Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018) – Crítica

Ninguém discute que J.K.Rowling é uma autora de grande criatividade e capaz de encantar plateias das mais diferentes faixas etárias. Nesse novo filme do universo de Harry Potter, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald, a audiência continua sendo presenteada com cenas que compõem um mundo mágico delicioso – como em um método de viagem entre a Inglaterra e a França ou a forma como uma árvore genealógica é apresentada.

Entretanto, assim como no primeiro filme (cuja crítica do Razão você pode ler aqui), essa capacidade de criar cenários, objetos (e animais!) fantásticos não têm se transformado em roteiros bem amarrados. A direção (pela sexta vez seguida na franquia) é de David Yates, que faz um trabalho com pontos mais altos (mas também mais baixos) nesta continuação.

O filme abre com uma sequência eletrizante envolvendo o personagem Gellert Grindelwald, grande vilão dessa pentalogia. Enquanto isso, de volta à Inglaterra, Newt Scamander (Eddie Redmayne) recebe a missão de ir até a França, para continuar investigando Clarence (Ezra Miller), que sobreviveu aos eventos do primeiro filme. A caminho da capital francesa, em busca de Tina (Katherine Waterson) estão também Queenie (Alison Sudol) e seu amado Jacob (Dan Fogler). Ao longo do filme, somos apresentados ao irmão de Newt, Theseus (Callum Turner), a  Leta Lestrange (noiva de Theseus e com uma forte ligação a Newt no passado). De volta à franquia estão nada menos que Albus Dumbledore (Jude Law) e Nagini (Claudia Kim), ainda em sua forma humana, antes de se tornar a serpente aliada d’Aquele-que-não-deve-ser-nomeado.

As atuações não comprometem, ainda que não haja nenhum grande destaque. Redmayne parece não ter retornado totalmente do Stephen Hawking de A teoria de tudo… continua meio curvado e com a boca torta, mas ao menos isso combina com a instrospecção e a falta de tino social. Waterson traz uma Tina mais durona, mas, ainda assim, falta muito sal aos atores principais. Pior que isso: desta vez, a dupla Sudol-Fogler, que foram um alento de carisma no primeiro filme, tem menos tempo de tela.

O Dumbledore de Jude Law é um pouco difícil de reconhecer: nos livros e filmes de Harry Potter, ele é mostrado com um velhinho sábio mas meio riponga, um delicioso porra-louca disfarçado de professor sério. Em sua versão de 1927, ainda que o ar de sabedoria já esteja lá, Dumbledore usa terno com colete e passaria como um executivo qualquer. Aguardemos se a franquia mostrará alguma mudança que nos aproxime do personagem que conhecíamos. Johnny Depp, por sua vez, consegue apresentar um Grindewald contido e ardiloso. Ponto para o ator, que vinha se tornando uma caricatura de si mesmo.

Várias cenas são de grande impacto visual, valorizando o trabalho de desenho de produção (Stuart Craig), direção de arte (Martin Foley), cenário (Anna Pinnock) e figurinos (Colleen Atwood). A primeira cena no porão da casa de Newt Scamander, por exemplo, é uma maravilha para os olhos. Outro exemplo: após conhecermos o Ministério da Magia dos EUA no primeiro filme, agora é a vez do seu homólogo francês (com destaque para o visual e o funcionamento do arquivo). Os efeitos especiais envolvendo os animais melhoraram em relação ao primeiro filme, aumentando a sensação de verossimilhança.

Entretanto, descontado o prazer visual que o filme oferece, resta uma obra com problemas de ritmo, de organização, de montagem e de foco narrativo – a começar pelo título do filme, que fala de crimes que nunca são mostrados. Após uma cena inicial com muita ação, segue-se um filme bem mais irregular. Há bastante fan service misturado a cenas que parecem preparar para filmes futuros, flashbacks sobre a história de alguns personagem e muitos diálogos expositivos. O resultado é um filme com pedaços bons, ideias boas, mas meio mal amarrado, disperso.  O terço final, felizmente, retoma um nível de ação e suspense um pouco melhor – mas que, ao mesmo tempo, nos lembra de quanto foi arrastado chegar até lá.

Para piorar, o roteiro traz algumas situações que forçam demais a boa-vontade do espectador atento. Sem dar spoilers, a presença de Queenie e Jacob em Londres não tem exatamente uma razão satisfatória. Além disso, percebam que um determinado capanga de Grindewald, próximo ao final do filme, tem um destino incoerente com o resto dos capangas (afinal, como os outros, ele poderia ter aparatado para longe dali). Por fim, algumas decisões sobre os rumos futuros de determinados personagens parecem ser tomadas contrariando personalidades já estabelecidas e/ou mostrando razões muito frágeis para uma mudança de postura.

 Não há cenas após os créditos, mas o filme termina com uma revelação impactante. Por ser ainda o segundo filme da série e envolver uma informação dada por Grindewald, pode ser que se trate apenas de uma mentira bem utilizada. Caso contrário, J.K.Rowling terá criado um sério problema de cronologia para si mesma.

 E por falar em Grindewald, cabe ao personagem o que o filme tem de mais revelante: a referência extremamente contemporânea ao uso dos discursos e da retórica para motivar e mobilizar as massas carentes de líderes e de espírito crítico. O paralelo com a ascensão de Hitler é o mais óbvio – até pela pentalogia se passar no período imediatamente anterior e durante a Segunda Guerra Mundial – mas vale, dolorosamente, também para os populistas de qualquer espectro político ou religioso que continuam cativando os incautos.

Após um primeiro filme em que foram apresentados novos personagens e lançadas as primeiras sementes da nova franquia, o segundo filme se perde um pouco ao continuar apresentando e pulverizando subtramas e ao optar por ferramentas narrativas que funcionam melhor nos livros do que no cinema. Bem mais sombrio do que o episódio anterior, o que foi um ponto positivo, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald ressente-se de não querer ser nada além de um filme de preparação para episódios futuros.

 

por D.G.Ducci

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Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Quem mudará o futuro?

20182 h 14 min
Overview

Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos.

Metadata
Director David Yates
Writer
Author
Runtime 2 h 14 min
Release Date 14 novembro 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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