A Cabana (The Shack, 2017) – Crítica filme + livro

O livro A Cabana, escrito por William P. Young, foi um best-seller em 2007. A história narrava a jornada de fé do protagonista Mack. Após um desastre familiar ele recebe uma mensagem enigmática e se encontra com a personificação do deus cristão. Deus, acompanhado de Jesus e do espírito santo, tentam passar para Mack ensinamentos sobre a vida. Dado o sucesso de público, naturalmente mais cedo ou mais tarde tal premissa iria para as telonas.

O presente texto irá analisar a adaptação cinematográfica. Contudo, especialmente aqui iremos fazer, após a crítica, uma entrevista exclusiva com uma fã do livro  e que também já conferiu o longa. Assim, vocês terão também a visão do fã.

Sobre o filme, alguns elementos se destacam. Primeiro: dado o mote da história é perceptível que o alvo é um público estritamente religioso, mais especificamente cristão. Portanto caso você seja ateu, por exemplo, irá aproveitar pouco ou possivelmente nada. E isso é sim um demérito do longa. Pois mesmo em filme onde o foco é a mensagem, panfletária, como é o caso aqui, espera-se que ele entregue cinema – coisa que A Cabana passa longe. Veja a mão de Scorsese, no também religioso, Silêncio ou até a bela exaltação que Mel Gibson faz em Até o Último Homem e compare com o que A Cabana entrega…

Se há um ponto positivo é a atuação do Sam Worthington que interpreta o protagonista Mack. Ele faz o que pode para entregar as angustias de um homem que sente o peso de uma tragédia. Os demais atores alternam entre o funcional, caricato e esquecível. Logicamente que o roteiro não ajuda, exigindo pouco e em diálogos completamente tortos.  Octavia Spencer se apoia em maneirismos, caras e bocas que já são comuns à atriz. Avraham Aviv Alush traz um Jesus tão estranho que parece em um momento que ele vai ter um romance com Mack. Sumire Matsubara é completamente rasa nas expressões. Alice Braga não parece confortável com o texto e tem um dos piores arcos do filme.

O ar de autoajuda prejudica muito. Não se tem uma preocupação em desenvolver diálogos naturais, mas sim em vender clichês com personagens totalmente unidimensionais. Até mesmo Mack, cujo personagem não termina do jeito que começou, tem uma transformação linear e previsível. O foco é a emoção fácil – não duvido que boa parte do público se debulhe em lágrimas – nesse sentido, a comparação com Beleza Oculta é pertinente. Em ambos vemos personagens rasos, apelo à emoção e frases motivacionais que resultam em um público choroso ao final da exibição.

Em vários momentos é utilizado a narração como recurso para explicar ou o que está explicito em tela ou o que a direção não teve competência de mostrar – sendo uma variação de redundância e muleta. A primeira frase da narração, por outro lado, funciona, pois dá um ar fabulesco à trama. Já a insistência na ferramenta torna-a cansativa e didática, duvidando da inteligência do público.

A emoção sincera é evidenciada na cena que Nan consola Mack, porém tal momento é raro nas duas horas de exibição. Quase sempre acompanhado de uma trilha lamuriosa que força o choro a fórceps, A Cabana prega o sentimento ao invés de trabalhá-lo cinematograficamente. Pelo menos, ao contrário de filmes como Deus Não Está Morto, não há um retrato vilanesco dos ateus e pessoas de outras religiões. O filme, que mal dá conta da própria mensagem, acertadamente não envereda por esse caminho. Algo elogiável, mas pouco para sustentar o todo.

Finalizada a análise do longa, vamos iniciar agora o bate papo com Marluce Ferreira:

1)Lucas Albuquerque: Qual ponto mais de te fez gostar do livro?

Marluce Ferreira: O que eu mais gostei no livro foi a essência dele. A capacidade de nos fazer refletir a nossa relação com deus mesmo vivendo um episódio tão tenebroso. Outro ponto que também me envolveu bastante foi o desmembramento explícito da trindade ao mesmo tempo evidenciando a unicidade.

2)LA: Como você descreveria os personagem e o filme foi fiel a sua imaginação? 

MF: Mack sempre me pareceu um homem forte, mas que abalado pelas coisas que aconteceram, ele acabava passando, fisicamente, uma fragilidade. Já Sarayu tem traços orientais, porém o que se destacava era a leveza que ela transmitia. Jesus possuía uma imagem que segue mais a região que ele nasceu do que aquela que vemos comumente retratada. Nesse sentido, portanto, os personagens no geral corresponderam bastante a minha expectativa, especialmente o Mack, o ator [Sam Worthington] conseguiu passar toda a dor do personagem, a atuação dele me convenceu bastante. Fiquei com um incomodo com relação ao Papai, a Octavia Spencer é maravilhosa, mas talvez por uma questão física não conseguiu me passar a grandiosidade do personagem. A atuação da Alice Braga como Sophia não me gerou empatia, ficando forçado.

3) LA: O que mais te marcou na adaptação e o que te decepcionou no filme?

MF: O que mais me surpreendeu foi a atuação do Mack e a cena do corredor com o Mack, a Nan e o Oficial Dalton, me emocionou profundamente.
O que me decepcionou foi o final. Faltou o fechamento que me fez acreditar que tudo aquilo foi real e justo. No livro, o momento mais marcante foi a cena da cachoeira, perto do final. No filme essa cena teve coisas belas e ao mesmo tempo mudanças que eu estranhei, então tenho um sentimento dúbio ali.

4)LA:  Você indica o filme para os fãs do livro ou acha que a versão do cinema manchou o teu carinho pela obra? 

MF: Mesmo com os problemas indico sim o filme para os fãs do livro. A Cabana no cinema é a materialização de algo esperado por anos por muitos. Foi o meu reencontro com Papai e finalmente a minha despedida da Missy.

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The Shack

2017Duration unknown
Overview

Um homem vive atormentado após perder a sua filha mais nova, cujo corpo nunca foi encontrado, mas sinais de que ela teria sido violentada e assassinada são encontrados em uma cabana nas montanhas. Anos depois da tragédia, ele recebe um chamado misterioso para retornar a esse local, onde ele vai receber uma lição de vida.

Metadata
Director Stuart Hazeldine
Writer
Author John Fusco
Runtime Duration unknown
Release Date 3 março 2017

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