o final foi pobre. Tanto no CGI, quanto no enredo. Não que uma ficção tenha que ser realista, mas essa incerteza em escolher a pura simbologia e argumentos de alguma forma prováveis deixa uma sensação de preguiça narrativa. “Eu explico até onde dá; o resto eu deixo em signos meio óbvios”. Não incomodaria ver a escolha por uma simbologia alegórica de maneira geral (Mother, Labirinto do Fauno). Ou algumas explicações científicas baseadas em teorias – factíveis ou não (Interstellar, A Chegada). O que me incomoda é juntar os dois caminhos e esperar que ninguém note.

    • Maurício Costa

      Pode ser, mas contra-argumento com 2 coisas: o CGI fica muito prejudicado por ser visto na TV. Não são poucas as TVs com configurações automáticas que fodem completamente a imagem de cinema (uma pesquisa no google te mostra isso). Como vi o filme em projetor, minha impressão dos efeitos foi bem diferente. Quanto à preguiça narrativa, não esqueça que se trata de um filme adaptado. E o livro é de um escritor do gênero “novos estranhos”, que defende a estranheza pela estranheza, sem explicações. Não teria como o filme ser diferente, seria outra coisa. No mais, cada um reage à experiência de forma própria, eu gostei muito, você gostou menos, e esta é exatamente a razão de ser do debate sobre os filmes! Um abc!

      • Eu gostei do filme, achei interessante, bem dirigido, só não gostei do final. Acho que muitas vezes a tentativa ou a necessidade de lacrar o pacote acaba estragando o produto. É bastante recorrente. Nem sempre é fácil selar uma história que na verdade não termina naquele ponto. Deixar aberto para uma sequência e ao mesmo tempo encerrar um ciclo. E sim, é extremamente difícil adaptar um roteiro. É a arte de separar, descartar e reconstruir uma história. Mas eu não li o livro, então minha experiência se restringe ao filme. Abs

  • Gustavo Fonseca

    Antes de fazer este comentário eu assisti a pelo menos uma dúzia de vídeos no Youtube que tentam explicar o filme e li outros sites sobre o mesmo assunto. A interpretação deste site é a mais completa que vi até agora. Sendo assim, do ponto de vista interpretativo eu não tenho como criticar os autores desta análise, porém, faço uma crítica ao próprio filme, a respeito de uma questão mundana, mas que afeta a (minha) suspensão da descrença:
    * Tantos aparatos de segurança utilizados com as personagens Kane e Lena (interceptam a ambulância de Kane, colocam-no em quarentena e fazem o mesmo com a Lena, quando esta retorna da missão). Tantos cuidados e ninguém teve a ideia de fazer um simples exame de DNA nessas personagens? A mutação seria facilmente detectável, haja vista que a própria personagem Lena, por volta de 1h20min de filme, comenta, ainda dentro do Brilho, que na noite anterior havia feito um mero exame de sangue em si mesma e constatado a mutação genética.

    • Maurício Costa

      Bom, mas pq alguém faria um exame de DNA? refração de DNA é um conceito original dessa história, nenhum cientista considera essa hipotese. “Veja só, ela saiu de lé eé um clone ou tem dna modificado”. Eu ficaria surpresos e cogitassem essa hipótese do nada.

      • Aniello Greco

        E não sei se fazer o teste faria alguma diferença. O que fariam após notar que houve alteração no DNA?

        A colocariam em quarentena. Junto com o marido.

        • Maurício Costa

          Bem pensado.

  • Luciane Silva

    Muito bom esse texto. Fui atras de informações para descobrir algo sobre as tatuagens,fiquei muito curiosa e outros textos nao falaram nelas.Perdi outros detalhes,não reparei que outras duas personagens a tinham ( vi na Lena e na outra a paramédica) e vou ter que ver de novo sobre a casa da Lena,tanvem não percebi.. Em geral,gostei,tem furos no enredo, conforme o colega que disse que colocaram eles em quarentena,mas não fizeram exames. A ida de mulheres com pouco treinamento,ou pouco material e tc. qual filme não tem furinhos no enredo.Enfim gostei.

  • Marcio Eustaquio

    O filme é perturbador! O exotismo e o sentimento de culpa São coisas bem recorrentes e que deviam ter sido menos exposto. As cores deram um toque refinado ao filme mas seu fim é incompreensível e circunda para o nada!

    • Maurício Costa

      Acredito que a ideia era causar o incômodo mesmo. 🙂

  • Sarah Sousa

    Não entendi a explosão final. Quem voltou ? A Lena ou a criatura ?

    • Maurício Costa

      Está no texto.

  • Rodrigo Carvalho

    Tive uma impressão sobre o final do filme e gostaria de jogar aqui para o bate papo.

    Quem narra toda história é Lena. Basicamente o filme é o flashback das experiências dela.

    Um momento particularmente interessante é quando nos momentos em que ela aparecia na sala de quarentena, ela parecia um tanto apática, com respostas curtas.

    Semelhante ao Kane que retornou.

    É claro que isso pode ser resultado do assombro de toda a experiência pelo qual ela passou, ou ainda parte de um processo de refração de consciência, mas a semelhança é marcante.

    Acontece que na ultima cena, o “clone” de Kane pergunta a ela se ela é Lena. E ela não responde nada, perplexa pela pergunta ou ainda, incapaz de responder a verdade, dada a situação com militares em volta. Ela sabe que Kane é o “clone”. Ele se levanta e abraça ela, como se ja soubesse a resposta. O enquadramento muda, da direita para esquerda, usando as janelas do ambiente para mostrar que ambos, juntos são outra coisa. Os olhos dele brilham, como um efeito de refração. O enquadramento muda e mostra ela abracada a ele. Os olhos dela brilham.

    Semelhante ao Kane que retornou.

    Minha teoria é que ela mentiu sobre quem retornou, que a cena no farol (brilhante, com o perdão do trocadilho) foi inventada para parecer crivel. Creio que quem voltou nao foi Lena, mas um clone dela.

    O que pensam sobre isso?

    • supernathan

      Eu também cogitei exatamente isso. Mas acho que isso faria perder um pouco do sentido, de que ela saiu de lá mudada e mesmo não sendo o clone, não era a mesma Lena que entrou. Então, prefiro pensar q era ela mesma, mutada.

    • Maurício Costa

      Nossa tese está na crítica.

  • Maria das Graças Cabral

    Excelente a explicação! Amei o filme. Vou assistir de novo pós explicação!

    • Maurício Costa

      Depois volte aqui e diga como foia experiência de rever o filme depois da leitura!

  • Mara Rubia Camara

    Olá, além da Anya quem mais tinha a tatuagem?

    • Maurício Costa

      O homem na parede.

  • Renata Martinez

    filme bem chato

  • Fausto

    Cara, sem dúvida a sua crítica foi a melhor de todas que existem na internet! Todas as outras são extremamente superficiais, já a sua conseguiu ser completa, no sentido de analisar a parte lógica e cronológica/real do filme (os acontecimentos mais especificamente), e também a parte sentimental/emocional da Portman. Assisti o filme apensar uma vez, mas já quero assistir de novo, e quero reparar principalmente na parte emocional que os personagens refletem. Muito obrigado pela crítica, caso eu descubra/leia alguma coisa na internet que ache interessante, vou repassar aqui!

    • Fausto

      PS: se olhar rapidamente para a sua foto, vc parece o professor de “La casa de papel” hahahaha

      • Maurício Costa

        Já me disseram isso ao vivo.

    • Maurício Costa

      Muito obrigado! Apesar de eu ter publicado, o texto é assinado por mim e pelo Aniello greco!

  • Tamira Kfouri

    Melhor análise parabéns!!!

    • Maurício Costa

      Obrigado!