120 Batimentos por Minuto (2017) – Crítica
120 Batimentos por Minuto

120 Batimentos por Minuto já recebeu diversos prêmios, dentre eles o Grand Prix em Cannes – um dos mais importantes no prestigiado festival. Além de ter sido o representante francês no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (e tal como o brasileiro Bingo: O Rei das Manhãs, também já está fora da disputa).

Mas será que 120 Batimentos por Minuto merece toda essa honraria? Sendo simplista, entre o sim e o não, a resposta é sim. Porém o mais sincero seria dizer “em partes”. A história que acompanha um grupo de ativistas na luta pela conscientização e tratamento da AIDS no começo dos anos 90 na França, tem muitos méritos, mas às vezes se alonga.

120 Batimentos por Minuto

O filme segue o ritmo do grupo, ou seja, temos um ar indócil que fica notório na câmera na mão e em transições de cenas. Vemos diversas manifestações que vão desde invasões a salas de aula, passeatas na rua e protestos em empresas.

(vale ressaltar que esta crítica não irá fazer um julgamento político dos atos dos personagens. Não interessa para a análise do filme se eu concordo com aquelas atitudes ou se as considero criminosas).

Acompanhamos de perto as reuniões do Act Up, onde eles discutem tais atos, planejam os próximos e põe em pauta discussões várias sobre a questão – sempre ressaltando a importância das minorias como estrangeiros, prostitutas e LGBTs.

120 Batimentos por Minuto

Eis aí o ponto mais forte e mais fraco de 120 Batimentos por Minutos: o convite para estarmos naquela organização.

Ao sermos colocados como mais um naquele meio, vide a cena inicial, a direção de Robin Campillo (também responsável pelo roteiro, ao lado de Philippe Mangeot) nos torna quase como membros ativos daquelas discussões. Discussões que vão além do “nós contra eles”, já que há debates calorosos dentro do próprio grupo – algo bem positivo.

Porém, tais momentos ficam redundantes e se prolongam. Em um filme de 2h20 fica a pergunta se realmente precisava de tantas idas e vindas sem sair do lugar. E mesmo as interessantes discussões por vezes acabam marcadinhas demais.

120 Batimentos por Minuto

Curiosa a opção de mudar o foco narrativo. De ir do grupo para indivíduo. A transição é suave, apesar de marcada por um diálogo que é belo, porém sem sentido naquele contexto – parece que o mundo para para ouvirmos os personagens.

De toda forma, em momento algum soa como dois filmes diferentes e Campillo sabe tirar o melhor de cada momento. Seja em cenas como a do grupo deitado no chão, embalado por uma trilha emocionante (som que também é destaque na sequência final), seja da doença invadindo o personagem – vale o destaque para uma delicada cena de masturbação.

E a transição funciona não só do mundo político para o pessoal, como em diversas cenas onde temos um recurso interessante, visto geralmente em comédias. Dois personagens estão dialogando e parte desse diálogo praticamente se transforma em narração, ilustrada por cenas futuras (que são as palavras daquela conversa, tornando-se presentes a partir dali). Isso acelera o filme e o faz andar.

Apesar das válidas tentativas de dar esse dinamismo, o filme pesa. Pesa nos discursos (ele é assumidamente panfletário e não há problema algum nisso), pesa nos temas médicos (algo justo no tema) e pesa no tempo – aqui realmente não dá conta e vacila.

Outro destaque vai para o elenco e a direção deste. O diretor extrai da juventude uma intensidade nos embates, nos debates e no sexo. Os atores se entregam bem ao projeto. Uns sendo exigidos delicadeza, sobriedade e resiliência, outros precisam demonstrar vigor, descontentamento e até a doença em si.

Nesse sentido, todos os elogios do mundo para Nahuel Pérez Biscayart, que faz Sean Dalmazo. O personagem com mais camadas foi entregue a um ator realmente capaz. Apesar dele ter trabalhos desde 2003 eu confesso que não o conhecia. Vale ficar de olho.

120 Batimentos por Minuto está ganhando destaque sim pelo tema e pela forma documental/crua/poética com que é tratado. Mas os méritos vão além e temos um cinema de boas ideias e que sabe o que quer ser.

Confira as nossas críticas do filmes ainda na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: Corpo e Alma (húngaro) e Uma Mulher Fantástica (Chile).

Not rated yet!

120 battements par minute

Overview

França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a Aids, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde delicado.

Metadata
Director Robin Campillo
Writer
Author
Runtime
Country  France
Release Date 23 agosto 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 2    Média: 4.5/5]
  • Maurício Costa

    Acho que acada narrativa tem seu tempo, e esta precisava mesmo ser longa. Todo o incômodo e a crueza que o filma passa depende exatamente do ritmo compassado. Além disso, eu gostei muito da cena em que o “mundo para”. Foi exatamente a sensação que tive, era o que o filme queria passar e creio que estava totalmente dentro do contexto. Aquele é o tipo de conversa que pessoas naquelas circunstâncias teriam. Achei comovente, de verdade. E não tenho preguiça de filme longo mesmo. hehe

    • Lucas Albuquerque

      Entendo de verdade a questão incômodo e do tempo do filme. Entra aí em uma questão pessoal, de preferir uma narrativa concisa e de enxergar nisso uma potência a mais para não diluir certas ideias.
      Agora a cena – bela, por sinal – que o mundo para. Ela funciona no âmbito emocional, mas me tirou da imersão do filme. E volta e meia alguém no “palco” fala para terem discussões com todo mundo, evitar conversas paralelas, e ali, portanto, um diálogo grande daqueles não faria sentido.
      Eles poderiam usa o bom texto em outro contexto.
      Toda forma é um belo filme, que pena que ficou de fora