Especial: Os Trombadinhas (1979), crítica por Diogo Almeida

Em clima de Copa do Mundo, Diogo Almeida, convidado especialíssimo do Razão de Aspecto , relembra este clássico filme ruim do cinema brasileiro.

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Para curtir a Copa do Mundo, veja um filme com o Pelé!

Este filme é mais conhecido por uma curta cena que virou meme. Nela, o tira Bira (!) – interpretado com maestria por Paulo “Bandido da Luz Vermelha” Villaça – prende uma meliante que, antes, tinha lhe sapecado uma azeitona no bucho. Aí aparece o Pelé – interpretado com maestria por Pelé -, e a criminosa, embevecida, pergunta, “Você… é o Pelé?”. E Pelé, sarcástico: “Não, eu sou o Jô Soares, sua pi-ra-nha”. O riso é imediato, já que o Rei do Futebol é negro e atlético, e Jô Soares, branco e gordo. Daí, Pelé procede para apanhar com os pés o revólver caído do Bandido da Luz Vermelha e o lança nas mãos do mesmo, como se se tratasse do gol contra a Itália no final da Copa de 70.

Todos são mestres e poetas no auge de suas formas em “Os Trombadinhas” (1979), o melhor filme brasileiro produzido nos anos 70, com a notável exceção de todos os outros. Trata-se do rebento da insólita reunião de talentos que inclui o diretor Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro de Cannes por “O Pagador de Promessas” (1962), Carlos Heitor Cony, escritor consagrado e recentemente falecido, e o próprio Pelé, co-roteirista, cantor e compositor da canção dos créditos finais (“Moleque Danado”). Perdidos ali no meio estão Paulo Goulart, intérprete de nove entre dez fazendeiros nas novelas da Globo, Villaça e Raul Cortez, cuja ponta como um juiz de menores dura menos que a cena que virou meme.

A trama envolve os esforços de um empresário brasileiro genérico (Goulart) que, auxiliado pelo maior jogador de futebol do mundo (adivinhe quem), tenta desbaratar uma quadrilha que recruta meninos de rua de São Paulo para cometer crimes. Para os menores de 35 anos, explica-se que “trombadinha” era gíria nos anos 70 e 80 para os assaltantes-mirins que “trombavam” nas pessoas para distraí-las e roubá-las de seus pertences. O argumento do filme – de autoria de Pelé e Cony, que também assina o roteiro – provavelmente nasceu de boas intenções. Infelizmente, não apenas o inferno mas também o Cemitério de Filmes Ruins estão cheios de boas intenções.

Aparentemente, Anselmo Duarte – dono de uma longa ficha de serviços prestados ao cinema nacional – odiou dirigir “Os Trombadinhas”, a tal ponto que este seria seu último trabalho na função. Nota-se. O filme não esconde seus sentimentos: as atuações são mecânicas, a câmera, apenas burocrática, e a tensão dramática, risível. São frequentes as interrupções feitas pelos personagens para explicarem didaticamente os problemas sociais do Brasil e os procedimentos da polícia (que, à época, estava dedicada a resolver o problema dos meninos de rua através de grupos de benevolentes voluntários conhecidos como “Esquadrões da Morte”). A montagem tenta dar algum ritmo ao roteiro simplório, mas o esforço vai por água abaixo quando Pelé tenta aplicar sua técnica futebolística em cenas de lutas marciais que fazem os filmes de Bud Spencer e Terence Hill parecerem coisa da Ópera de Pequim.

Se não acredita em mim, vá assistir ao filme no Youtube Como diria o Rei do Futebol: “entende”?

 

O colunista convidado:

   Diogo Almeida nasceu em Natal em 1980. Ainda gosta de cinema.

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